Stablecoins ganham relevância crescente nos pagamentos - QTU Questões do Universo

Stablecoins ganham relevância crescente nos pagamentos

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Larissa Moreira, gerente de produtos de digital assets do Itaú: uso de stablecoins para especulação está caindo
Divulgação
A decisão do Banco Central de abandonar a ideia de um real digital como parte do Drex não tirou o mercado do caminho da tokenização.
Ao contrário: entre instituições financeiras e empresas de criptoativos que participaram de painéis sobre o tema no evento Febraban Tech 2026, a avaliação comum é de que a experiência do projeto ajudou a acelerar uma transformação que agora avança por outras frentes, especialmente com o crescimento das stablecoins e dos ativos do mundo real (RWA, na sigla em inglês).
O projeto do BC, inicialmente concebido como uma moeda digital, evoluiu para uma infraestrutura voltada à programação de ativos e aos chamados contratos inteligentes.
Ao recuar da ideia de uma moeda digital própria, no fim de 2025, o BC manteve a intenção de levar adiante a infraestrutura capaz de permitir novas formas de negociação e liquidação.
Para o mercado, porém, ficou uma lacuna: como liquidar ativos tokenizados em uma rede digital sem uma representação nativa do real? É nesse espaço que as stablecoins ganham força.
No Brasil, elas já representam cerca de 80% do volume de criptoativos declarado por brasileiros à Receita Federal.
Entre 2019 e o fim de 2025, foi movimentado cerca de R$ 1,13 trilhão em stablecoins, sendo que o USDT, da Tether, responde por quase 89% do volume transacionado.
A mudança de perfil das stablecoins é um dos principais fatores por trás dessa expansão.
Antes associadas principalmente à negociação de criptoativos e à especulação, elas começam a ser utilizadas como infraestrutura de pagamentos, especialmente em operações internacionais.
“As stablecoins eram pares de trade e casos de uso focados em especulação.
Não são mais”, afirma Larissa Moreira, gerente de produtos de digital assets do Itaú Unibanco.
Para ela, o primeiro grande caso de uso no curto prazo é o cross-border, com potencial adicional para gestão de caixa e ganho de eficiência operacional.
A demanda por uma infraestrutura que funcione ininterruptamente é um dos motores dessa transformação.
Segundo Rafael Soares, chefe de IT digital assets do BTG Pactual, brasileiros compraram US$ 14,68 bilhões em criptoativos e stablecoins no primeiro semestre.
Com o avanço da tokenização, diz ele, aumenta a necessidade de uma representação digital da moeda que permita liquidação contínua e concilie as janelas de funcionamento dos sistemas financeiros de diferentes países.
A questão é que a maior parte das stablecoins é atrelada ao dólar.
Para a tokenização de ativos brasileiros, o mercado considera necessária uma alternativa em reais.
“Quando fala de tokenização precisa da stablecoin em reais.
Vai liquidar contra o quê? O Pix? Ainda não conversa.
Trilhos distintos”, afirma Fabrício Tota, vice-presidente de negócios cripto do MB.
Vejo stablecoin como perna de liquidação de outros produtos”
Já há iniciativas nessa direção.
Além do BRL-1, criado por um consórcio formado por Cainvest, Bitso, Foxbit e MB, o mercado tem outras stablecoins de real em desenvolvimento ou ganhando tração.
O BRL-1, segundo Tota, consegue realizar liquidação sem passar pelo Pix, abrindo uma alternativa para operações nativamente digitais.
O desafio agora é a interface com o sistema financeiro tradicional.
A expectativa de participantes do mercado é que a regulação seja decisiva para dar escala e segurança às operações.
“Vejo stablecoin não como produto, mas como perna de liquidação de outros produtos”, afirma Soares.
O mesmo vale para a tokenização de ativos.
Embora a tecnologia já permita registrar e negociar representações digitais de recebíveis, títulos e outros ativos, ainda existem dúvidas sobre a relação entre o token e o ativo original, além de questões de escrituração, distribuição, custódia e responsabilidades dos participantes.
Para Julia Rosin, presidente da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABcripto), é necessário conectar as duas camadas - a estrutura jurídica e financeira do ativo e sua representação digital.
“A construção de regulação e uniformização de taxonomia é essencial para criar base e desenvolver o mercado.” A custódia aparece como um dos principais pontos de atenção.
A tecnologia blockchain pode garantir o registro das transações, mas não resolve sozinha quem responde pelo ativo, quem garante seu lastro ou como o investidor será protegido.
Sobre o Drex, o Banco do Brasil avalia que o projeto cumpriu um papel importante ao provocar o mercado.
“Sentimos falta da visão de moeda do BC que permita a liquidação no universo digital, com moeda nativa em rede.
Ficamos um pouco carentes nesta parte dois”, diz Lia Pedro, gerente de tecnologia da informação do banco.
Na prática, os chamados “órfãos do Drex” seguem avançando.
O mercado já registra aplicações em crédito, recebíveis, debêntures, fundos e outros ativos.
Segundo André Portilho, do BTG Pactual, o mercado brasileiro de RWA alcançou R$ 8,92 bilhões em captações acumuladas até 2026, impulsionado principalmente por crédito privado e antecipação de recebíveis.