Em 2022, foi criada nos Estados Unidos a Cofertility, startup cuja missão é ajudar mulheres a preservar sua fertilidade futura sem, na teoria, gastarem nada. A empresa mantém um programa chamado Split para mulheres de 21 a 33 anos no qual paga exames, medicamentos, coleta e armazenamento dos óvulos por até dez anos. Em contrapartida, elas devem “doar metade dos óvulos coletados para futuros pais que precisam da ajuda de uma doadora de óvulos para ter um bebê”. Trata-se de um modelo chamado compartilhamento de óvulos. Autodenominada como “um novo tipo de ecossistema de fertilidade centrado no ser humano”, a Cofertility funciona como intermediária entre as participantes, os futuros pais e as clínicas — não como prestadora do tratamento. Reportagem da Wired relata que a empresa divide o Split em dois: Fresh e Frozen. No Fresh, as doadoras congelam seus óvulos. A Cofertility arca com os custos de exames médicos e psicológicos, estimulação hormonal e cirurgia — geralmente em dois ciclos — e recupera o investimento vendendo os óvulos do primeiro ciclo para futuros pais. No modelo Frozen, as doadoras são selecionadas pelos futuros pais, e são eles que arcam com o tratamento com medicamentos hormonais que ela precisa injetar em si mesma por até duas semanas antes da coleta dos óvulos, além de testes genéticos e avaliação psicológica.
Em julho de 2025, a violinista chinesa Yuchen Tu, que atende por Sue, assinou com a startup. Aos 24 anos, ela se viu atraída pelo fato de não precisar pagar para congelar e armazenar seus óvulos — o preço em Nova York, nos Estados Unidos, onde mora, gira em torno de US$ 18 mil (aproximadamente R$ 91,6 mil).
O modelo que ela escolheu foi o Frozen. A primeira coleta se deu em 17 de setembro de 2025, e 26 óvulos maduros foram coletados. À Wired ela contou que depois disso se sentiu pressionada pela Cofertility para fazer uma nova coleta - seu contrato estipulava que precisava fazer dentro de um ano após a primeira - e que a atitude da empresa em relação a ela havia mudado. Intrigada, a jovem quis descobrir mais sobre o negócio para o qual havia entregado seu material genético. Ao longo do tempo, ela compilou um dossiê para documentar suas preocupações. Nele, escreveu que a plataforma coleta “linhagem genética, respostas de perfis psicológicos, histórico médico familiar e informações intergeracionais” de um grande grupo de candidatas, muitas das quais nunca se tornarão doadoras.
A classificação desses dados, segundo Sue, “se aproxima da eugenia comercializada”. Outros incômodos que ela teve em relação à empresa são a forma como fazia as doadoras afirmarem que estavam em pleno gozo de suas faculdades mentais e o marketing emocional. A musicista chinesa também criou um perfil falso de uma futura mãe, chamada Yang. Por meio dele, recebeu propostas da Cofertility. Um era para comprar os óvulos de uma doadora de ascendência vietnamita. O lote com oito óvulos custava US$ 28 mil (R$ 142,5 mil); com nove, US$ 31,5 mil (R$ 160,3 mil) e, com 17, US$ 52,7 mil (R$ 268,2 mil). Havia outra proposta que tinha ela como doadora. O lote com seus 26 óvulos estava disponível por US$ 83,7 mil (R$ 425,9 mil). Sue chegou a ter reuniões com a alta liderança da startup, que decidiu por romper o contrato com ela. Ainda preocupada, ela enviou o dossiê que elaborou, com cerca de 75 páginas, para o escritório do Inspetor Geral do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Mas nunca teve retorno. Críticas ao trabalho da Cofertility Especialistas não apoiam totalmente a forma como a Cofertility atua, mas nem tanto pela estratégia empregada e, sim, pelo próprio congelamento de óvulos. Eve Feinberg, especialista em endocrinologia reprodutiva da faculdade de medicina da Northwestern, disse à Wired que, com o modelo Fresh Split da empresa, “a doadora de óvulos não terá a melhor probabilidade de ter um bebê vivo com apenas metade de um ciclo”. Tecnicamente, é preciso de um único óvulo para se ter um bebê. Mas para que esse único óvulo se torne uma pessoa, tudo precisa dar certo. Quando estimulados com um regime hormonal, subverte-se a expectativa de liberação mensal de uma única célula e se induz uma leva inteira de óvulos a se prepararem para serem liberados.
Alguns deles não amadurecerão completamente, outros não serão geneticamente normais e há ainda aqueles que podem não congelar corretamente. A Wired destaca que trata-se de uma questão de atrito — a proporção óvulo-embrião-feto-bebê é frequentemente descrita como uma pirâmide invertida — então, quando as doadoras da Cofertility doam metade de seus óvulos congelados, elas não sabem se a melhor chance está na porção que mantiveram.
Os especialistas em fertilidade consultados pela reportagem enfatizaram que a empresa tem a obrigação de explicar às pacientes que o serviço não oferece o mesmo benefício que, por exemplo, pagar em dinheiro e ficar com todos os óvulos.
Em comunicado, a startup observou que, como as doadoras precisam ter reservas ovarianas mais elevadas, elas obtêm uma média de 24 óvulos, ou 12 retidos por ciclo de inseminação dividida. "Pesquisas comprovam que 12 óvulos congelados de uma doadora são um bom começo para um nascimento com sucesso, em média", afirmou um porta-voz.
Além disso, existem os riscos médicos, com dados incompletos divulgados, e o quão o procedimento é desgastante para o corpo. "Quando temos pacientes [na faixa dos vinte anos] em nossa clínica que nos procuram para saber sobre o congelamento de óvulos, na verdade, as aconselhamos a não fazê-lo", observou Lydia Hughes, que recentemente concluiu sua residência na Northwestern e, juntamente com Feinberg, já se manifestou contra o modelo da Cofertility.
Feinberg complementou que o modelo da Cofertility é problemático porque desvaloriza o produto que as doadoras estão vendendo. Os valores pagos às doadoras de óvulos variam bastante, mas não é incomum que uma doadora receba dezenas de milhares de dólares, às vezes chegando a valores na casa das centenas de milhares.
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