Sucessão de Khamenei: Irã nomeia aiatolá para conselho interino enquanto amplia retaliação e sofre novos ataques
A República Islâmica do Irã anunciou neste domingo a nomeação do aiatolá Alireza Arafi, líder religioso e integrante do Conselho dos Guardiões, como parte do conselho interino responsável por governar o país até a escolha de um sucessor para o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, morto nos ataques conjuntos de Israel e dos EUA contra Teerã no sábado. O primeiro sinal de uma transição de poder dentro da estrutura prevista pelo regime acontece em um momento em que Teerã promete vingança contra seus inimigos e amplia uma retaliação que já afeta toda a região, dobrando a aposta apesar das ameaças do presidente americano, Donald Trump, de um novo ataque ainda mais contundente — embora as agressões não tenham cessado, com o regime divulgando os nomes dos funcionários de elite mortos enquanto Israel voltou a bombardear o centro de Teerã.
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A indicação de Arafi, de 67 anos, foi anunciada por um porta-voz do Conselho dos Guardiões, um órgão influente de supervisão das leis e que participa do processo de escolha do líder supremo. Além do líder religioso, o conselho interino será formado pelo presidente Masoud Pezeshkian e pelo chefe do Poder Judiciário Gholamhossein Mohseni-Ejei. O "triunvirato" ficará responsável pelas atividades cotidianas de governo até que um outro órgão, a Assembleia de Peritos, eleja um sucessor definitivo — um dos nomes já em provável consideração é o filho do aiatolá, Mojtaba Khamenei, que vinha manifestando intenção de substituir o pai como líder supremo.
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Se a morte da figura central da República Islâmica abala a estabilidade do regime, o governo iraniano atua sob extrema pressão, enquanto tenta coordenar uma reação considerada eficaz e adequada à extensão dos danos sofridos e fazer um balanço real das perdas em suas fileiras. A mídia estatal do país confirmou que entre os mortos no sábado estavam o chefe da Guarda Revolucionária, Mohamad Pakpour, e o chefe do Conselho Nacional de Defesa e assessor próximo de Khamenei, Ali Shamkhani. Autoridades já tinha confirmado na véspera a morte do ministro da Defesa, Amir Nasirzadeh.
O golpe ao coração do regime provocou promessas de retaliação. O presidente iraniano afirmou neste domingo que "o derramamento de sangue e a vingança contra os perpetradores e comandantes" dos ataques de sábado, que chamou de "crime histórico", são um "dever e direito legítimo", prometendo que "cumprirá essa grande responsabilidade". Autoridades de Defesa e a Guarda Revolucionária Iraniana emitiram declarações no mesmo sentido, enquanto novos mísseis e drones foram disparados por toda a região.
As lideranças do regime iraniano mortas durante o ataque coordenado, incluindo o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei
Arte O Globo
Mísseis e drones iranianos voltaram a voar sobre as principais cidades do Golfo neste domingo, com registros de interceptações e impactos em Doha (Catar), Dubai (Emirados Árabes Unidos), Manama (Bahrein) e Riad (Arábia Saudita). Na capital do Bahrein, o luxuoso hotel Crowne Plaza confirmou um "incidente" em meio à operação de interceptação realizada pela Força Aérea local, sem detalhar se a estrutura foi atingida por um projétil ou por um estilhaço. O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos afirmou que três pessoas morreram e cerca de 60 ficaram feridas desde o início da retaliação iraniana. Omã — país que atuou como mediador dos diálogos indiretos entre Washington e Teerã — foi alvo dos primeiros ataques neste domingo, com ao menos cinco pessoas feridas após explosões em um porto e um navio-petroleiro próximo à Costa.
A tensão com os países árabes é um mal indicador para o Irã, que pode atrair para si a mira de mais poderio bélico. Entre os comunicados de condenação pela violação do espaço aéreo e das soberanias de seus territórios, muitos dos países da região se reservaram ao direito de responder as agressões. O Conselho de Cooperação do Golfo, aliança política formada por Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait, Catar, Omã e Emirados, convocou uma reunião de emergência de chanceleres para este domingo, segundo fontes ouvidas pela Al-Jazeera.
Rataliação iraniana mirou países próximos que abriguem bases dos EUA e Israel
Arte O GLOBO
Em uma tentativa de calibrar a resposta bélica e a retórica política, a cúpula do regime iraniano tenta se eximir de responsabilidade pelos ataques que provocam danos físicos a estruturas, caos no espaço aéreo — incluindo a maior interrupção de voos desde a pandemia — e pânico entre a população civil. Em uma declaração neste domingo, o chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, afirmou que os ataques miram apenas bases americanas na região, que qualificou como "território americano". Larijani acrescentou que os EUA haviam sido alertados de que os locais seriam vistos como alvos legítimos em caso de um novo ataque ao território do país.
O Comando Central dos EUA anunciou ainda no sábado que os danos a suas estruturas após as levas iniciais de ataque iraniano foram mínimos, e não se referiu a qualquer baixa em suas tropas. Neste domingo, a base americana em Erbil, no Iraque, foi atacada por drones iranianos, mas os militares disseram ter conduzido uma operação de interceptação bem-sucedida. O Reino Unido afirmou que mísseis iranianos foram disparados contra suas bases no Kuwait e no Chipre, mas que não havia relato de qualquer dano direto.
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Entre os adversários de Teerã, o maior impacto até o momento foi registrado em Israel. Os serviços de emergência do Estado judeu afirmaram que oito pessoas morreram após um míssil iraniano atingir diretamente um prédio residencial em Bet Shemesh, na região central do país. Mais de 20 pessoas ficaram feridas. Sirenes de alerta soaram pelo país, incluindo em cidades importantes como Tel Aviv e Jerusalém, enquanto uma grande operação de interceptação de mísseis e drones era desempenhada pelas Forças Armadas israelenses.
Destruição em Teerã após ataques de Israel e dos EUA
