Soul II Soul, GreenTea Peng, Fernanda Abreu e Gaby Amarantos: confira a programação do Queremos!

 

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Um capítulo da história da música pop mundial será desfolhado este fim de semana no Festival Queremos!, com a apresentação carioca do grupo britânico Soul II Soul (sábado, no Vivo Rio).

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Quem quer que tenha passado por uma pista de dança entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990 certamente não escapou de músicas como “Keep on moving”, “Back to life” e “Get a life” — hits de “Club Classics Vol. I” (1989) e “Vol. II: 1990 — A new decade”, álbuns que mudaram o panorama pop com uma elegante mistura de soul, house music, dub reggae, jazz e hip-hop. É uma história que o londrino Trevor Beresford Romeo, apelidado de Jazzie B, aos 63 anos, não se cansa de contar.

— E a coisa ainda está acontecendo! — anima-se, por Zoom, o DJ, produtor e líder do Soul II Soul, de sua casa em Londres — Naquela época, tínhamos a ideia de que aquilo que fazíamos naquele pequeno espaço (o Africa Centre London, onde cabiam cerca de 300 pessoas) era o nosso mundo, e que todos os outros entrariam nesse mundo. Foi uma época incrível para se estar no mundo das artes, entre 1988 e 1989, quando surgiu essa abertura e as pessoas abraçaram nossa mensagem, nossa melodia e nossa atmosfera.

Para Jazzie B, a receita do Soul II Soul (um coletivo multicultural e multirracial que ainda revelou nomes como os da cantora Caron Wheeler e do produtor Nellee Hopper) não tem muito segredo. Envolve a cultura dos sound systems jamaicanos em Londres, uma juventude passada nos anos 1970 (“na qual uma parte fundamental da música era a melodia”), a evolução tecnológica, a derrocada do sistema de classes na Inglaterra...

— E você também precisa levar em consideração que estávamos na vitrine do mundo. Nascido e criado em Londres! — gaba-se. — A minha experiência foi de todos se sentirem elevados e criativos. Havia a vida noturna, os diferentes espectros do glam rock, a atmosfera do punk, o hip-hop, a Londres com sua energia grunge, a juventude com uma disposição inédita para as artes visuais, o hip-hop e o jazz, a imersão da tecnologia se tornando uma parte realmente dominante da criatividade... Talvez, pela primeira vez, uma geração inteira pôde pegar suas ideias e literalmente apertar um botão, com resultados incríveis que nunca haviam sido realmente concebidos.

Britânico com ascendência caribenha, Jazzie B cresceu no meio de um caldeirão cultural em que cabia de tudo: do Elton John de “Bennie & The Jets” e do David Bowie de “Ziggy Stardust” a Miles Davis, Tom Jones, Engelbert Humperdinck “e até alguns dos grandes artistas brasileiros”. Dos quais preferiu não citar nomes.

— Provavelmente comprei mais discos de vinil brasileiros por causa das capas, que não tinham o nome do músico. E estou falando daquela época, lá pelos anos 1970 — indica ele, que costuma se exercitar como DJ num programa de rádio semanal de quatro horas. — Tenho uma sede constante por inspiração, por ser influenciado pelos que estão surgindo, como Shy One, essa cantora britânica cuja música não é convencional, mas tem um vasto panorama de ideias. É lindo ver que essa vibe ainda existe, que a criatividade está presente em todos os lugares. Estou ansioso para ir ao Brasil e descobrir novos talentos, ou até mesmo talentos antigos que ainda não conheço.

A cantora Fernanda Abreu

Leo Martins

Um desses nomes que Jazzie B pretende conhecer no Brasil é o de Fernanda Abreu, que não somente contou com a produção de um dos integrantes do Soul II Soul (o tecladista Will Mowatt) em faixas de seu clássico álbum “Da lata” (1995), como ainda o mixou no estúdio londrino do coletivo.

