Spray nasal contra vírus, bactérias e até alergias? Avança estudo sobre nova vacina universal

 

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Imagine uma vacina, sem agulhas, que proteja de uma vez só contra gripes, resfriados, infecções pulmonares bacterianas e até alergias. Um grupo de cientistas avança para conseguir tudo isso em um único spray nasal anual.

Em um artigo publicado nesta semana na revista Science, pesquisadores descrevem uma vacina que fez exatamente isso.

Pesquisadores da Universidade Stanford afirmam que podem proteger contra múltiplos patógenos simultaneamente usando um spray nasal que imita os sinais liberados pelas células imunológicas, preparando o sistema imunológico para atacar imediatamente qualquer invasor.

Camundongos que receberam o spray apresentaram 700 vezes menos vírus nos pulmões após serem expostos à Covid-19 e às bactérias causadoras de pneumonia e faringite estreptocócica do que aqueles que não receberam o spray, descobriram os cientistas.

A vacina os protegeu por pelo menos três meses contra múltiplos vírus e bactérias causadores de doenças e até mesmo suprimindo as respostas a alérgenos respiratórios.

A pesquisa ainda está em estágios iniciais e só foi realizada em animais até o momento, mas os cientistas esperam iniciar os testes clínicos em pessoas.

Se a pesquisa se mostrar segura e eficaz em humanos, essa “vacina universal” poderia ser oferecida a todos no início de cada inverno — e talvez fornecer uma primeira linha de defesa contra futuras pandemias.

"Imagine receber um spray nasal nos meses de outono que proteja contra todos os vírus respiratórios, incluindo Covid, gripe, vírus sincicial respiratório (VSR) e resfriado comum, bem como pneumonia bacteriana e alérgenos do início da primavera. Isso transformaria a prática médica", afirma.

No entanto, na melhor das hipóteses, provavelmente ainda levaria de cinco a sete anos para estar disponível, de acordo com Bali Pulendran, imunologista que lidera o estudo.

Cientistas que não participaram do estudo disseram que ele é "realmente empolgante" e pode representar um "grande passo adiante" rumo a uma nova vacina contra doenças respiratórias.

Daniela Ferreira, vacinologista da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que não participou da pesquisa, disse: "Esta é uma pesquisa realmente empolgante que pode mudar a forma como protegemos as pessoas de tosses comuns, resfriados e outras infecções respiratórias. Se essa estratégia se mostrar segura e eficaz em humanos, poderá representar um grande avanço."

Brendan Wren, microbiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que também não participou da pesquisa, acrescentou: "O estudo que afirma ter uma 'vacina respiratória universal' parece bom demais para ser verdade, mas os pesquisadores podem ter descoberto um novo conceito para vacinação."

Os cientistas esperam que seu spray possa levar a que as pessoas recebam apenas uma dose para vírus de inverno como Covid, gripe e pneumonia, mas alertam que provavelmente será necessário repeti-la anualmente.

Como funciona

Bali Pulendran e seu grupo já haviam estudado a vacina Bacillus Calmette-Guérin (BCG)², que oferece proteção temporária contra diversas doenças e funciona ativando o sistema imunológico inato e mantendo-o ativo.

Este sistema, ancestral na evolução, possui uma reatividade muito mais ampla do que o sistema imunológico adaptativo — que é o utilizado pelas vacinas convencionais, ensinando as células B e T produtoras de anticorpos a reconhecer proteínas encontradas em patógenos específicos. A ativação do sistema imunológico inato também pode induzir a capacidade intrínseca das células epiteliais do sistema respiratório de resistir a infecções. Essas células são o alvo de muitos patógenos.

No estudo mais recente, a equipe de Pulendran desenvolveu uma vacina universal que tem como alvo o sistema imunológico inato, com três componentes. Os dois primeiros são medicamentos que estimulam proteínas receptoras específicas que podem ativar células imunológicas inatas, como os macrófagos que residem nos pulmões.

O terceiro componente estimula uma população de células T, que fazem parte do sistema imunológico adaptativo. Sua função é continuar enviando sinais ao sistema imunológico inato para manter seu estado ativo. A vacina contém uma proteína imunogênica de ovos de galinha e, em experimentos nos quais ela foi omitida, a imunidade diminuiu rapidamente.

Camundongos que receberam quatro doses da vacina administrada por via nasal desenvolveram imunidade ao Sars-CoV-2 e a outros coronavírus, além de bactérias que causam certas infecções respiratórias. Outro benefício inédito foi que as vias ativadas também suprimiram os mecanismos que medeiam a hipersensibilidade aos ácaros da poeira doméstica, prevenindo assim a asma alérgica.

Análises de como a proteção funciona revelaram o que Pulendran chama de sistema de duas barreiras, no qual uma barreira mucosa inicial limita a entrada de patógenos nos pulmões. "Então", diz ele, "essa vacinação mucosa prepara o sistema imunológico pulmonar, de modo que ele seja extraordinariamente rápido em desencadear a resposta imune específica para o vírus, eliminando os poucos vírus que conseguem ultrapassar a barreira inicial."