A menos de um mês das eleições gerais em Israel, a Suprema Corte do país derrubou o veto a duas siglas árabes, que podem ser o fiel da balança na disputa, e a um parlamentar de oposição. Os magistrados decidiram que, ao contrário do que havia decidido a Comissão Central Eleitoral, a Lista Árabe Unida (Ra’am), a Lista Conjunta e o deputado Ofer Cassif não violaram as leis, mas outro parlamentar vetado inicialmente anunciou que não vai mais concorrer. Os juízes ainda determinaram a retirada de um vídeo no qual um ministro do governo ameaça de morte um detento palestino.
Guga Chacra: Por que Netanyahu ignorou alertas sobre atentado do Hamas? Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Na sessão desta sexta-feira, os magistrados decidiram por unanimidade que as siglas árabes não incitaram o racismo, negaram a existência de Israel como um Estado judaico e democrático e não expressaram apoio à luta armada contra Israel, alegações que, pela legislação local, são pretexto para invalidar a participação eleitoral.
No caso de Cassif, parlamentar do Hadash — que integra a Lista Conjunta —, a absolvição veio por 7 votos a dois, mas todos juízes expressaram objeção ao que chamaram de “comentários e ações ultrajantes” do parlamentar: no passado, ele defendeu o processo no Tribunal Penal Internacional contra Israel, criticou a guerra em Gaza e se mostrou favorável à libertação de Marwan Barghouti, um dos líderes do Fatah e preso desde 2002. Por suas posições, ele foi suspenso várias vezes do Parlamento Israelense. “A confirmação da nossa candidatura nas eleições não é um favor nem uma concessão”, escreveu na rede social X, logo após a decisão. “Saiam para votar em massa! Só uma Lista Conjunta forte dará uma resposta adequada ao racismo, à supremacia e ao fascismo.” Extrema direita: 'Israel deve entrar em guerra na Cisjordânia e repetir Gaza', diz ministro das Finanças Bezalel Smotrich No mês passado, a Comissão Central Eleitoral, órgão formado por parlamentares de diversos partidos, anunciou o veto à presença do Ra’am, da Lista Conjunta, de Cassif e do líder do Balad, Sami Abu Shehadeh, nas eleições marcadas para o dia 27, sob alegação de violação das normas eleitorais. O pedido para que fossem julgadas veio do grupo do premier, Benjamin Netanyahu, mas recebeu o apoio de partidos de oposição, como do Israel Nossa Casa, de Avigdor Liberman: na ocasião, o parlamentar disse que o Balad era uma “organização terrorista” que deveria ser banida do Parlamento.
Analistas previam que a decisão da Comissão seria derrubada pela Suprema Corte, se pautando em jurisprudências anteriores, mas no caso de Shehadeh a condenação era dada como certa: um dia depois dos ataques de 7 de outubro de 2023, ele publicou um artigo no qual dizia que se tratava de um "um evento histórico importante nas esferas militar, política e estratégica". O político lamentou posteriormente o texto, que buscava "interromper a escalada militar", e antes da sessão desta sexta-feira anunciou que não iria se candidatar. Em comunicado, o Balad afirmou que tomou a decisão de retirar a candidatura "por responsabilidade política para com o nosso povo e para com a Lista Conjunta, e em reconhecimento às graves consequências que ela poderia acarretar para a atividade política e parlamentar como um todo". Ao mesmo tempo, declarou que Shehadeh segue à frente do partido e continuará a "liderar a luta política em defesa da representação árabe". Com boicote e protestos: Jogo entre Israel e Irlanda, em campo neutro e com segurança reforçada, vira questão de Estado Apesar de minoritárias no Parlamento, as siglas árabes podem ser cruciais na formação de um governo após as eleições do fim do mês. De acordo com as projeções, a oposição depende delas para chegar à maioria de cadeiras, mas a resistência de parte da sociedade a nomes pró-Palestina pode ser um fator crucial. Gadi Eisenkot, um ex-chefe militar apontado como provável novo primeiro-ministro, disse explicitamente que nenhum partido árabe atende às suas condições para integrar um governo liderado por ele. Já Yair Golan, líder do Democratas (esquerda), afirmou na semana passada que a presença dos árabes no Gabinete seria “natural, correta, apropriada e democrática”. Além dos partidos árabes, a Suprema Corte determinou a retirada das redes sociais de um vídeo no qual o ministro da Segurança, Itamar Ben-Gvir, humilha e ameaça de morte um detento palestino. Ben-Gvir é um dos elementos mais radicais da extrema direita israelense, e conhecido pelas declarações racistas e que pregam a violência contra os árabes. Uma petição por sua exclusão das urnas chegou a ser apresentada à Comissão Eleitoral, foi rejeitada pelos representantes. Além da derrubada do vídeo, o ministro deverá pagar uma multa equivalente a R$ 17 mil.
— [Ben-Gvir] aproveitou-se de seu cargo para produzir um vídeo de campanha eleitoral — disse o juiz Noam Sohlberg. — Outros candidatos, e, ao que parece, outros ministros, não têm o mesmo acesso a prisões, detentos e agentes penitenciários. O ministro Ben-Gvir tem a vantagem de acessar esses recursos públicos e a aproveitou plenamente.
O Globo