Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que, um dia foram vistos como defensores da democracia, agora se tornaram uma ameaça para as eleições presidenciais deste ano, ao estarem no “centro de um escândalo de corrupção feio e em constante expansão”, escreve a The Economist em um artigo publicado nesta quinta-feira (10).
“A maior perdedora seria a democracia brasileira. Os brasileiros estão cansados dos escândalos de corrupção que mancham a classe política a cada poucos anos. Eles costumavam confiar em sua mais alta corte, que enviou dezenas de políticos para a prisão por corrupção. Agora, essa confiança está se desgastando. Essa é a tragédia do Brasil: a corrupção no coração de suas instituições pode minar a confiança na democracia mais do que o Jair Bolsonaro jamais fez.” Apesar do STF ter sido responsável por responsabilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe após as eleições de 2022, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, tomou “várias decisões questionáveis” nesse processo e “os abusos se tornaram mais frequentes”, diz a revista ao mencionar também medidas adotadas no Inquérito das Fake News.
“Na época, grande parte da sociedade brasileira ignorou essas preocupações diante da ameaça maior. Mas agora Moraes está novamente sob escrutínio”, escreve a The Economist ao falar sobre os desdobramentos recentes do caso do Banco Master, que sugerem uma relação próxima entre Moraes e o ex-banqueiro, Daniel Vorcaro.
“É decepcionante que um poderoso ministro do STF tenha qualquer tipo de vínculo com o maior fraudador do Brasil. Pior ainda é a reação de Moraes. Quando as conexões entre os dois homens vieram à tona, o íntegro presidente do tribunal, Edson Fachin, propôs a adoção de um código de ética que exigiria que os ministros declarassem rendimentos externos, entre outras medidas. Moraes ridicularizou a ideia”.
A crise no STF escalou quando no dia 3 de setembro, quando Moraes pediu para investigar o ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master, por abuso de autoridade e por supostamente agir por motivação política, após ele ter autorizado a divulgação das mensagens entre Vorcaro e Moraes.
“Moraes pode ter razão em parte” diz a The Economist ao explicar como Mendonça tentou afastar o chefe-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e impedir a elaboração de relatórios sobre os ministros. “No entanto, em 2020, quando ocupava o cargo de Ministro da Justiça de Bolsonaro, Mendonça supervisionou a criação de um dossiê sobre centenas de policiais e acadêmicos considerados inimigos pelo Bolsonaro.” “A disfunção no Judiciário fortalece os aliados de Bolsonaro no Congresso, que prometem promover o impeachment de ministros do Supremo após as eleições e conceder perdão ao ex-presidente. Os equívocos processuais de Mendonça e as tentativas descaradas de Moraes de se proteger também poderiam fornecer justificativa jurídica para encerrar toda a investigação sobre o Banco Master.” Para a The Economist, isso poderia beneficiar “dezenas de políticos com vínculos com Vorcaro”, inclusive Flávio Bolsonaro, principal candidato da direita à presidência, que “após afirmar que jamais havia conhecido o homem, foi desmascarado em maio, quando vazaram mensagens de áudio nas quais ele é ouvido pedindo milhões de dólares ao Vorcaro.”
Valor