Teatro Copacabana Palace é rebatizado em homenagem a Fernanda Montenegro: 'Agradeço este gesto generoso', diz atriz
Reverenciado como um dos mais célebres palcos cariocas, o Teatro Copacabana Palace passou a se chamar, na noite desta quarta-feira, Teatro Fernanda Montenegro. O anúncio foi feito com a presença da atriz, ao fim do Copa Art Talks, realizado semestralmente pelo hotel em parceria com a Revista Ela, do GLOBO. Em sua quinta edição, o evento promoveu o painel "Uma conversa sobre o tempo", em que a homenageada foi entrevistada pela editora Marina Caruso.
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— São 76 anos desde que entrei nesse teatro pela primeira vez. Um palco que sempre teve uma grande presença cênica nacional. Agradeço este gesto generoso, mas meu nome não está titulado sozinho. Comigo estão grandes personalidades de uma geração vocacionada, representando a nossa cultura. Hoje, trago a lembrança dos jovens atores que comigo pisaram neste palco em dezembro de 1950 — disse a atriz, ao discursar diante da placa que leva seu nome no teatro.
Ao anunciar a mudança, o diretor-geral do Copacabana Palace, Ulisses Marreiros, falou sobre como a história do espaço tem as apresentações da atriz entre seus pontos altos.
— Vivemos um momento muito bonito nessa última hora, e me sinto muito honrado em pisar neste palco. Cresci, em Portugal, marcado pela dramaturgia brasileira. Acompanhei a reconstrução do teatro, durante a reforma, e fomos descobrindo, neste período, quantas histórias estavam por trás dele. E muitas delas foram vividas por Fernanda. Isso foi um aprendizado muito grande para nós — disse.
Fernanda Montenegro no Teatro do Copacabana Palace, que agora leva seu nome
Bob Wolfenson
Ao receber a entrevistada no palco, Marina Caruso lembrou que os participantes do Copa Art Talks "nos ajudaram a costurar reportagens e comemorações importantes do centenário do GLOBO e dos 60 anos da Ela". E completou: "Nossa convidada de hoje é também um ícone do soft power carioca. Além de ser a grande dama do teatro brasileiro, trata-se da única atriz do mundo a entrar para o Guinness Book ao reunir um público de 10 mil pessoas em uma leitura dramatizada".
História compartilhada
São muitas as ligações entre Fernanda e o teatro que agora leva o seu nome. Trata-se, afinal, da primeira plateia para a qual ela se apresentou, em dezembro de 1950, com a peça "Alegres canções das montanhas”. Ao lado dela, estavam colegas como Nicette Bruno, Beatriz Segall e Fernando Torres, com quem iniciou, nos ensaios, uma união longeva. Na ocasião, uma crítica do GLOBO sobre a peça, feita por Gustavo Doria, disse: “Essa jovem surpresa que é Fernanda Montenegro, a bem dizer, rouba todas as cenas”.
—Temos que ser sobreviventes. Todo dia, temos um desafio. Quando penso nos meus decênios, vejo como tudo mudou. Já não temos a ilusão de que o mundo vai dar certo, como tinha na adolescência. Tive a honra de ter uma vida que muitos me amam. Mas também há uns que acham que não somos nada. A esses não agradeço — afirmou Fernanda.
Atriz Fernanda Montenegro é entrevistada por Marina Caruso, editora da revista Ela, do GLOBO
Guito Moreto
De lá para cá, foram oito espetáculos apresentados na casa. A atriz, entretanto, inicia uma nova temporada no agora Teatro Fernanda Montenegro partir desta sexta-feira. Até domingo, ela apresenta "Nelson Rodrigues por ele mesmo", baseado no livro homônimo organizado pela filha do autor, Sônia Rodrigues. Na sequência, de 17 a 19 de abril, é a vez de "Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir", solo com trechos da obra “A cerimônia do adeus” da escritora francesa.
— Você toda hora é chamada a se provar e a se comprovar. Você tem que ter resultado, colaborar. E isso tudo, na minha cabeça, é teatro. Cada um de nós aqui é um personagem. A roupa que estou vestindo é figurino. É sempre uma entrada em cena. Você não pode sair de cena e dormir — disse ela. — De repente, tenho 96 anos. Já me sinto com 100 anos. Há mais coisas entre o céu e a terra do que há nossa vã filosofia — disse Fernanda, citando Shakespeare.
Ícone carioca
O teatro do Hotel Copacabana Palace foi inaugurado no alvorecer dos célebres Anos Dourados, em 1949. Na ocasião, o espaço requintado com poltronas revestidas de couro verde, imponente cortina de veludo da mesma cor e um amplo foyer de mármore ocupou o espaço deixado pelo Copacabana Theatro-Cassino, depois que os jogos de azar foram proibidos em todo o território nacional, três anos antes.
A primeira peça a entrar em cartaz foi "A mulher do próximo", de Abílio Pereira Almeida. Na montagem, Paulo Autran, que na época ainda exercia a advocacia, estreou como ator profissional. Era o início de uma história memorável, em que nomes como Orson Welles, Santos Dumont, Marlene Dietrich e Edith Piaf passariam pela casa.
Entre dramas, comédias a apresentações musicais, o palco testemunhou também um triste acontecimento da vida real, em 1953, quando a explosão de uma lâmpada provocou um incêndio de grandes proporções. Detalhe: o acidente se deu durante uma temporada da peça “Mulheres feias”, com Fernanda Montenegro no elenco. O espaço precisou ser todo reconstruído e foi reaberto em 1955, totalmente reconfigurado.
Apesar da importância histórica, voltou a ser fechado em 1994 e assim permaneceu por 27 anos. A reabertura se deu em novembro de 2021, após uma ampla reforma. Do extenso foyer à sala revestida em madeira, com capacidade para 332 lugares, todos os detalhes reverberam a sofisticação do histórico hotel. Entre os elementos, destacam-se os oito lustres suntuosos, as 44 arandelas de cristal, as escaiolas (pinturas à mão que imitam pedra), os carpetes importados da Turquia e 1.945 metros de tecidos em cores exclusivas para estofados do local.
