Tarcísio nega que saída de ex-chefe da PM foi motivada por citação em investigação da Corregedoria

 

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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), negou que o coronel José Augusto Coutinho tenha deixado o comando da Polícia Militar por ter sido citação em uma investigação da Corregedoria da corporação.

O ex-comandante-geral da PM foi trocado, a pedido do governo, depois de ele ter sido mencionado em um inquérito que apura a atuação de policiais como seguranças de supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) ligados à empresa de ônibus Transwolff.

Segundo depoimento à Corregedoria, obtido pelo GLOBO, Coutinho tentou convencer um policial suspeito de prestar serviço de segurança para a Transwolff a permanecer na Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a tropa de elite da instituição.

De acordo com a investigação da Corregedoria, sete PMs aderiram de forma “consciente e voluntária” ao esquema e contribuíram para a “continuidade operacional das atividades empresariais utilizadas para a lavagem de capitais”. Ainda segundo a Corregedoria, além de escoltar os diretores da empresa investigada por elo com o PCC, os policiais eram pagos com notas frias.

Ao comentar o caso, Tarcísio afirmou que Coutinho, de fato, solicitou a saída, mas sem qualquer relação com a investigação:

— Não tem nada a ver. O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns. Eu acho que o coronel cumpriu muito bem o papel dele, a missão e a gente escolheu o coronel Glauce, que tem uma trajetória muito importante na Polícia Militar (…). Ele pediu [para sair], mas não por causa disso. É absolutamente inconsistente. Ele não tem nada a ver com esse negócio — disse.

A troca no comando da PM foi oficializada na última quinta-feira (16), com a nomeação da coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a assumir o posto em São Paulo.

Em nota, o escritório Fernando José da Costa Advogados, que faz a defesa de Coutinho, afirma que o coronel é idôneo e que, até o momento, não teve acesso aos autos da investigação.

"Não obstante, reitera a absoluta idoneidade de sua conduta, destacando que se trata de oficial da Polícia Militar com 34 anos de carreira, sem jamais ter sido alvo de qualquer processo ou investigação por irregularidades ao longo de sua trajetória profissional”, diz o trecho.

Procurada, a Secretaria de Comunicação do governo de São Paulo diz que não comenta investigações em curso conduzidas pela Corregedoria, "tendo em vista o sigilo legal que recai sobre os procedimentos de Polícia Judiciária Militar, conforme previsto na legislação penal-militar".

"A Instituição ressalta que eventuais apurações são conduzidas com rigor técnico, observância ao devido processo legal e respeito às garantias individuais e reitera seu compromisso com a legalidade, a transparência e a apuração de eventuais irregularidades, adotando as medidas cabíveis sempre que houver indícios de desvios de conduta".

‘Tem bandido fazendo bico lá’

Ex-comandante da PM deixa cargo depois de ser citado em inquérito da Corregedoria

A acusação sobre o ex-comandante-geral é do sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso no dia 4 de fevereiro por fazer segurança privada para diretores da Transwolff. A empresa foi afastada do serviço de ônibus em São Paulo devido a investigações que apontaram o uso da companhia para lavagem de dinheiro e favorecimento à organização criminosa PCC. O afastamento foi consequência da Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público em abril de 2024. A operação do MP apontou que o PCC teria injetado cerca de R$ 54 milhões na empresa para permitir sua participação em licitações públicas.

A decisão culminou na decretação da caducidade dos contratos (extinção por falhas graves) pela prefeitura em dezembro de 2025.

À Corregedoria da PM, Romano afirmou que Coutinho, na época comandante da Rota, tentou mantê-lo na corporação depois que o superior imediato do sargento começou a fazer pressão para que fosse transferido para outro batalhão. Essa conversa teria ocorrido em setembro de 2020. Em um dos trechos do depoimento em vídeo, Romando diz que Coutinho também minimizou o fato de ele fazer “bico”. Mesmo sabendo que havia “bandido fazendo bico lá”.

“Eu cheguei pra conversar com o major Coutinho na época. Falei assim: ‘ó chefe. É isso, isso, isso. Assim, assim, assado’. Ele falou assim: ‘Romano, eu não posso obrigar você a sair da Rota. Por quê? Meu irmão faz bico até hoje. Meu pai sustentou a gente fazendo bico. A gente sabe que as coisas estão difíceis. Porém, pelo que está aqui, tem bandido fazendo bico lá’”, diz trecho do depoimento.

Coutinho teria pedido, segundo o depoimento, para Romano pensar bem antes de deixar a Rota, porque depois ficaria difícil reintegrá-lo à corporação.

“E ele (Coutinho) falou assim também: você pensa se quer mesmo ir embora para a escola de sargento, porque depois não consigo trazer você de volta’. Eu falei: não chefe, eu prefiro ir embora e tal”, mostra o depoimento.

O chamado “bico oficial” fora do expediente já é, por si só, ilegal e proibido pela PM. A Corregedoria afirma, no entanto, que Romano e outros seis agentes investigados foram além.

Segundo o relato de Romano à Corregedoria, naquele mesmo período, ele também pediu um outro favor a Coutinho: para ser transferido para o 19º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI). E Coutinho teria atendido.

“O coronel Coutinho, muito honrado, viu que, tipo assim, ‘mano, injustiça fazer isso com o cara. O cara tá trampando, tá trabalhando honestamente’. Ele, com certeza, mexeu a mão e me mandou exatamente pra onde eu queria. Pro 19”, afirma o depoimento.

O GLOBO apurou que a recente exoneração de coronéis da PM ocorreu por causa dessa investigação. Teria partido do próprio Coutinho a decisão de afastar o chefe do Centro de Inteligência, coronel Pedro Luís de Souza Lopes, e o corregedor da PM, coronel Fabio Sérgio do Amaral, ligados a essa apuração.