Tarifaço de Trump afeta eletrônicos? Entenda mudanças do mercado brasileiro
A nova tarifa de 25% imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os produtos brasileiros volta a levantar dúvidas sobre o aumento de preços dos eletrônicos no Brasil.
Embora a medida tenha como foco produtos comercializados no mercado americano, seus efeitos podem alcançar fabricantes, cadeias globais de produção, mas não atinge o consumidor brasileiro deste setor neste momento.
Já que eletrônicos como computadores e smartphones, de marcas como Samsung, Apple, Dell e Lenovo entraram na lista de isenções do tarifaço.
Para entender melhor o cenário, o TechTudo ouviu especialistas como o economista Gabriel Sarmento Eid, além do advogado tributarista Antônio Carlos Morad para explicar melhor sobre como essa tarifa pode afetar o bolso do brasileiro por conta de mudanças futuras do mercado.
O ponto em comum nas análises é que o efeito direto no preço dos eletrônicos, tende a ser pequeno, enquanto o câmbio e a guerra tarifária entre os EUA e a Ásia pesam mais no valor final.
Veja a seguir, mais informações sobre o assunto.
🔎 Tarifaço de Trump pode deixar eletrônicos mais caros? Especialistas analisam
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Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Tarifas aplicadas pelos EUA não atingem diretamente a prateleira nacional; especialistas apontam o câmbio como o vilão dos preços
Reprodução/AP
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Nesta matéria do TechTudo você encontra:
O que é o novo tarifaço anunciado pelos EUA?
Quais eletrônicos ficaram de fora da nova tarifa?
TVs, celulares e notebooks vendidos no Brasil podem ficar mais caros?
Por que algumas categorias receberam isenção?
Há impacto para marcas como Samsung, Apple, Dell e Lenovo?
O consumidor brasileiro precisa correr para comprar?
1.
O que é o novo tarifaço anunciado pelos EUA?
O tarifaço atual reúne duas medidas anunciadas em julho de 2026.
A primeira, de 25%, entrou em vigor em 22 de julho, resultado de uma investigação da Seção 301 que, segundo o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), apontou práticas comerciais consideradas desleais, como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e questões de comércio digital.
Essa cobrança atinge 2.375 produtos, que somaram US$ 7,2 bilhões em exportações em 2025.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Cobranças anunciadas em julho de 2026 somam 37,5% sobre parte dos produtos que o Brasil exporta para o mercado americano
Reprodução/Getty Images
A segunda tarifa, de 12,5%, foi anunciada em 23 de julho e entrou em vigor no dia 24, sob a acusação de que as exportações se beneficiaram de trabalho forçado, uma justificativa aplicada a cerca de 60 economias e rejeitada pelo governo brasileiro.
Com a soma das duas medidas, parte dos produtos brasileiros pode chegar a uma cobrança de 37,5%.
O governo do Brasil condenou as tarifas e afirmou que vai acionar a Lei de Reciprocidade e o mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), sem que isso, por ora, altere o preço da tecnologia vendida no país.
O ponto central para o leitor é que essas tarifas incidem sobre o que o Brasil vende aos Estados Unidos.
O foco desta matéria, está no efeito indireto sobre os produtos de tecnologia consumidos no Brasil, e não na disputa diplomática em si.
2.
Quais eletrônicos ficaram de fora da nova tarifa?
Boa parte dos produtos de tecnologia entrou na lista de exceções da tarifa de 25%.
Entre os itens isentos aparecem computadores portáteis e unidades de processamento, teclados, scanners, unidades de armazenamento magnético, circuitos integrados, semicondutores, smartphones, monitores, projetores e aparelhos de transmissão de dados.
No total, a tarifa de 25% trouxe isenção para 699 produtos, que representaram US$ 22,8 bilhões das exportações de 2025, e a medida de 12,5% também veio acompanhada de listas de exceção, com itens como café e carne.
A inclusão de computadores, celulares e componentes entre as exceções, reduz o risco de efeito direto sobre a categoria de eletrônicos.
Asus Zenbook S14
Adriano Assumpção/TechTudo
3.
TVs, celulares e notebooks vendidos no Brasil podem ficar mais caros?
O impacto no preço não depende apenas da tarifa, mas da cadeia global de produção, da origem dos componentes e das estratégias de fabricantes e importadores.
Como a maior parte dos notebooks, celulares e TVs vendidos no Brasil é montada localmente ou importada da Ásia, e não dos Estados Unidos, a tarifa aplicada às exportações brasileiras tem efeito limitado sobre a prateleira nacional.
O economista Gabriel Sarmento Eid, professor universitário e coordenador do MBA em Finanças da FAM, aponta o câmbio como o verdadeiro fator de preço.
"O impacto no Brasil não é direto nem imediato, mas, como a cadeia global de eletrônicos é interligada, as tarifas impostas pelos EUA geram ruído no comércio internacional, o que pressiona a volatilidade do dólar, o verdadeiro vilão para o consumidor brasileiro.
A maioria dos componentes montados no Brasil, como na Zona Franca de Manaus, é importada, então o tarifaço pode, no médio prazo, aumentar o custo por conta do câmbio, aponta Gabriel Sarmento."
Produção nacional e importação vinda da Ásia blindam o mercado brasileiro contra efeitos diretos das novas tarifas americanas.
Porém, a oscilação do dólar e disputas comerciais com a Ásia pesam mais no bolso do brasileiro do que as taxas aplicadas ao Brasil
Reprodução/Freepik
Na mesma linha, o advogado tributarista Antônio Carlos Morad, titular do Morad Advocacia Empresarial, observa que "um encarecimento direto dependeria de o Brasil taxar eletrônicos fabricados nos EUA, algo raro, já que quase nenhum desses produtos é feito lá para exportação.
