SP-Arte cresce e quer transformar o Brasil em epicentro da arte latino-americana
Ao longo de duas décadas ocupando o Pavilhão da Bienal, em São Paulo, a SP-Arte conquistou confortavelmente o posto de maior feira de arte do País. Prestes a realizar sua 22ª edição, entre os dias 8 e 12 de abril, ela se debruça agora sobre novos desafios: transformar o Brasil em epicentro da arte latino-americana e fortalecer sua própria inserção no mercado internacional.
Esse movimento se revela em um aumento do número de galerias do exterior, que passam de 12 para 16, e um espaço maior para nossas vizinhas: metade delas tem origem em países da América Latina. Fazem parte desse conjunto desde velhas conhecidas, como a uruguaia Sur, participante desde a primeira edição, até estreantes, como a peruana Crisis, e outras de volta após um período de ausência, como a argentina Ruth Benzacar.
"O fato de essas galerias virem agora é um sinal de que o Brasil começa a se colocar como um hub para a América Latina", sugere Fernanda Feitosa, fundadora e diretora executiva da feira. Para ela, a concentração de esforços dá ainda mais fôlego a artistas em franca ascensão, como os argentinos Leandro Erlich e Jorge Macchi, já apresentados em São Paulo, respectivamente, por Luciana Brito e Luisa Strina, e que ganham o reforço da Benzacar, sua representante em Buenos Aires.
O momento é favorável também do ponto de vista institucional, com o foco do Masp, em 2026, em artistas dessa região - uma das exposições atualmente em cartaz no museu se debruça sobre a produção da peruana Sandra Gamarra, representada na SP-Arte pela Galeria Leme. Tudo isso, segundo Fernanda, não é exatamente uma novidade, mas um desdobramento de uma construção dos últimos anos. "Se a gente quer posicionar o mercado brasileiro como fértil para a atuação de artistas latinos, esse trabalho tem que ser constante."
Interrompido por conta da covid-19, o crescimento da presença internacional na feira tem impactado positivamente os negócios. Esta edição deve superar a de 2025 não apenas em número de colecionadores estrangeiros, vindos de países da Europa, Estados Unidos, Argentina, México e Chile, mas também de profissionais vinculados a instituições de arte. Pelos estandes, passarão nomes como Brinda Kumar, trazendo pela primeira vez o Metropolitan Museum of Art de Nova York; Jennifer Inacio, curadora do Pérez Art Museum, de Miami, uma das principais coleções de arte latina dos EUA; e Pablo Léon de la Barra, representando o Guggenheim, entre outros.
Para esse público, a feira funciona não apenas como espaço de descoberta de novos talentos em rota de valorização, mas de garimpo de obras de artistas renomados que voltam ao mercado. Algumas peças foram negociadas antes mesmo da abertura da feira, mas outras seguem disponíveis e à vista dos visitantes. Um raro mural de Alfredo Volpi e produções de Tarsila do Amaral e Lygia Pape estão entre as que devem atrair atenção.
A prospecção faz parte de um sistema que tem feito a roda do mercado de arte girar. Quadros, pinturas e desenhos foram o 8º item mais exportado pela capital paulista em 2025, segundo levantamento da SP Negócios, agência de promoção de investimentos e exportações do município. Somados a outros tipos de obras de arte, eles totalizaram US$ 174,8 milhões em comercialização no período.
O resultado, no entanto, significa uma queda de 27% em relação a 2024. O relatório aponta uma possível explicação: apesar de os Estados Unidos seguirem como principal destino, responsável por 41% de toda a exportação paulistana de arte no ano passado, esse volume recuou 37% no período - provável reflexo da oscilação das tarifas de importação impostas pelo governo americano.
Dos 180 expositores nesta edição da SP-Arte, 64 são do ramo do design, que comemora dez anos de sua entrada na feira. Para celebrar a data, uma programação especial foi pensada para o terceiro andar do pavilhão, com a inclusão do Design Now, nova seção dedicada a profissionais da cena independente. Ela reúne dez nomes com trabalhos nas mais diversas técnicas, conectados pela produção em pequena escala ao longo da última década.
