Sucessão travada, Master e Refit: PL acumula baques no Rio, berço do bolsonarismo e reduto do partido

 

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De expectativas frustradas no processo sucessório à operação de sexta-feira contra o ex-governador Cláudio Castro, o PL do Rio acumula adversidades nas últimas semanas. Além de reveses com impacto mais local, o presidenciável Flávio Bolsonaro, que tem o estado como base, viu a pré-candidatura ser afetada pela revelação de conversas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

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Todo o plano desenhado por Castro e aliados para a sucessão deu errado até agora, e o mandado de busca e apreensão no caso Refit prejudicou ainda mais a tentativa do ex-governador, inelegível desde março, de concorrer ao Senado. O baque se soma ao fato de o presidente da Assembleia Legislativa e pré-candidato do PL ao governo do Rio, Douglas Ruas, não ter conseguido assumir o Palácio Guanabara de forma interina, na contramão do esboço feito pelo partido há meses.

Quando desenharam, ainda no ano passado, as movimentações políticas voltadas para a próxima eleição, Castro e aliados tinham duas ideias em mente: impulsionar o candidato do grupo ao governo do estado, que deveria ter um período à frente da gestão antes de encarar a campanha, e preparar a própria candidatura do ex-governador ao Senado.

A renúncia do então chefe do Guanabara, no final de março, foi pensada para driblar a condenação iminente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que se deu um dia depois dele anunciar a saída do governo. Mas, com base em provocações do PSD, partido do ex-prefeito do Rio e pré-candidato ao Guanabara, Eduardo Paes, a Justiça deu uma série de decisões que fizeram com que o PL não conseguisse colocar Douglas Ruas como governador interino — mesmo ele tendo sido eleito presidente da Alerj e, em tese, entrado na linha sucessória.

Uma decisão liminar de Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, permanecesse na cadeira até o colegiado da Corte decidir os próximos passos da sucessão. Depois de um pedido de vista de Flávio Dino, o processo ainda não tem data para voltar à pauta. Cresceu desde então a avaliação de que Couto ficará até o fim do ano à frente do Executivo, em vez de o Rio fazer eleições suplementares para eleger um governador-tampão.

Há quase dois meses, portanto, o estado não está nas mãos de um grupo político específico. A “neutralidade” de Couto é comemorada por aliados de Paes, já que evita que o PL fique à frente da máquina estadual antes da campanha. O desembargador também tem promovido uma limpa na administração, com exonerações em massa em diversos órgãos. Assim, o vencedor da eleição de outubro caminha para assumir um Executivo menos aparelhado no início do ano que vem.

Ruas contava com a visibilidade da cadeira e o poder da caneta para tentar crescer antes do período eleitoral. Até agora, o ex-prefeito do Rio lidera com folga as pesquisas. Na última Genial/Quaest, feita em abril, ele tem 40% no primeiro turno, contra 10% do presidente da Alerj.

A tendência é que a associação à família Bolsonaro faça Ruas crescer, mas a consolidação do favoritismo de Paes a menos de cinco meses da disputa tem surtido efeitos — como o apoio de sete dos 13 prefeitos da Baixada Fluminense ao carioca, simbolizado em uma foto há duas semanas.

Na situação específica de Castro, a operação que teve como base as investigações sobre a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, fez a candidatura ao Senado praticamente minguar de vez. O PL estuda alternativas, mesmo que não reconheça isso em público. Por tabela, o caso atinge Ruas, já que parte da estratégia de Paes é colar o adversário no governo do antecessor, no qual o pré-candidato foi secretário de Cidades.

Em outra frente, há conexões da política local com o caso Master. O Rioprevidência fez um aporte de quase R$ 1 bilhão no banco. Integrantes do instituto na gestão Castro chegaram a ser presos, e as investigações estão em curso.

Aposta na campanha

Líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, que é do Rio, alega que “altos e baixos” acontecem em qualquer campanha. Depois de o presidente Lula ter enfrentado uma crise inédita com a derrota da indicação de Jorge Messias para o STF, diz o parlamentar, foi a vez de o partido de Bolsonaro passar por problemas.

— Esta semana, por conta de vazamento seletivo e de investigação seletiva, o revés veio para algumas figuras do nosso partido, mas tenho certeza que o PL é igual clara de ovo: quanto mais bate, mais vamos crescer — afirma.

Na semana passada, houve ainda a revelação das conversas entre Flávio e Vorcaro. O presidenciável vem atuando, junto com o presidente estadual do partido, Altineu Côrtes, na construção do projeto eleitoral no Rio, mas vê agora a própria imagem ficar abalada.

Minar a força do bolsonarismo no Rio é importante tanto para Eduardo Paes, na eleição estadual, quanto para Lula, na nacional. O PT não alimenta a esperança de vencer o jogo presidencial no estado, onde Lula tem hoje rejeição alta, mas tenta uma redução de danos no terceiro maior colégio eleitoral do país — estado no qual o petista perdeu para Bolsonaro no segundo turno de 2022 por cerca de 1,3 milhão de votos.