Stephen King reconta 'João e Maria' a partir das imagens delicadas e inquietantes de Maurice Sendak
Era uma vez um autor que, conhecido por contar histórias de terror, foi convidado a escrever a sua própria versão de um clássico da literatura infantil a partir de ilustrações de um artista também popular. Se ele viveu feliz para sempre ainda é cedo para dizer, mas este pode ser um resumo de como surgiu o projeto do livro “João e Maria” (Companhia das Letrinhas), de Stephen King, com arte de Maurice Sendak (1928-2012), autor do clássico “Onde Vivem os Monstros”.
No prefácio da edição, King diz que resolveu aceitar o convite para a empreitada ao ver os desenhos de Sendak. “Duas ilustrações em especial mexeram comigo: uma era da bruxa na vassoura carregando um saco de crianças sequestradas; a outra era da famosa casa feita de doces se tornando um rosto terrível”.
E o escritor conta ainda: “A casa era assim de verdade, um demônio doente de pecado, que só mostra a cara quando as crianças viram de costas. Eu queria escrever isso! Para mim, era a essência da história e, na verdade, de todos os contos de fadas: um exterior ensolarado, um interior terrível e sombrio, crianças corajosas e engenhosas. De certa forma, tenho escrito sobre crianças como João e Maria por grande parte da minha vida”.
Todo mundo que já foi criança conhece a história do casal de irmãos que é abandonado pelos pais numa floresta e, depois de se perder, encontra uma casa surpreendentemente feita de guloseimas e acaba capturado pela dona do lugar, uma bruxa esfomeada.
O conto original foi publicado em 1812 pelos irmãos Grimm — autores de clássicos como “Os Músicos de Bremen” e “Rapunzel” — a partir de histórias orais e, com o passar dos anos, passou a ser suavizado para o público infantil, assim como tantas outras fábulas. Em 1819, por exemplo, a mãe se transforma em madrasta, para atenuar a crueldade parental. Afinal, pai e mãe abandonando os filhos na floresta, em razão da fome, era cruel demais, mesmo naquela época. Bastava o genitor, não a figura materna. O mesmo aconteceu com as histórias de “Branca de Neve” e “Cinderela”. Por muito tempo as madrastas viveram o estigma de vilãs na ficção, o que acabou contaminando o mundo real.
As ilustrações de Sendak presentes no livro foram criadas originalmente para uma ópera inspirada no texto dos Grimm, em 1980. Tempos depois, em 1997, esse trabalho visual ganhou uma versão em livro. Daí a impressão de teatralidade nas imagens. Além das duas artes que mexeram com o autor de “Carrie” e “It: A Coisa”, vale destacar as caveiras que Sendak “escondeu” ao longo do livro, criando sutilmente um clima ainda mais aterrorizante.
King, por sua vez, não muda a essência da história, mas a torna mais ágil, simplificando a narração e fortalecendo as descrições para dar mais presença aos personagens, além de acentuar o clima de suspense, algo que ele conhece muito bem. Enfim, o escritor faz o que deveria: melhora o conto original.
Curiosamente, essa nova versão de “João e Maria” não é o primeiro livro voltado ao público jovem escrito por King. No longínquo ano de 1984, ele escreveu “Os Olhos do Dragão” (Suma) para a filha Naomi, então uma pré-adolescente que não gostava de histórias de terror, mas para quem o pai queria criar algo que ela pudesse ler sem medo.
King bolou então uma aventura medieval em que um príncipe é preso numa torre, acusado injustamente de matar o pai. Para recuperar a liberdade e a honra, ele precisa provar sua inocência.
Mas há um romance do autor, de 1999, que lembra bastante o clássico dos Grimm que ele acaba de reescrever. Em “A garota que adorava Tom Gordon” (Suma, atualmente fora de catálogo), uma menina se perde numa floresta e tenta sobreviver sozinha por dias, encontrando conforto ao ouvir pelo rádio os lances do jogador de beisebol que dá nome à história enquanto busca o caminho de volta para casa. King não escreveu “A garota que adorava Tom Gordon” para crianças, mas, em seu lançamento, descreveu a obra como “uma espécie de conto de fadas de João e Maria, mas sem o João”.
É mais uma prova de que, nas mãos de Stephen King, até um velho conto de fadas como esta nova versão de “João e Maria”, reescrita por ele e com arte de Sendak, pode ganhar novos sustos e novos leitores.
