A certificação da Anac para entregas comerciais com aeronaves não tripuladas além da linha de visão (BVLOS) continua abrindo o mercado no Brasil, com novos players e estratégias para desbravar esse setor.
A brasileira Synerjet, distribuidora exclusiva do Wingcopter 198 na América Latina, decidiu evitar a logística dos grandes centros urbanos e vai estrear com foco na categoria médica em áreas remotas.
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A companhia estruturou um corredor aéreo inédito no Pará, ligando por meio de drones o continente à Ilha do Marajó, focado no transporte de materiais críticos, como soro antiofídico e exames oncológicos.
O trecho, que costuma exigir até oito horas de barco, será coberto em 20 minutos de voo.
— O nosso foco é atuar em gargalos onde o sistema público ou privado enfrenta dificuldades de acesso logístico.
Imagine o impacto de o drone chegar a tempo de entregar uma medicação específica para estancar uma hemorragia pós-parto, garantindo um desfecho feliz para aquela família que dependia de horas de barco — descreve Fabio Rebello, CEO da Synerjet.
Voo do Wingcopter 198 em teste de voo
Divulgação/Synerjet
Para além da função social, a operação amazônica atuará como um "laboratório" de mercado.
A ideia da companhia é gerar métricas de eficiência que comprovem o custo-benefício da ferramenta, atraindo a atenção de laboratórios privados, indústrias farmacêuticas e do próprio sistema público.
A estratégia foge da atuação como operadora final das frotas, consolidando a receita na venda dos equipamentos e na estruturação de toda a cadeia tecnológica.
— É muito difícil bancar um sistema desse e achar que vai se sustentar sozinho, pois precisamos demonstrar nossa capacidade com métricas bem elaboradas, para então atrair a cadeia interessada em escalar o produto de forma viável e captar recursos — explica o executivo.
Filão milionário na infraestrutura
Se a área da saúde funciona como prova de conceito, o volume financeiro massivo a curto prazo repousa sobre a infraestrutura nacional.
O país detém 198 mil quilômetros de linhas de transmissão elétrica, cuja manutenção convencional demanda altos custos operacionais e submete as tripulações de helicópteros a riscos.
Atualmente, a companhia negocia um projeto-piloto com uma gigante do setor elétrico para mapear até 300 quilômetros diários de fiação.
Com capacidade de carregar 4,7 quilos, o e-VTOL consegue embarcar sensores robustos para gerar "gêmeos digitais" da rede usando inteligência artificial, antecipando potenciais falhas.
Compartimento de carga do Wingcopter 198 tem capacidade de 4,7 quilos
Divulgação/Synerjet
— Como nossa tecnologia garante velocidade e autonomia, decidimos nos concentrar em entregas que exigem resultado rápido, sem concorrer com as motos dentro de São Paulo, prestando assim um serviço corporativo ainda inexistente no mercado — ressalta o executivo.
Antecipando a expansão desse ecossistema e prevendo firmar outros cinco grandes contratos de inspeção corporativa, foram encomendadas 65 unidades do drone para garantir o suprimento regional da demanda projetada até o ano de 2028.
A disputa pelo setor logístico
O avanço da certificação acirra a concorrência no incipiente setor logístico autônomo brasileiro, que já conta com atores consolidados operando sob premissas bem diferentes.
A brasileira Speedbird Aero, por exemplo, já superou a marca de 40 mil rotas comerciais globalmente e marca presença em 14 países.
Ao contrário da Synerjet, que quer lucrar com a revenda do equipamento, a Speedbird aposta integralmente no modelo "Drone as a Service" (DaaS), alugando o pacote completo que une veículo e software.
Liderada pelo ex-Embraer André Stein e com investidores do calibre do iFood, a companhia mira o "last-mile" (última milha) de alta frequência alimentar, médica e industrial.
O próximo passo estratégico da concorrente é usar o amplo banco de dados criado no Brasil para obter licenças massivas nos Estados Unidos, diluindo os custos por viagem através do ganho de escala.
