Taxa de rolha: restaurante não é instituição filantrópica, é empresa

 

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Existe uma fantasia muito brasileira de que restaurantes são uma espécie de extensão da sala de casa — só que com iluminação melhor, guardanapo de pano, alguém te servindo e lavando a louça depois. Talvez por isso qualquer regra mínima de funcionamento seja recebida pelo público como uma afronta pessoal. Cobrou taxa de rolha? Absurdo. Pediu reserva antecipada? Arrogância. Limitou horário? Ditadura gastronômica. Falta pouco para acionarem a Convenção de Genebra porque o sommelier não aceitou abrir um DV Catena falsificado trazido pelo “contatinho do zap”.

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Mas convém revelar um segredo pouco comentado fora das cozinhas: restaurantes são empresas. Eu sei. Chocante. Não são instituições filantrópicas criadas para viabilizar economicamente nossos desejos. Um restaurante existe para vender comida e bebida com lucro — ou ao menos tentando chegar perto disso antes que a conta de luz e o aluguel terminem o serviço.

E é justamente aí que entra a taxa de rolha.

Ela não é uma multa pela ousadia do cliente. Não é um castigo moral imposto por um maître ressentido. É apenas a cobrança pelo fato de que alguém decidiu ocupar uma mesa, utilizar serviço, taças, gelo, adega, equipe, lavagem e estrutura do restaurante sem consumir justamente um dos itens de maior margem da casa: o vinho.

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Boa parte dos restaurantes gastronômicos sobrevive menos do prato principal do que da garrafa que acompanha o prato principal. A cozinha dá prestígio, a bebida paga a conta. Quando um cliente leva vinho de fora, o restaurante abre mão de uma fatia importante do faturamento daquela mesa. A taxa existe para compensar essa equação — e, sinceramente, ela costuma ser muito mais educada do que deveria.

Porque a rolha, originalmente, nunca foi pensada como um hack financeiro para jantar barato. Ela nasceu como um gesto de convivência entre apaixonados por vinho e restaurantes dispostos a acolher garrafas especiais. Aquele Bordeaux antigo guardado há vinte anos. O Barolo trazido de viagem. A garrafa aberta no nascimento do filho e reservada para alguma ocasião importante. O espírito da coisa sempre foi esse: compartilhar algo raro, afetivo ou excepcional num ambiente capaz de honrar a experiência.

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Em Nova York, Londres, Paris ou Copenhague, isso é tratado com relativa naturalidade. Restaurantes estrelados frequentemente aceitam rolha — cobrando por ela, claro — e ninguém interpreta a prática como extorsão. O cliente entende que está pagando pelo serviço e pela estrutura. E o restaurante entende que, às vezes, a experiência daquela mesa vai além da própria carta.

O problema começa quando parte do público transforma a rolha numa espécie de voucher de desconto gourmet. O sujeito compra um vinho qualquer no supermercado, leva para um restaurante com adega milionária e ainda se irrita ao descobrir que existe cobrança pelo serviço. É como pegar um Mc Donalds no drive thru e entrar em um restaurante para comer. Ou levar bolo de aniversário para um restaurante que vende sobremesa e reclamar quando cobram taxa para servir, refrigerar, empratar e limpar tudo depois.

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No Brasil, a taxa de rolha ainda circula mais entre restaurantes gastronômicos e consumidores habituados ao vinho. Mas ela tende a se tornar mais comum conforme cresce o número de brasileiros montando adegas próprias, trazendo garrafas de viagem e tratando vinho menos como artigo de luxo e mais como objeto de paixão pessoal. O atrito atual talvez seja apenas o choque inevitável entre dois hábitos em formação: o do cliente que quer beber sua própria garrafa e o do restaurante tentando sobreviver sem transformar cada mesa num simpático piquenique assistido.

No fundo, a taxa de rolha não é um abuso. É apenas um lembrete meio desagradável, como tantos outros da vida adulta, de que civilização custa dinheiro. Há restaurantes que cobram, outros que não cobram, outros que nem aceitam vinho de fora. Ligue, pergunte, pague, seja agradável. Quer economizar a qualquer custo? Beba em casa. Lá a rolha é grátis.

Ian Oliver é crítico gastronômico, criador do perfil @ocriticoantigourmet e autor da newsletter do GLOBO O Crítico Antigourmet