Tarcísio resiste a pressão de Valdemar e deputados e planeja manter vice na chapa

 

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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem sinalizado a aliados nos bastidores que não cederá à pressão do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de deputados para trocar o vice atual na chapa de reeleição. Mesmo ante uma investigação por lavagem de dinheiro sobre Felício Ramuth (PSD), o atual ocupante do cargo permanece como favorito para reeditar a composição, medida que frustra o presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp), André do Prado (PL).

Valdemar trabalha ativamente pela indicação de Prado ao menos desde fevereiro. Deu declarações públicas, nesse meio tempo, sobre ter cedido a vice ao PSD na eleição passada, alegando que “agora é a nossa vez”. Tarcísio, que até então havia apenas comentado que o apoio à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem peso na acomodação partidária, fez questão de rebater a fala em entrevistas: “Não existe esse negócio de direito de partido”.

Havia a expectativa, dentro do PL, que o governador pudesse reconsiderar a sua preferência por Ramuth diante da revelação de que o político e sua esposa são alvos de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro em Andorra, conforme mostrou O GLOBO no mês passado. O procedimento resultou no bloqueio de US$ 1,4 milhão de uma conta atribuída ao casal. Ele diz que não existe nenhuma acusação formal e que os recursos são lícitos, frutos de atividade privada antes de ocupar cargos públicos, e declarados à Receita Federal.

Anotações particulares de Flávio, vazadas para a imprensa, mostram que a possibilidade de indicação de Prado chegou a ser discutida em uma reunião do PL. Na folha, ele escreveu o nome de Ramuth ao lado de um cifrão e um lembrete para “ligar para Tarcísio”. O movimento mais recente de Valdemar ocorreu na semana passada, durante viagem aos Estados Unidos junto a uma comitiva de parlamentares. Ele fez um apelo ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro para que tentasse intervir na questão. Prado esteve presente, mas preferiu se manter discreto nas redes sociais.

Sem pressão

Tarcísio apresenta um histórico de não reagir bem a pressões externas. Ele resistiu, por exemplo, a trocar o secretário de Educação, Renato Feder, e o ex-secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, quando estiveram no centro de polêmicas do mandato. Feder, por se manter no quadro societário da Multilaser no mesmo período em que a empresa assinou contrato de fornecimento de notebooks para a administração paulista; Derrite, diante dos sucessivos flagrantes de violência policial no estado.

Dentro da Alesp, alguns deputados também mobilizaram colegas para assinatura de uma carta aberta de apoio a Prado, que seria entregue ao próprio presidente da Casa — e não ao governador —, por receio de a medida ser interpretada como método de pressão. Um parlamentar do PL confidenciou, sob reserva, que a iniciativa empacou justamente por isso. Procurado, o deputado Thiago Auricchio, um dos que lideram a iniciativa, desconversou sobre o assunto. Disse que a coleta “está indo bem” e deve ser concluída após a janela partidária.

O problema é que a definição da chapa estadual deve ocorrer até o dia 30 de março, segundo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A janela vai até 3 de abril.

Ramuth aguarda uma reunião entre o governador e o presidente do PSD, Gilberto Kassab, que responde pela Secretaria de Governo no estado, em que a decisão deverá ser comunicada. Kassab tenta se viabilizar, ele mesmo, como vice de Tarcísio, sob a perspectiva de assumir o Palácio dos Bandeirantes em 2030 e concorrer à reeleição. A ideia foi descartada pelo governador. Aliados declaram que Tarcísio não demonstra segurança com Kassab e que uma leitura comum é a de que o secretário possui “agenda própria”.

O vice deseja uma garantia de Kassab de que ele não criará obstáculos para a sua recondução ao cargo. Ramuth tem dito a interlocutores que prefere continuar no PSD, mas pode ser obrigado a trocar de legenda nesse cenário. Um destino possível seria o MDB, que hoje não tem expectativa de ser contemplado nem com a segunda vaga do grupo político ao Senado. A primeira será ocupada por Derrite, filiado ao Progressistas.