Surpresa do Enem de 2025, novo modelo de perguntas com 'textão' teve taxa baixa de acerto e voltará neste ano
Os candidatos do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 2025 não tiveram bom desempenho nas questões do “textão” cobrado na prova, um modelo que nunca tinha aparecido na história do exame.
O bloco de cinco itens — um com dificuldade fácil e outros quatro de nível médio — teve uma taxa média de acerto de apenas 37%, de acordo com levantamento de Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações da Arco Educação.
O “textão” foi a maior surpresa da edição e, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), deve ser mais utilizado já a partir deste ano, o que vem impactando a forma com que as escolas estão preparando seus alunos.
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O modelo, chamado de testlet, consiste em um bloco de questões que compartilham um mesmo texto-base, imagem ou infográfico.
Até 2024, o Enem sempre atrelou esses elementos a apenas uma pergunta.
No ano passado, no entanto, adotou o novo formato: uma crônica da escritora mineira Ana Elisa Ribeiro ocupou toda a primeira página da prova de Linguagens com 2.863 caracteres — o maior texto já utilizado na história do exame — cinco itens deveriam ser respondidos baseados nele.
No entanto, a novidade parece ter surpreendido os estudantes.
O levantamento realizado pela Arco Educação classificou o nível de dificuldade das questões, que poderiam ser muito fácil, fácil, médio, difícil ou muito difícil, utilizando como base a Teoria de Resposta aos Itens (TRI) — principal método para a criação da prova do Enem — e o histórico do exame.
Com isso, descobriu que uma das cinco questões pode ser considerada fácil e as outras quatro, médias.
Ainda assim, a taxa de acertos foi baixa.
Os microdados do Enem mostram que o percentual de acertos variou 18 pontos entre alunos de escolas privadas e públicas: os primeiros alcançaram 51,8%, enquanto os demais chegaram a 33,4%.
De acordo com Celedônio, a diferença percentual entre os dois grupos é um pouco maior do que os 15 pontos registrados no restante da prova de Linguagens.
— Não é uma diferença gigantesca, mas é relevante.
Isso sugere que blocos longos de leitura podem penalizar mais quem já chega ao exame com menor repertório leitor e menor familiaridade com esse tipo de organização textual — analisa o especialista da Arco Educação.
Outra preparação
De acordo com ele, o testlet exige uma competência que a escola nem sempre treina de forma sistemática: sustentar a leitura de um texto mais longo e explorar o texto por diferentes ângulos.
— Não é só uma questão de conteúdo, é também método de leitura.
A preparação precisa sair do treino de questões soltas e incluir blocos de leitura.
O aluno deve aprender a permanecer no texto de até 50 linhas, voltar a ele e responder perguntas diferentes sem perder a compreensão global — explicou.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) já indicou que o modelo deve voltar a aparecer nas futuras provas do Enem.
E não apenas em Linguagens.
— (Estamos trabalhando em) aprimoramentos nos modelos de itens, como já foi feito com os testlets para leitura e provavelmente vamos introduzi-los em Ciências da Natureza e Matemática — revelou Manuel Palacios, presidente do Inep, em um seminário sobre o Enem em abril.
Por isso, as escolas de ensino médio estão reforçando a preparação para o Enem com o formato, inclusive com a utilização dos testlets em simulados.
— Esse formato permite avaliar competências mais complexas do que questões isoladas.
O estudante precisa conseguir selecionar informações relevantes para cada item, estabelecer relações entre dados e mobilizar conhecimentos de diferentes áreas a partir de um mesmo contexto.
Mais do que preparar para uma prova, esse trabalho fortalece habilidades de leitura crítica, análise e tomada de decisão, cada vez mais importantes na formação acadêmica e profissional — afirmou Márcio Romão, coordenador da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Franco, no Rio de Janeiro.
Na avaliação de Vânia Fonseca Longhi Macarrão, professora de Biologia do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo, a área de Ciências da Natureza deve sentir de forma direta o impacto do novo formato.
A preparação dos alunos, portanto, também tem que ser alterada.
Isso inclui treinar leitura de gráficos, analisar dados e buscar referências como avaliações internacionais.
— A prova trata o aluno como alguém que precisa usar ciência para resolver problemas reais — diz.
Já Henrique Nogueira Magalhães, professor de Matemática do Ensino Médio da Lourenço Castanho, diz que o modelo reforça a combinação entre conteúdo e aplicação prática, aproximando a disciplina de situações cotidianas.
Segundo ele, questões envolvendo porcentagem, probabilidade e matemática financeira tendem a ganhar ainda mais espaço, agora inseridas em contextos mais amplos.
Na prática, o desafio passa a ser ler melhor antes de calcular.
— Sem uma boa leitura e filtragem das informações, o aluno fica mais suscetível a erros — afirma.
Em nota, o Inep reitera que a metodologia fará parte da prova em 2026 e declarou que a utilização do modelo de testlet diversifica a prova, o que pode “aumentar o engajamento do participante, reduzindo a chance deste responder mecanicamente aos itens”.
Ainda segundo o órgão, “também é possível expor textos mais próximos da sua integralidade, em que a atribuição de sentido pelo participante se aproxima mais de situações reais da vida e do processo de escolarização”.
