Taís Araújo comemora enredo sobre Xica da Silva no Salgueiro: 'Ela é imensa e toda vez que aparece, arrebenta, fica gigante'
O perfil oficial do Salgueiro publicou vídeo no qual Taís Araújo comenta a escolha do enredo da escola para o carnaval 2027: “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”. A atriz interpretou Francisca da Silva Oliveira, a Xica da Silva na novela homônima, escrita por Walcyr Carrasco e transmitida pela extinta Tv Manchete, entre 1996 e 1997.
Intolerância religiosa: Salgueiro é alvo após divulgar enredo sobre Xica da Silva
Memória: Salgueiro revisita o mito e a lenda de Xica da Silva mais de seis décadas após enredo garantir segundo título à escola
— Eu lembro que quando eu fui fazer a novela, meus pais me falaram: "Foi o enredo do Salgueiro 63. Era um sucesso, foi um enredo, um carnaval histórico. O Salgueiro fez história naquele ano". Nos anos 70, final dos anos 70, a Zezé Mota fez Caras Silva no cinema e foi um sucesso mundial. Ou seja, a força dessa mulher, dessa figura histórica brasileira, ela é imensa e toda vez que ela aparece, arrebenta, fica gigante — disse Taís Araújo no vídeo.
Taís Araújo fala sobre o enredo de 2027 do Salgueiro: “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”
Reprodução redes sociais
A atriz lembrou ainda que a escola de samba terá a oportunidade de desenvovler seu enredo tendo como base em novas informações sobre a personagem histórica surgidas a partir de pesquisas:
— O Salgueiro agora vai ter a chance de contar uma história da Xica da Silva em cima de novas pesquisas. A Xica foi uma mulher muito forte, um ser político muito inteligente, uma mulher articuladora, ajudou demais a História do Brasil e nada disso foi contado nas outras histórias. Então, o Salgueiro tem a chance agora de ressignificar a imagem dessa mulher. Ainda bem que é no Salgueiro, escola que eu amo. É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar. Simbora, Salgueiro. Bora brilhar contando a história da Xica da Silva para esse país todo e para o mundo.
Enredo
Após 17 anos sem ganhar um campeonato, a vermelho e branco vai apostar em 2027 numa revisita ao mito e a lenda de Francisca da Silva Oliveira, a Xica ou Chica, também chamada de a "Imperatriz do Tijuco" e a "Dona de Diamantina". A proposta do desfile nasceu da pesquisa de mestrado do enredista Leonardo Antan e ganhou força após a divulgação pública, no ano passado, do testamento oficial de Francisca da Silva Oliveira pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O documento trouxe novas informações sobre a mulher real por trás da personagem eternizada depois em novelas, filmes, ampliando o debate sobre os estereótipos que marcaram sua representação ao longo das décadas.
—Nós vamos revisitar a história de uma das personagens mais importantes da trajetória do Salgueiro, responsável pelo segundo título da academia, em 1963. Vamos agora aprofundar aspectos da sua história, revisitá-la e conhecer novas informações através de pesquisas recentes — explicou o carnavalesco Jorge Silveira.
O testamento
“Aos doze do mês de novembro de mil setecentos e setenta anos e neste sítio de Macaúbas, eu, Francisca da Silva de Oliveira, andando de saúde natural e em meu perfeito juízo e conhecimento, porém temendo a morte como a todas as criaturas e não sabendo a hora em que Deus Nosso Senhor será servido chamar-me para, e desejando claramente dispor dos bens, evitar qualquer prejuízo que possa sobrar a todos ou algum dos meus herdeiros, pedi e roguei a Francisco José de Sales que este meu testamento e última vontade escrevesse e a meu rogo assinou, o qual faço na forma e maneira seguinte.”
Testamento da ex-escrava Francisca da Silva, revelado pelo TJ de Minas
Reprodução
Com essas palavras Xica da Silva registou seu testamento, escrito em 12 de novembro de 1770 no Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Monte Alegre de Macaúbas, em Santa Luzia, região central de Minas Gerais. O documento, que servirá de base para o enredo do Salgueiro foi registrado no Acervo Minas Justiça sob o nome “Nota de Registro de Testamento”, uma vez que faz parte do Livro de Registros de Testamentos nº 35, da Comarca do Serro, que reúne diversos documentos da mesma natureza. Francisca da Silva de Oliveira nasceu no distrito de Milho Verde, pertencente ao Serro, na região do Vale do Jequitinhonha, por volta do ano de 1734.
Intolerância
Após o Salgueiro anunciar o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história” para o carnaval de 2027, a escola de samba foi alvo de intolerância religiosa nas redes sociais. Inspirado no livro homônimo de Leonardo Antan, o tema associa a personagem a uma pomba-gira, entidade das religiões de matriz africana. Em um teaser divulgado nas redes sociais, um internauta comentou: “Lá vem macumba de novo”. A agremiação respondeu: “Meu terreiro é a casa da mandinga. Se não está feliz é só ir embora”.
Leonardo Antan escreveu, na mesma publicação: "É uma grande honra e missão de vida ser um médium dessa pomba-gira. Vamos mais uma vez saudá-la e contar sua verdadeira história".
Memórias
Carnaval do Salgueiro de 19963 celebrou a história de Xica da Silva em desfile realizado na Avenida Presidente Vargas
Arquivo / Agência O Globo
No carnaval de 1963, o Salgueiro apresentou "Xica da Silva", considerado até hoje um dos mais fantásticos desfiles do carnaval carioca, e que garantiu à escola o seu segundo titulo e o primeiro sozinha (o de1960 fora dividido com Portela, Mangueira, Império Serrano e Unidos da Capela).
Na avenida, Xica da Silva foi vivida por Isabel Valença, que reproduziu um minueto criado por Mercedes Baptista, a primeira negra a integrar o balé do Theatro Municipal. A protagonista do desfile tinha peruca de 1,10m, enfeitada com pérolas, e cauda de sete metros de comprimento. Por mais que achassem a riqueza um corpo estranho às raízes, jornalistas da geração de Sérgio Cabral não resistiram à cena, com a Igreja da Candelária ao fundo, imponente, após o amanhecer. Nem foi preciso flash para garantir uma boa foto.
A vitória do Salgueiro chamou a atenção para Arlindo Rodrigues. Diferentemente de outros carnavais, o título foi atribuído, sobretudo, ao talento de um carnavalesco, embora os críticos gostem do samba-enredo, de Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho.
