Tarcísio abre caminho para Soninha se candidatar ao Senado, em tentativa de desidratar Marina e Simone

Tarcísio abre caminho para Soninha se candidatar ao Senado, em tentativa de desidratar Marina e Simone - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A Federação PSDB-Cidadania deve aprovar, nesta terça-feira (28), a candidatura de Soninha Francine (Cidadania), ex-vereadora e secretária municipal de Direitos Humanos de São Paulo, a uma das vagas ao Senado. Nos bastidores, o grupo político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não vetou a concorrência dos partidos da base aliada, por ver nela uma possibilidade de desidratar as ex-ministras do governo Lula (PT), Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), que lideram as pesquisas para o mesmo cargo. A chapa de Tarcísio e do senador presidenciável Flávio Bolsonaro no Estado apresenta o deputado estadual André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa do Estado, e o deputado federal Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual de Segurança Pública. Fontes ligadas ao governador apontam, contudo, que Soninha não deve disputar diretamente os votos da direita, menos ainda os bolsonaristas, e sim marcar uma posição de centro no pleito.

Jornalista, formada em Cinema e ex-VJ da MTV, ela esteve filiada por quase 20 anos ao PT, pela qual foi eleita vereadora. Foi subprefeita da Lapa na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab, secretária de Assistência Social do ex-governador João Doria — “por longos 90 dias”, segundo ela — e, mais recentemente, entre 2022 e 2025, chefiou a pasta de Direitos Humanos na capital paulista, cargo de livre nomeação do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Em conversa com o GLOBO, Soninha disse que se considera de esquerda, “mas não daquela que defende bandeiras com alguma radicalidade”, e vê qualidades no governo Tarcísio, apesar da aversão que sente ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela cita como méritos do governador medidas na área de assistência social e o fato de ter aprovado a distribuição de medicamentos à base de canabidiol na rede pública de saúde.

— Vou falar de guerras, de temas nacionais, porque o eleitor gosta de saber como o candidato pensa. No caso da guerra contra o Irã, deixar bem claro que o fato de condenar as ações do (Donald) Trump (presidente dos EUA), que são catastróficas em vários sentidos, não significa endossar o regime dos aiatolás. E que Israel faz uma destruição em larga escala a pretexto de combater o terrorismo, enquanto as ações do Hamas são atrozes. Em tudo, inclusive nisso, as pessoas acabam se dividindo e enxergando apenas um dos lados — afirma. Soninha conta que votou no presidente Lula entre 1989 e 2006 e fez campanha para Simone Tebet e Marina Silva, suas adversárias agora ao Senado, nas respectivas eleições presidenciais. Em 2022, optou por Lula no segundo turno, mas não pretendia fazer isso, “não fosse o risco de o Bolsonaro se eleger de novo”. Declarou ainda que compreende a visão do grupo de Tarcísio sobre o seu papel na disputa, mas decidiu concorrer porque entende que o cargo de senador exerce uma influência significativa nos rumos do país e teria menos frustrações políticas. — Não acho que eles (grupo de Tarcísio) gostem de mim, muito pelo contrário, mas acredite ou não, eu já tive uma boa relação com o André do Prado, quando trabalhava no governo do estado. O eleitor do Ricardo Salles vai cuspir na minha foto, mas quem não é radical ou faz parte dessa extrema direita descabelada pode votar em mim. Serão três pessoas navegando num eleitorado bastante parecido, mas o que me distingue delas (Marina e Simone) é que elas são candidatas do Lula. Estratégia de centro O deputado federal paulista Alex Manente, presidente nacional do Cidadania, alega que a candidatura está fechada dentro da federação com o PSDB, pendente apenas a aprovação em convenção virtual. Segundo ele, dados apontam para um cenário “completamente aberto” no eleitorado de centro, e a ex-vereadora paulistana pode crescer nas pesquisas como “uma mulher com a cara de São Paulo”.