Envolvida, ano passado, com as comemorações de 30 anos do disco (dos hits “Garota sangue bom” e “Veneno da lata”), feitas com uma reedição em vinil, a publicação de um livro e a realização de um documentário, Fernanda adiava a realização de um show do “Da lata”. Mas, quando soube que o Queremos! ia trazer o Soul II Soul, correu com os ensaios para fazer a estreia no festival, que no sábado ainda terá Gaby Amarantos, Céu, Melly, o projeto Urban Jazz, o Baile! de Jonathan Ferr e a canadense Jayda G. Na terça, o Queremos! volta a reunir Fernanda e Soul II Soul em São Paulo, no Tokyo Marine Hall.

— Fiquei muito impressionada quando ouvi aqui “Keep on moving” da primeira vez, em 1989. Tanto que “Você para mim”, do meu primeiro disco solo (“SLA Radical Dance Disco Club”, de 1990) é nitidamente uma referência a essa música — entrega a cantora. — Até então, tudo que eu conhecia de black music era americano. Uns mais soul, outros mais funk, outros até um pouquinho mais disco e tal, mas sempre uma sonoridade americana. Quando ouvi o Soul II Soul, vi, primeiro, que não tinha guitarra. Mas tinha a programação de bateria eletrônica TR-808 com um som de bumbo grave e macio, e aquela mistura de cordas com aquele baixo meio reggae e toda uma melodia soul. Achei revolucionário.

No Rio, a semana de Queremos! Festival começa sexta-feira à noite, no Circo Voador, com a cantora britânica Greentea Peng, de 31 anos, outro fruto do caldeirão cultural de Londres, combinando neo-soul, dub, jazz e psicodelia. É a primeira vez no Brasil dessa artista, que se preparou ouvindo em Lisboa (cidade onde vive atualmente) uma de suas mais recentes descobertas: João Gilberto.

— Sou extremamente mestiça, não sou de um lugar só. Sou muito eclética, até mesmo em termos de origem (seu pai é árabe; sua mãe, africana). Então, acho que é natural que minha música seja um pouco influenciada por isso. Porque também faz parte da minha personalidade. Não sou nem daqui nem de lá — diz Greentea, que considera ter tido a sorte de “não ter entrado nesse jogo da música com muitas expectativas ou desejos”.

— Tem sido um belo processo de desvendamento e expressão, e o belo resultado disso é que pessoas ao redor do mundo se identificaram com essa jornada — prossegue Greentea Peng, que este ano vai lançar feats com os DJs Honey Dijon e Goldie. — Nunca pensei em ter um hit, nem quis ser uma estrela pop. Então, não sinto pressão.

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Fundadores e diretor do Queremos! (que começou como uma plataforma de financiamento coletivo para trazer shows internacionais ao Brasil), Pedro Seiler e Felipe Continentino comemoram 16 anos de empreitada juntos e sete de festival.

— A gente sempre buscou trazer o que há de mais novo, de mais relevante, o que nunca veio para o Brasil, ou para o Rio. Seja nesta primeira vez da Greentea Peng no país, bem no momento em que ela está acontecendo, ou no lançamento da turnê da Fernanda Abreu, num acontecimento como o show do Soul II Soul ou no show do “Rock Doido”, da Gaby Amarantos, que é talvez o grande disco do ano passado e ainda não tinha sido mostrado no Rio. Então, acredito que este ano a gente conseguiu imprimir no festival o que a gente se propõe como empresa — explica Pedro.

Este ano, o Queremos! pulverizou o festival no espaço e no tempo (semana passada, por exemplo, ele abriu os trabalhos apresentando shows da violonista Gabriele Leite e dos cantores Zeca Veloso, Pedro Mizutani e Fitti no Teatro Carlos Gomes).

— Imagina se a gente estivesse fazendo esse festival na Marina da Glória, num dia só, com todos esses artistas... A Gabriele Leite teria tocado meio-dia para 50 pessoas, num lugar que não ia dar para ouvir o violão — defende Felipe.