O resultado prático, para os três, é que o câmbio e a cadeia asiática pesam mais do que a tarifa Brasil-EUA."
4.
Por que algumas categorias receberam isenção?
As isenções costumam refletir menos uma escolha política e mais a dependência da própria indústria americana de determinados insumos.
No caso dos eletrônicos, os semicondutores foram incluídos nas exceções por uma razão estrutural, como explica Walter Freitas.
"Apesar dos investimentos via CHIPS Act, a produção americana de chips ainda depende fortemente de Taiwan, com a TSMC, e da Coreia do Sul, com a Samsung.
Taxar componentes usados na própria indústria americana seria atirar no próprio pé, porque encareceria produtos finais vendidos dentro dos EUA.
Os semicondutores também entram na lógica de segurança nacional, o que costuma gerar tratamento à parte, explica Walter Freitas."
Freitas acrescenta que o Brasil não é um elo relevante da cadeia de semicondutores, já que não produz chips avançados, então essa isenção específica muda pouco para o consumidor brasileiro.
O que importaria mais seria uma eventual tarifa dos EUA sobre os países que fabricam esses componentes, como Taiwan, Coreia do Sul e China.
O advogado Antônio Carlos Morad complementa com a lógica da baixa concorrência e cita um exemplo do setor aeroespacial.
"São itens com baixíssima concorrência e que poderiam desequilibrar a balança do país que os tarifar.
A Embraer, por exemplo, importa inúmeros itens eletrônicos de aviônica para a montagem de seus aviões, muito bem vistos pela qualidade e pelo preço nos EUA." - complementa Antônio Carlos Morad.
5.
Há impacto para marcas como Samsung, Apple, Dell e Lenovo?
Marcas como Apple e Samsung ajustam cadeias produtivas globais para mitigar taxas sem alterar tabelas de preço no curto prazo
Divulgação/Samsung
Empresas com produção distribuída em vários países sofrem impactos diferentes conforme a origem da fabricação e dos componentes.
Walter Freitas compara os casos de Samsung e Apple para ilustrar como a geografia da produção muda o jogo.
"A Samsung fechou sua última fábrica de celulares na China em 2019 e hoje concentra a produção em Coreia do Sul, Vietnã e Índia, com cerca de 90% da fabricação fora da China, segundo a Counterpoint Research.
A Apple, por outro lado, ainda concentrava cerca de 90% da fabricação do iPhone na China e teve que acelerar a migração para a Índia, chegando a fretar voos exclusivos para driblar prazos de tarifa." - compara Walter Freitas.
O notebook entrega o que há de mais potente no cenário de hardware da Intel
Reprodução/CNET
Freitas pondera que a diversificação tem custo.
Segundo ele, analistas da Bloomberg Intelligence estimaram uma redução de 3 a 3,5 pontos percentuais na margem bruta da Apple no ano fiscal de 2026, e a empresa anunciou US$ 100 bilhões adicionais em manufatura nos EUA, elevando o compromisso total para US$ 600 bilhões.
O padrão que ele generaliza para Dell, Lenovo e outras marcas envolve mover a montagem final para países com tarifa menor, absorver parte do custo na margem no curto prazo e repassar o restante em lançamentos futuros.
"Nenhuma marca repassa 100% do custo de imediato.
Normalmente absorvem uma fatia no curto prazo, sacrificando margem bruta, e aumentam mais o preço em modelos premium, onde o consumidor é menos sensível, segurando o valor nos modelos de entrada para não perder mercado." - afirma Freitas.
O advogado Antônio Carlos Morad reforça que as marcas citadas não são fabricadas nos EUA para exportação, e que produtos coreanos, chineses ou feitos em Taiwan não fazem parte do pacote tarifário em disputa.
O economista Gabriel Sarmento Eid observa que, no curto prazo, essas grandes marcas tendem a absorver custos, equilibrando margens baixas nos produtos de entrada com margens maiores nos modelos premium.
O risco maior, para ele, está na reciprocidade tarifária entre países, que elevaria o custo de importar e exportar para todos.
6.
O consumidor brasileiro precisa correr para comprar?
Não há sinal de que seja necessário correr para as compras por causa das novas tarifas.
Walter Freitas, afirma que o câmbio costuma ter efeito mais rápido no preço de prateleira do que qualquer mudança tarifária internacional, e que a antecipação por medo de tarifa tende a gerar distorção de curto prazo, como escassez e fretes mais caros, sem necessariamente confirmar uma alta de preço.
Recomendação dos analistas é monitorar a cotação do dólar e anúncios das marcas antes de antecipar compras de eletrônicos
Reprodução/Apple
Para o consumidor brasileiro, a leitura das novas tarifas é mais tranquila do que o termo tarifaço sugere.
Os eletrônicos entraram na lista de isenções, e as tarifas atingem o que o Brasil exporta, não o que chega à prateleira nacional, o que limita o efeito direto sobre TVs, celulares e notebooks no curto prazo.
O que realmente pode mexer no preço, segundo os especialistas ouvidos, são fatores indiretos: a valorização do dólar, a guerra tarifária entre os EUA e os países asiáticos que fabricam componentes e eventuais retaliações.
Por isso, mais do que correr para comprar, vale acompanhar o câmbio, possíveis tarifas sobre semicondutores e anúncios de reajuste das fabricantes, que costumam sinalizar mudanças com semanas de antecedência antes de o preço chegar à loja.
Com informações de G1
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