— O governador tem as candidaturas oficiais dele (ao Senado). Já informei ao governador, e ele não se opôs. A Soninha vai fazer campanha pro Tarcísio, mas não estamos contando com o apoio, nem queremos atrapalhar a coligação dele. Isso, de alguma maneira, dá uma capilaridade maior para a campanha da Soninha. Marina Silva e Simone Tebet iniciaram suas trajetórias políticas em outros estados e rebateram, há duas semanas, uma crítica do governador Tarcísio, natural do Rio de Janeiro, nesse sentido. Pesquisa Datafolha, divulgada em 16 de julho, aponta Marina com 18% das intenções de voto, e Simone com 16%. Elas lideram contra Prado (11%) e Derrite (10%), além do deputado federal Ricardo Salles (Novo), ex-ministro de Jair Bolsonaro, que aparece com 13%. — Elas ainda não estão identificadas para o eleitor como candidatas do Lula. A partir disso, vai se abrir um espaço no centro que os candidatos do Tarcísio não são capazes de ocupar. Com uma campanha bem estruturada, a Soninha pode pegar o segundo voto da direita e da esquerda. Existe uma possibilidade real de ela chegar na reta final lutando por uma vaga — opina. Um aliado do governador disse, sob reserva, que Tarcísio teria ficado "animado" ao ser consultado. Outro ponderou que ele "apenas não vetou" a iniciativa dos partidos aliados. Uma terceira fonte declarou que, por hábito, o governador não tem o costume de podar adversários. Ele deve contar nas eleições com uma coligação ampla, reunindo PL, Republicanos, PSD, União Brasil, PP e MDB. Além de evitar que as candidatas de Lula estimulem sozinhas o voto nas mulheres, Soninha teria direito a participar de sabatinas ao vivo e debates, porque a Federação PSDB-Cidadania cumpre os requisitos obrigatórios de representação no Congresso. Ela também terá tempo de propaganda em rádio e TV, ainda que mais curto do que o dos principais oponentes. Manente promete fazer dela a "principal candidatura do Cidadania em todo o Brasil". 2ª vaga em aberto Existe ainda um debate sobre lançar ou não uma segunda candidatura ao Senado, para contemplar o PSDB. Interlocutores do governador dizem, nesse caso, a decisão seria mais incômoda, porque existiria a perspectiva de Soninha contribuir com o voto a André do Prado ou, numa hipótese mais improvável, Guilherme Derrite. Os eleitores escolhem, este ano, dois candidatos ao Senado por estado. Há uma ala tucana, mais histórica, que defende também uma candidatura alternativa ao governo do estado. Esse grupo é capitaneado pelo ex-senador José Aníbal, que articulou a candidatura do apresentador José Luiz Datena na eleição passada para prefeito de São Paulo e não teve sucesso. Na convenção desta terça, o político deve fazer um contraponto à inclinação majoritária. Alex Manente diz que a federação pode disponibilizar uma segunda vaga ao Senado, desde que o PSDB garanta viabilidade mínima. Concorrer contra Tarcísio, por outro lado, estaria fora de cogitação. — A candidatura de governo é inviável, não foi pensada no momento adequado e não temos como fazer uma aventura. Colocaria a chapa toda em risco e não traria o resultado da reconstrução da marca do PSDB, que foi o argumento colocado. Fui muito franco quando conversei com o Aécio (Neves, presidente do PSDB), e ele tem compreensão plena disso — diz o deputado.

A referência à chapa ocorre pela suposta preferência dos candidatos de colarem na imagem do governador para terem mais chances nas urnas. O entorno de Tarcísio vai além e sustenta que o governador se envolveu pessoalmente na construção da nominata tucana para deputado federal e estadual, o que não foi confirmado pela direção do PSDB.

Nem o deputado federal Aécio Neves, nem o presidente estadual do PSDB, Paulo Serra, ex-prefeito de Santo André que desistiu da candidatura ao governo para tentar a Câmara, responderam aos pedido de entrevista do GLOBO. A assessoria de Serra encaminhou uma nota, divulgada na semana passada, reproduzida a seguir. E declarou que "até o momento, é isso" que teria a prestar de informação.

"A Federação PSDB-Cidadania informa que, ambas legendas, no exercício de plena autonomia partidária, deliberaram pelo apoio à reeleição do governador Tarcísio de Freitas nas eleições de 2026. Nos termos do estatuto interno, tal decisão será homologada na convenção estadual. Na mesma oportunidade, a Federação lançará sua candidatura majoritária ao Senado Federal, tendo como uma de suas indicações a pré-candidatura de Soninha Francine", diz a nota.

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