De acordo com a curadora Livia Debbane, essa foi uma forma de superar a limitação de espaço para novos expositores sem abrir mão da renovação. "Queríamos apresentar um pouco do zeitgeist do design, mostrando caminhos diferentes", diz. A seleção inclui nomes como Lilian Malta, uma das poucas designers do país a manejar um tipo de porcelana chamado de bone china, e Érico Gondim, que produz a partir de restos de tubulações utilizadas em obras de saneamento básico.
O design ganha protagonismo ainda por meio da entrega de três prêmios e da exposição Existe Uma Árvore, dedicada ao papel da madeira brasileira na história do mobiliário nacional. Essa é a deixa para apresentar desde peças de caráter mais vintage, produzidas no século 20 a partir de madeiras nobres hoje em risco de extinção, a mobiliários contemporâneos criados com tábuas produzidas a partir de manejo sustentável.
"Nos anos 1950 e 1960, tivemos muitos estrangeiros no Brasil que trouxeram suas influências, mas trabalharam com os materiais daqui. Como a madeira era muito abundante e variada, ela se tornou muito importante para a própria formação do design moderno brasileiro", explica Livia, que destacou 16 peças de diferentes décadas, de nomes como Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Hugo França e Claudia Moreira Salles, entre outros.
A programação do terceiro andar se completa com a participação de museus, instituições culturais e do Palco SP-Arte, voltado a debates sobre arte e design. No segundo andar, o curador Marcello Dantas também coloca artistas representados pelas galerias da feira para conversar com expoentes dos mais diferentes campos de conhecimento, como o rabino Nilton Bonder, o escritor Leandro Karnal, a atriz Mariana Ximenes e a coreógrafa Lia Rodrigues.
Jovens artistas para ficar de olho
Santídio Pereira
Onde: Galeria Estação
Sua pesquisa investiga as possibilidades da xilogravura a partir de experimentos com a cor e as formas dos biomas do Piauí, seu estado natal.
Barbara Savannah
Onde: Lima Galeria
Natural da ilha do Marajó, a artista busca inspiração para suas pinturas a partir de elementos da cultura popular amazônica
Seba Calfuqueo
Onde: Galeria Marilia Razuk
Prestes a abrir uma individual, em outubro, no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, em Madri, esta artista chilena busca aproximações entre sua origem Mapuche e o pensamento ocidental em instalações, cerâmicas e performances
Fernanda Pompermayer
Onde: Luis Maluf
Mesclando diferentes suportes, como escultura, pintura e vídeo, a artista desenvolve criações orgânicas que se conectam com inquietações do seu íntimo.
Nomes consagrados em oportunidades únicas
Alfredo Volpi
Onde: Dan Galeria
Eternamente lembrado pelas suas bandeirinhas coloridas, o pintor modernista surge mais sóbrio, mas ainda intensamente geométrico, em um raro afresco, de grandes proporções, produzido em 1957 para a residência do arquiteto João Kon.
Tarsila do Amaral
Onde: Flexa
Com ecos de Abaporu, a pintura Terra (1943) pode ser conferida novamente no país após um giro, nos últimos dois anos, por exposições no Guggenheim e no Museu de Luxemburgo.
Artista: Beatriz Milhazes
Onde: Almeida & Dale
De volta ao mercado após ser leiloada pela Christies em 2020, a tela Fleur de la Passion, Maracujá (1995-1996) sintetiza a fusão de influências coloniais e indígenas próprias da obra da artista carioca.
Siron Franco
Onde: Pinakotheke
Presente na marcante exposição Tradição e Ruptura: Síntese de Arte e Cultura Brasileiras, de 1984, o tríptico A Queda do Anjo (1974) convida a explorar os espaços vazios dentro e fora da tela.
Serviço - SP-Arte
Onde: Pavilhão da Bienal (Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, portão 3, Parque Ibirapuera, São Paulo, SP)
Quando: Abertura dia 8/4 exclusiva para convidados; Visitação do público de 9 a 12/4 de 2026
Quanto: R$ 60 (meia) e R$ 120 (inteira)
