SP-Arte abre sua 22ª edição com a maior presença de galerias internacionais desde a pandemia
Aberta no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera (na quarta para convidados, e, de quinta até domingo, para o público geral) a SP-Arte chega à 22ª edição buscando o equilíbrio entre a promoção da arte e dos agentes do mercado nacional e a presença de representações internacionais, que se destacavam na feira na década passada.
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Este ano, 16 galerias estrangeiras estão entre as cerca de cem de arte presentes (o setor de design, que completa dez anos, conta com 64 espaços), a exemplo da mexicana RGR, a italiana Orma, as argentinas Pasto e Ruth Benzacar, a boliviana Salar, as portuguesas Foco e Kubik, a espanhola Baró e a inglesa Lamb. De acordo com Fernanda Feitosa, a fundadora e diretora da SP-Arte, desde a pandemia é a edição com a maior presença internacional.
— Há um movimento interessante das galerias latinas, de trabalhos conjuntos, de buscarem se aproximar. Houve um boom da América Latina nos anos 2010, depois vieram outros ciclos, com o mercado olhando para a Ásia e o Oriente Médio. Agora vemos essa retomada — observa Fernanda, para quem o Brasil tem se destacado. — O Brasil voltou a a despertar interesse como há uns 10 anos. A gente vê pelo número de colecionadores, curadores e representantes de instituições internacionais que vêm à feira. Apesar de nossas questões internas, somos vistos como um país estável em relação ao resto do mundo, ainda mais num momento de guerras.
Visão geral da 22ª SP-Arte
Edilson Dantas
Dentre os visitantes internacionais da feira, está a curadora independente americana Auttrianna Ward, convidada pelo Projeto Latitude, realizado pela da ABACT (Associação Brasileira de Arte Contemporânea) em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Pela primeira vez na feira mas com uma longa relação com o Brasil, ela já de e trabalhos como nomes como Tadáskía, Tiago Sant'Ana, Aline Motta e Antonio Tarsis.
—Vim ao Brasil a primeira vez em 2010, para São Paulo e Salvador. Estava estudando o tráfico transatlântico e fazendo cursos de história da arte nos EUA, mas só falavam sobre a Europa. Quando cheguei aqui, vi que as representações se pareciam comigo, com a minha família. Isso me ajudou a enxergar as conexões entre a cultura afro-americana e afro-brasileira, dominicana, porto-riquenha, a cultura negra da Venezuela — conta Auttrianna. — O Brasil sempre esteve na minha pesquisa porque foi aqui que desenvolvi minha paixão pela arte contemporânea. E quando vejo pessoas dizendo que o Brasil tem uma cena artística incrível, penso: "Sim, sempre teve". Não é sobre validação internacional, os artistas vão produzir como sempre produziram, mas é importante que tenham esse reconhecimento.
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Exemplo da produção que conquista espaço em instituições e eventos internacionais, Ayrson Heráclito, um dos três brasileiros selecionados para a coletiva principal da 61ª Bienal de Veneza, em maio, trouxe à galeria soteropolitana Paulo Darzé obras da série "Juntó", que vai apresentar na mostra italiana.
— São obras que falam de religiosidade, mas indo além, com seus sistemas filosóficos, suas compreensões estéticas, sobretudo num momento de mundo conflagrado — destaca Heráclito. — É uma visão afro-atlântica, num recorte da Bienal em que a arte é vista também em seu caráter terapêutico, de cura, proteção e transformação.
Ayrson Heráclito na galeria Paulo Darzé
Edilson Dantas
Sócio da milanesa Orma, que completou dois anos e fez sua estreia na feira, Andrea Gallotti apresentou alguns artistas brasileiros com que trabalha, como Daniel Lannes e Luciano Maia.
— Viemos com uma seleção de brasileiros e italianos, que é algo que fazemos na galeria, já temos essa conexão com o país. O mercado brasileiro consome bastante a própria arte, o que é muito positivo. O nosso desafio é apresentar novos artistas internacionais, e criar uma abertura — diz Gallotti.
Bodas de ouro e prata
O evento também celebra as diferentes gerações de galeristas que desbravaram o mercado nacional, anos antes de a própria feira sair do papel. Nara Roesler, cuja galeria completou 50 anos de atividades, e Márcia Fortes, celebrando os 25 anos da Fortes D’Aloia & Gabriel, estão entre os nomes selecionados para os debates do Palco SP-Arte.
— Quando comecei há 50 anos, no Recife, não existia mercado estruturado no país. Fizemos parte desse crescimento, da internacionalização de muitos artistas, que colaboramos também quando abrimos em Nova York (em 2016) — comenta Nara, que promove quatro coletivas para celebrar o marco, a primeira já em cartaz na sede paulistana, com curadoria de Moacir dos Anjos.
Na Fortes D’Aloia & Gabriel (um dos espaços da feira que recebeu a visita do ministro da Economia e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, na quarta), os 25 anos são celebrados com uma seleção das diferentes gerações que passaram pela galeria.
— Tem artistas acompanhamos nesses anos todos, como o (Luiz) Zerbini, Leda Catunda, Iran do Espírito Santo, Ernesto Neto, Valeska Soares, com a turma que chegou com muita força depois, a Marcia Falcão, a Yuli Yamagata, a Erika Verzutti — elenca Márcia Fortes.
Outra galeria presente desde a primeira edição da feira e que completará 30 anos em 2028, a carioca Anita Schwartz contou, pela primeira vez, com um curador em seu espaço, Ulisses Carrilho. A seleção partiu de obras de Cristina Salgado — que ocupa, desde o mês passado, o Octógono da Pinacoteca de São Paulo — em diálogo com obras de Lenora de Barros, Waltercio Caldas, Carlos Zilio, Wanda Pimentel, Farnese de Andrade, entre outros.
— Fiquei feliz de rastrear uma escultura da Cristina em madeira de 1987, da coleção do Franco Terranova, e a partir dela definir critérios para chegar a outras obras do estande — explica Carrilho.
A também carioca Flexa tem como destaque a tela "Terra" (1943), de Tarsila do Amaral, avaliada em R$ 19 milhões e uma das vedetes da feira. A galeria, que inaugura na semana que vem a coletiva "Morar na cor", no Rio, apresenta a obra em diálogo com trabalhos de artistas de diferentes origens e gerações, como Lucio Fontana, Abdias Nascimento, Rubens Valentim, Lygia Pape, Cildo Meireles e Adriana Varejão.
— É uma oportunidade rara de ver essa Tarsila, que está com a mesma família no Rio há quatro décadas, fora seu empréstimo para retrospectivas dela, no Guggenheim de Bilbao e no Luxembourg, em Paris — ressalta a curadora Luisa Duarte, sócia da Flexa. — Mesmo sendo da década de 1940, remonta a certas questões da década de 1920, um certo surrealismo que se referencia na Antropofagia.
* O repórter viajou a convite da SP-Arte
