Sucessão no Irã ocorre sob disputa entre ala militar e grupo moderado, avalia Leonardo Trevisan

 

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A nomeação de um aiatolá como líder supremo interino do Irã abre um período de incertezas políticas no país, mas não indica, ao menos por ora, o colapso do regime. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, que aponta a existência de forças internas consolidadas capazes de sustentar o sistema político iraniano.

Segundo ele, três cenários são possíveis neste momento: o fim do regime, uma guerra civil ou a ascensão de um governo ainda mais hostil ao Ocidente.

“Afiançar que não vai acontecer é perigoso. É evidente que pode haver uma guerra civil, mas não é o que parece neste momento”, afirma.

Trevisan explica que o jogo político iraniano já estava delimitado antes mesmo da sucessão. De um lado, está a Guarda Revolucionária, força central na sustentação do regime e responsável pela repressão a protestos recentes.

Durante manifestações que se estenderam por semanas, a repressão foi violenta. Relatos publicados pelo jornal britânico The Guardian indicaram milhares de mortos, muitos deles jovens atingidos por tiros na cabeça. “É um poder real, efetivo, que sustenta o regime e não pode ser subestimado”, diz o professor.

Além da influência política interna, a Guarda Revolucionária mantém forte presença estratégica, especialmente no Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

De outro lado, há uma ala considerada mais pragmática, ligada ao presidente iraniano, que defende prioridade à recuperação econômica e à redução das sanções internacionais. “Esse grupo entende que não adianta ter poder político se a população enfrenta inflação elevada e perda de poder de compra”, afirma Trevisan.

Nova geração na sucessão

A sucessão definitiva do líder supremo deve ser conduzida pelo Conselho de Guardiões. Entre os nomes cotados estão Mojtaba Khamenei, filho do atual líder, e Hassan Khomeini, neto do aiatolá que liderou a Revolução Islâmica de 1979.

Para Trevisan, a nova liderança deverá surgir de uma geração mais jovem, na faixa dos 50 anos. Apesar da disputa interna, ele não vê sinais de ruptura estrutural. “Não acredito em uma transformação absoluta com a perda do poder dos aiatolás”, afirma.