Talvez a solidão não seja o seu maior inimigo

 

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Que eu sou fã da Tamara Klink não é nenhuma novidade. Como não ser? Corajosa, inteligente, determinada — mas um modelo a não ser seguido: essa coisa de passar oito meses sozinha em um barco, com temperaturas abaixo de zero, isolada no fim do mundo, não é para o nosso bico. Melhor continuar sonhando em ser um BBB, porque Tamara é de outra natureza.

Acabei de ler “Bom dia, inverno”, o diário de bordo da expedição de Tamara pelo Ártico, durante o período mais hostil da região. Já havia lido “Nós”, também de sua autoria, e mais uma vez fiquei encantada e apavorada: como é que os pais dela não prendem essa garota ao pé da cama? Tamara é uma profissional da navegação, se prepara obstinadamente e tem a aventura no DNA, mas são muitos os inimigos: as nevascas, as tempestades, os icebergs, os animais selvagens, os enguiços mecânicos, sem falar no próprio corpo, que pode dar defeito de uma hora para outra. Ela ainda não fez 30 anos e enfrenta tudo isso com um prazer desavergonhado e um autocontrole de Buda. Alguém aí deve estar pensando: faltou falar na solidão, pior inimigo de todos.

Essa é a parte em que Tamara brilha ainda mais. A despeito de toda a palpitação que seus relatos provocam, vê-la falar sobre solidão nos acalma. Ela desestigmatiza esse estado que é natural e intrínseco a todos. Sempre defendi a importância de ter amigos íntimos e amores que façam bem à saúde, mas a relação que precisa, mesmo, dar certo, a gente sabe qual é. Se não tolerarmos nossa própria companhia, se não formos capazes de nos entretermos a sós por longos períodos, o resto desanda. A necessidade de estar com os outros a qualquer custo, para fugir de si, é uma síndrome ainda pouco debatida e que se alimenta da desonestidade social. Casados gastam mais que solteiros, e ter filhos duplica a conta. Apoiados pela religião, nações enchem os cofres tentando nos convencer de que viver sozinho é triste e perigoso. Ora, perigoso é conviver com pessoas falsas, perigoso é se deixar guiar por convenções que nos desviam de nós mesmos. “Estar sozinha diminui as dificuldades, não aumenta.” Não sou eu, é a moça do barco que diz, aquela que passava semanas sem ouvir a própria voz, mas que não parava de conversar com seus pensamentos. Em tempos de conexão frenética com desconhecidos pelas redes sociais, em que todos têm um pitaco para dar e uma verdade para vender, você confia que seus pensamentos têm sido, de fato, seus?

Adoro namorar, ser mãe, ser filha e fazer parte de turmas reais (em vez de grupos de WhatsApp), mas eu sei, ninguém me contou: a solidão escolhida é a conexão mais profunda e fértil que se pode ter na vida. Não impede outras, mas as outras serão simulacros se ela não vier primeiro.