Tarifa diferenciada de energia e digitalização são caminhos para Brasil atrair novos investimentos, dizem especialistas
Digitalizar o setor elétrico com a ampliação dos medidores inteligentes, avançar na abertura do mercado livre de energia e atualizar a regulação com a diferenciação do preço da eletricidade em diferentes faixas horárias são algumas das soluções apontadas por especialistas para que o Brasil se consolide como protagonista global na atração de investimentos em energias renováveis.
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Esse foi um dos principais temas debatidos no painel “Autonomia energética e estratégia industrial para o século XXI”, que faz parte do evento “Energia e soberania: a posição do Brasil”, que reuniu executivos e especialistas para discutir a estratégia industrial e o papel do país na reorganização das cadeias globais de valor. O debate faz parte do projeto Transição Energética, iniciativa do GLOBO e do Valor Econômico, com patrocínio da Vale.
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Apesar de o Brasil ter uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o país vem sofrendo com cortes de energia (os chamados curtailments), que vêm afetando os investimentos em energia renovável e criando uma distorção entre oferta e demanda, já que a geração solar e eólica produz mais eletricidade ao longo do dia, distante do pico de consumo, concentrado ao anoitecer.
Por isso, Sérgio Romani, CEO da Genial Energy, destacou a importância de se investir na digitalização das redes elétricas, assim como já ocorre nos países da Europa, com a abertura do mercado livre para todos os consumidores, que podem escolher o fornecedor de eletricidade.
— A transição energética no setor elétrico é feita com a descarbonização, a descentralização e a digitalização. Na Europa, por exemplo, já existem empresas que conseguem entrar na casa da pessoa e otimizar melhor o consumo de energia por meio de medidores e tomadas inteligentes. A renovação das concessões das distribuidoras já tem esse tema na pauta, de tirar esse medidor analógico, colocar um medidor digital e dar acesso a quem o cliente quiser, em um modelo conhecido como Open Energy. Não adianta trazer tecnologia e inteligência artificial para melhorar o consumo e não ter acesso ao dado do cliente — diz Romani.
Para ele, um fator determinante para destravar os atuais problemas do setor, como o curtailment, é justamente a descentralização dos dados:
— Esse tema já foi muito discutido no ano passado e retrasado. Há uma necessidade de conseguirmos avançar com a tecnologia na base de consumo e otimizar o sistema. E isso é possível. A maior dificuldade vai ser o consumidor entender que essa possibilidade existe. A gente demorou muito tempo para avançar nessa pauta.
Leonardo Euler, vice-presidente de assuntos governamentais da Vestas para a América Latina e ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), lembrou que é preciso mais do que uma matriz elétrica verde para o Brasil protagonizar a nova onda de investimentos globais. Para ele, há um grande potencial de geração de valor com a digitalização do setor de energia.
— A eletricidade 4.0 está muito relacionada a uma energia mais conectada, mais inteligente e muito mais bem controlada. Dados, elétrons verdes e conectividade digital são a nova economia. É uma economia cada vez mais relacionada à digitalização e à descarbonização.
Euler destacou ainda que é preciso avançar no arcabouço regulatório no que diz respeito à criação de diferentes faixas de preços para a energia com base no horário de consumo.
— Antes a gente falava de segurança de suprimento com diversificação da matriz. Agora, a gente fala de segurança de suprimento com flexibilidade operativa. Hoje, o arcabouço regulatório falha também em termos de sinais de preço. Precisamos avançar muito nisso. Não faz sentido que o elétron custe a mesma coisa às 14h e às 17h. Pagamos a mesma tarifa de energia consumida independentemente do horário. E, ao longo do dia, você tem uma geração e uma demanda diferented.
Euler afirma ainda que o país tem um excesso de oferta em um intervalo de tempo delimitado em função do crescimento da geração solar, que foi fortemente subsidiada nos últimos anos, levando a um forte aumento de placas solares nos telhados das casas dos consumidores.
— A gente precisa entender melhor o problema para definir o diagnóstico. O problema é estrutural. A reforma do setor elétrico é a mais importante depois da reforma tributária. Estamos em uma tempestade perfeita com taxas de juros muito altos, microgeração distribuída que entrou desbalanceando toda a gestão do sistema de energia e que gerou os curtailments. Então, hoje nós temos um problema muito grande, e essa cadeia de valor, que foi de uma maneira muito competente adensada num curto intervalo temporal, está se desmantelando.
Nivalde José de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, diz que os problemas atuais de curtailment refletem a dinâmica do crescimento das fontes renováveis nos últimos anos, gerando distorções no setor. Além de citar iniciativas como a construção de fábricas de baterias químicas, ele defende a construção de usinas hidrelétricas reversíveis como uma das soluções.
— Estamos com muita oferta em alguns segmentos, fruto, em grande parte, do excesso de subsídios. Quando eu coloco um painel solar no meu teto, estou criando mais oferta, mas não estou criando demanda. Estou cortando energia boa, barata e renovável; e, na hora em que começa a anoitecer, preciso acionar usinas termelétricas, que são poluidoras e caras. A solução será a construção de sistemas de armazenamento, como as usinas hidrelétricas reversíveis. Portugal e Espanha já têm essa solução desde os anos 1960.
Mas Castro ressalta que o tamanho do mercado brasileiro acaba gerando demora nas mudanças regulatórias. Ele cita um total de 90 milhões de domicílios ao falar da abertura do mercado livre no país para os consumidores residenciais, prevista para começar nos próximos anos de forma gradual.
— Você não pode fazer as coisas a toque de caixa, porque um probleminha pode virar um problemão. A transição energética é um processo de inovações tecnológicas. E qualquer inovação tecnológica em um setor de infraestrutura tão estratégico como o elétrico exige inovação regulatória. Só que inovação regulatória não sai da bancada do engenheiro. Tem que passar pelo TCU (Tribunal de Contas da União), pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) pelo ministério (de Minas e Energia) e, o maior problema, pelo Congresso. Ali é que o jabuti bebe água. Por isso, é tudo muito lento.
