Telefonemas, rádio, TV por satélite e VPNs: com bloqueio de internet no Irã, população retoma outras formas de comunicar
Os iranianos enfrentam um corte da internet imposto por autoridades há mais de 14 dias, segundo o observatório Netblocks, que monitora a liberdade de comunicação online. Mas a população conta com várias opções para contornar esse bloqueio.
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Rádio de ondas curtas
Sediada na Holanda, a Radio Zamaneh começou a transmitir em ondas curtas um programa informativo em persa durante as manifestações de janeiro no Irã.
"É muito difícil para as autoridades interferir nas ondas curtas, porque se trata de uma difusão a longa distância", explicou à AFP sua diretora, Rieneke van Santen. "As pessoas podem ouvir o programa em um rádio pequeno, simples e barato. É a típica solução de emergência."
O transmissor fica "mais perto da Holanda do que do Irã", disse a diretora, sem revelar a localização exata. Segundo ela, as autoridades iranianas podem descobrir se quiserem.
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Telefonemas
Alguns iranianos ainda conseguem fazer ligações de uma linha fixa para o exterior, "o que é bastante surpreendente", comentou Mahsa Alimardani, da organização de defesa dos direitos humanos Witness. Por medo de serem ouvidas pelos censores, as pessoas evitam falar sobre temas políticos, como a morte do aiatolá Ali Khamenei.
Os cartões telefônicos pré-pagos são caros e costumam oferecer menos tempo de chamada do que o previsto. "Você compra um cartão de 60 minutos e ele acaba em 8", contou Rieneke van Santen. Eles são usados principalmente em "telefonemas para familiares após um atentado, para avisar que alguém está vivo".
VPNs
As redes privadas virtuais (VPNs), ferramentas que permitem acessar uma conexão de internet criptografada, servem para contornar as restrições de acesso locais, mas precisam de uma rede em funcionamento.
A internet funciona "em torno de 1% dos seus níveis habituais" no Irã, segundo o observatório Netblocks. Várias pessoas que usaram uma VPN receberam advertências em seus telefones, supostamente enviadas por autoridades.
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Antes da guerra, milhões de iranianos usavam a rede da empresa canadense Psiphon, que permite "evitar melhor a detecção" do que uma VPN clássica, informou o especialista em dados Keith McManamen.
A Psiphon chegou a ter até 6 milhões de usuários diários no Irã antes do bloqueio da internet. Atualmente, conta com menos de 100 mil. Mas "a situação é muito dinâmica" e muda a cada hora, ressaltou o especialista.
A empresa americana Lantern oferece dispositivos semelhantes e é muito popular no Irã.
TV por satélite
Criada pela ONG americana NetFreedom Pioneers, a Toosheh é uma tecnologia que usa equipamentos de TV por satélite para transmitir dados criptografados à população iraniana.
Na prática, os usuários gravam em um pendrive os dados criptografados emitidos pela TV, que descriptografam por meio de um aplicativo em seu telefone ou computador.
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Em 2025, havia 3 milhões de usuários ativos da Toosheh no Irã, "com milhares, e até centenas de milhares, de usuários desde o bloqueio da internet em janeiro", informou Emilia James, diretora de programas da ONG. Entre os programas habituais da organização, estão temas relacionados à "segurança pessoal e digital", acrescentou.
Como os usuários se conectam a um programa de difusão, não podem ser detectados, explicou a diretora.
Starlink
O serviço de acesso à internet por satélite foi usado para transmitir informações ao exterior durante os protestos, no momento em que o governo tentava bloquear as comunicações. Mas os terminais da Starlink são caros (cerca de US$ 2 mil (R$ 10,5 mil) no mercado negro iraniano) e difíceis de conseguir em regiões pobres, como o Curdistão, onde a repressão foi especialmente dura, explicou Mahsa Alimardani, da ONG Witness.
A Anistia Internacional recebeu avisos de "operações em residências (...) prisões de pessoas que possuíam equipamentos da Starlink", contou Raha Bahreini, pesquisadora da ONG. Quem é descoberto por autoridades se comunicando com o exterior pode pegar penas que variam de prisão à pena de morte, alertou.
Procurada pela AFP, a Starlink não comentou o assunto.
