A SpaceX está perto de garantir uma faixa crucial de espectro necessária para transformar a empresa de foguetes, satélites e inteligência artificial de Elon Musk em uma “grande operadora de telefonia móvel”, abrindo caminho para um confronto com gigantes consolidadas do setor, como T-Mobile US, Verizon Communications e AT&T. O novo espectro, que a SpaceX está adquirindo da gestora de investimentos Grain Management LLC, permite que a empresa transmita sinal de telefonia móvel para dispositivos em ambientes internos por meio de sua rede Starlink, composta por mais de 11 mil satélites que fornecem tanto internet de banda larga quanto cobertura móvel.
Assim que receber a aprovação da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês), a empresa combinará seus serviços de conexão direta entre satélites e celulares com uma rede terrestre capaz de conectar dispositivos em qualquer lugar. As ações das principais operadoras de telecomunicações despencaram após o anúncio da SpaceX. No pregão de hoje em Nova York, os papéis da AT&T recuaram 9,81%, enquanto os da Verizon perderam 8,75%. A T-Mobile caiu 13,27%. A SpaceX avançou 1,25%. Mas construir um serviço de alcance nacional comparável ao das maiores operadoras de telecomunicações exigirá muito mais, incluindo o lançamento de um número maior de satélites, o desenvolvimento do foguete Starship e a expansão da infraestrutura terrestre para complementar o serviço baseado no espaço. Esse processo pode levar anos e exigir investimentos vultosos da empresa. Em uma publicação no X na quinta-feira, Musk afirmou que o espectro de baixa frequência é “a última peça fundamental do quebra-cabeça do espectro necessária para que a SpaceX ofereça cobertura telefônica completa nos Estados Unidos”. O negócio de internet via satélite da SpaceX já transmite dados diretamente para celulares, oferecendo serviço móvel em áreas sem cobertura das redes terrestres existentes. Atualmente, a empresa não possui infraestrutura terrestre própria para integrar à sua rede de satélites.
Em uma nota divulgada nesta sexta-feira, os analistas do Morgan Stanley Sean Diffley e William Tackett afirmaram que a SpaceX provavelmente precisará de locais para instalação de antenas e torres de telecomunicações a fim de construir uma rede terrestre competitiva. Construir e operar redes de alcance nacional exige bilhões de dólares em infraestrutura física, além do acesso a frequências de rádio escassas e regulamentadas pelo governo. Para acelerar esse processo, a SpaceX poderia firmar uma parceria com uma das grandes operadoras de telecomunicações para utilizar sua infraestrutura terrestre. No ano passado, Musk afirmou que não descartava a aquisição integral de uma operadora para apoiar os esforços da Starlink Mobile. “Essa aquisição de espectro representa um reforço do compromisso — ou da ameaça de compromisso — de seguir por conta própria, caso não encontrem uma operadora disposta a trabalhar com eles”, afirmou David Barden, analista da New Street Research. “É uma prova conclusiva de que pretendem usar seu balanço patrimonial e seus enormes recursos para travar uma guerra de máxima pressão contra as operadoras estabelecidas.” O negócio também pode ser um movimento estratégico destinado a pressionar as operadoras a se associarem à SpaceX, à medida que a empresa se aproxima da condição de concorrente direta, segundo os analistas Alexander Potter e Ben Johnson, da Piper Sandler. As ambições da SpaceX no mercado de telefonia móvel também dependem do sucesso de um componente fundamental: a Starship. O gigantesco foguete deverá se tornar a espinha dorsal de todo o futuro da SpaceX, lançando desde satélites aprimorados de banda larga da Starlink até futuros centros de processamento de dados em órbita voltados à inteligência artificial. O veículo também será responsável pelo lançamento dos satélites Starlink muito maiores, projetados especificamente para se conectar a smartphones. A Starship está em desenvolvimento há boa parte da última década, mas, em setembro, a SpaceX colocou o veículo em órbita pela primeira vez, quando ele transportou e liberou um lote de satélites Starlink aprimorados para banda larga. No entanto, o foguete apresentou problemas em alguns motores durante o voo, e ainda não está claro como isso afetará seus próximos lançamentos.
O Globo