'Sonhos de trem', com indicação de brasileiro ao Oscar, mostra mundo em constante transformação; leia crítica
"Sonhos de Trem" ("Train Dreams" no original), fora tímidas exibições em cinemas nos EUA, passou batido para a Netflix. Na direção, Clint Benley, também co-roteirsta com Greg Kwedar, a partir de livro de Denis Johnson. E o fenômeno aconteceu: quatro indicações ao Oscar – melhor filme, roteiro adaptado, canção original (Nick Cave) e fotografia do paulistano Adolpho Veloso, primeiro brasileiro indicado ao Oscar na categoria (Cesar Charlone, indicado por "Cidade de Deus", é uruguaio).
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Tudo começa em 1917. Uma narração em off situa , no tom exato, a trajetória de Robert (o ator australiano Joel Edgerton), um quase Zé Ninguém, órfão desde sempre, que sobrevive como madeireiro na construção de estradas de ferro em cenários deslumbrantes, mas já ameaçados pela ação dos homens. Em ambiente masculino, esse personagem introvertido pela própria natureza, estabelece trocas eventuais com parceiros. A violência se faz presente – com perseguição e morte de imigrantes chineses e negros.
O encontro com a doce e solidária Gladys (Felicity Jones) oferece finalmente um sentido de vida a Robert. A química do casal é admirável. Vida que segue com amor em uma cabana, e a chegada da filha. A felicidade doméstica, no entanto, é entrecortada por longas viagens de trabalho. O provedor do lar sofre com a distância, até a eclosão de uma tragédia irreversível.
A alternância de cenários deslumbrantes, com tomadas de tirar o fôlego, e o calor de ambientes domésticos iluminados à luz de velas, constituem um mundo em constante transformação. O encontro com uma calorosa agente florestal poderia mudar o percurso de Robert, mas o passado o imobiliza através de visões ou quem sabe, alucinações. Finalmente, surge a possibilidade de uma longa viagem de trem, rumo ao futuro, que exibe, pela TV, o homem no espaço. A bordo de um biplano, entre acrobacias e voltas no ar, Robert, em pura epifania revê sua vida.
Pela primeira vez, segundo o narrador, o personagem próximo dos 80 anos, se sentiu “conectado a tudo”. E sorri.
