Sumiço de máquina de cigarros da Cidade da Polícia completou três anos e ainda segue sem pistas

 

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O mistério do sumiço da máquina de cigarros da Cidade da Polícia, no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, persiste. Em fevereiro, completaram-se três anos sem pistas sobre o paradeiro do equipamento. O caso é alvo de investigações nas polícias Civil e Militar. Na primeira corporação, investigadores tentam esclarecer o furto da máquina — de mais de cinco toneladas e seis metros de comprimento — de dentro de um galpão localizado em um dos espaços que, em tese, deveriam ser dos mais vigiados, justamente por estar dentro da Cidade da Polícia. Nesse caso, o inquérito é criminal.

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As polícias Civil e Militar, por meio de suas corregedorias, tentam identificar o possível envolvimento de agentes das duas corporações. Mais de 50 pessoas já teriam sido ouvidas para tentar entender a dinâmica do crime. A Polícia Federal chegou a esbarrar no caso quando investigava o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como um dos chefes da máfia de cigarros no estado e em outras capitais do país. Segundo fontes, os investigadores descobriram que outras duas máquinas de cigarros também teriam sumido da Cidade da Polícia, mas acabaram sendo localizadas.

Fachada da Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte do Rio, num dia de operação

TV Globo/Reprodução

Adilsinho, que seria um dos maiores interessados no equipamento, de acordo com investigadores, foi preso em 26 de fevereiro, durante uma ação da FICCO/RJ (Força Integrada de Combate ao Crime Organizado), com agentes de inteligência das polícias Federal e Civil e apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil. Ele é apontado como um dos principais contraventores que, ao lado do bicheiro Rogério de Andrade, pretendia formar a chamada “Nova Cúpula do Bicho”.

Depoimento esclarecedor de testemunha

A máquina de cigarros desaparecida estava guardada em um galpão onde funciona o depósito de bens apreendidos da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC), nos fundos da Cidade da Polícia. O que chama atenção é como um equipamento tão pesado e de grandes dimensões teria saído de um complexo que abriga unidades especializadas da polícia sem ser notado. Para transportá-lo, seria necessário ao menos um caminhão munck, veículo equipado com guindaste articulado, usado para içar, movimentar e transportar cargas pesadas. A máquina custa cerca de R$ 75 mil.

O blog Segredos do Crime teve acesso, com exclusividade, ao depoimento de uma testemunha, prestado à Corregedoria da Polícia Militar, em fevereiro deste ano. Trata-se de um policial que relatou ter iniciado as investigações e afirmou que “a segurança era completamente prejudicada”, já que não havia controle dos materiais apreendidos ma DRFC. Outro problema grave, segundo ele, era a inexistência de registros das câmeras de segurança na Cidade da Polícia.

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De acordo com a testemunha, com base no que apurou à época do desaparecimento da máquina, o policial civil Juan Felipe Alves da Silva, ex-chefe do setor de investigação da DRFC, era o responsável pela chave do depósito onde estava o equipamento. Para o investigador, era “impossível retirar a máquina de cigarros sem planejamento”. Ele também alertou para “inconsistências” nas trocas de serviço da segurança do pátio. O mais estranho, segundo o relato, é que ninguém percebeu o furto do equipamento.

Outra informação prestada pela testemunha foi a de que o carro da DRFC usado por Juan teria sido abastecido na Cidade da Polícia em quantidade superior ao normal no suposto período do furto. O veículo, que inclusive é semiblindado, foi rastreado durante a investigação, chegando a ser localizado em Cuiabá, região próxima à área de influência de Adilsinho, segundo o policial que apurou o caso na época do desaparecimento da máquina.

Adilsinho chegando na PF

Márcia Foletto / Agência O Globo

Ao pesquisar os endereços visitados pelos carros da DRFC, os investigadores constataram que um deles esteve estacionado em frente à casa do policial militar Laércio Gonçalves Filho. Nas redes sociais, segundo a testemunha, ele aparece como amigo de Juan. Foi a partir do surgimento do nome de Laércio que a Corregedoria da PM passou a investigar o caso, para apurar eventual envolvimento dele. O agente trabalhava na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Jacaré, em frente à Cidade da Polícia.

Corregedoria explica procedimentos

De acordo com a Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL), o inquérito está em andamento, com diligências em curso para o esclarecimento dos fatos, e é acompanhado pelo Ministério Público. Em nota, a assessoria da Secretaria de Estado de Polícia Civil informou: “Paralelamente à investigação, foi instaurado Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar possível responsabilidade de servidores, que estarão sujeitos às sanções cabíveis, incluindo a demissão”.

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O Ministério Público do Rio informou que a Polícia Civil está com o inquérito desde ouaubro do ano passado.

O advogado de Juan, Carlos Augusto, afirmou que não há nenhuma prova contra seu cliente e alegou sua inocência. Como o caso tramita sob segredo de justiça, a defesa preferiu não dar mais detalhes sobre o fato.

Já o advogado de Laércio, Cláudio dos Santos, que o defende no caso da investigação militar, afirmou que o policial está sendo submetido a conselho de disciplina na corregedoria da corporação e vem respondendo a todos os questionamentos da Polícia Militar:

— A instituição, naturalmente, visando preservar até mesmo o próprio policial, está lhe garantindo o contraditório e a ampla defesa. Várias testemunhas já se apresentaram, inclusive os policiais que participaram da investigação prestaram depoimento, e nenhum deles confirmou, de forma efetiva, a participação de Laércio. Nada vincula o meu cliente a esse processo. Trata-se apenas de uma amizade dele com o policial Juan. O fato de residirem próximos um do outro não quer dizer que ele esteja envolvido. Não há mais nada além disso — afirmou Cláudio.