Solução para reduzir emissões na agropecuária passa por mudanças na alimentação dos animais
Diante da grande quantidade de metano emitida pela pecuária brasileira, que contribui para posicionar o país como o quinto maior emissor do planeta, alternativas para conter esse cenário se fazem cada vez mais urgentes. No Fórum Freio de Emergência Climática, promovido pelo Global Methane Hub (GMH) com curadoria da ONG Uma Gota no Oceano, que discutiu a agropecuária no centro da solução sustentável na Rio Nature & Climate Week, na última semana, o ecologista Juan Andrés Cardoso, do Centro Internacional de Agricultura Tropical, baseado em Cali, na Colômbia, destacou os anti-metanogênicos como alternativas rentáveis para conter esse processo e reverter esse cenário-chave da agropecuária brasileira.
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Essa sugestão consiste em substâncias — sintéticas ou naturais — que reduzem a produção de metano na ruminação do gado. Segundo Cardoso, em países como o Brasil, que possuem uma ampla produção de carne bovina, “estes compostos já estão presentes nas forragens”, ou seja, entre os vegetais cultivados para alimentar os animais.
O especialista esclareceu que “uma das formas mais práticas de reduzir o metano em criações de gado é, simplesmente, melhorar as dietas dos animais”. Segundo ele, os anti-metanogênicos são capazes de “melhorar a dieta [desses animais], aumentar sua digestibilidade, fazer o animal ganhar mais peso e, ao mesmo tempo, reduzir a produção do metano”. Um bom exemplo, destaca Cardoso, é a leucaena, uma árvore tropical da família das leguminosas que pode ser usada como forragem.
— Vários estudos mostram que quando se inclui a leucaena na dieta dos animais, em uma faixa de 30% a 35%, pode-se reduzir emissões de metano em torno de 14% a 20%, o que é muito grande — ressalta.
O problema específico com a leucaena, no entanto, é que, no Brasil, ela é considerada uma planta invasora, portanto inadequada para o cultivo uma vez que pode acarretar outros problemas à biodiversidade local.
— Mas o fato é que há outras alternativas, que incluem outras leguminosas, que podem ser utilizadas e são plantas nativas do Brasil.
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Além de plantas que cumprem naturalmente esse papel, a indústria também tem investido em compostos classificados como Aditivos Alimentares para Mitigação de Metano (AMFA). Nesta alternativa sintética, essas substâncias específicas — como os nitratos, taninos e óleos essenciais — podem ser adicionadas à dieta desses animais para modificar a microbiota do rúmen, primeiro compartimento do estômago dos ruminantes, e inibir a produção de metano.
Mediador do painel, o jornalista Marcelo Lins pontuou ainda que essas são mudanças essenciais a serem implementadas também na cultura dos produtores, mas que exigem uma transformação de mentalidade entre aqueles que cuidam das cadeias produtivas da agropecuária.
— O gado parece algo já dado, sempre se fez assim. Por que mudar o tipo de ração, o tipo de alimentação? Por que é necessário mudar? — refletiu Lins. — Porque vale a pena fazer isso. E isso é simples de entender se a gente pensar na nossa alimentação. Enquanto seres humanos, há coisas que são mais facilmente ingeríveis, que vão dar mais ou menos problemas, são mais leves, proporcionam um desempenho melhor, seja intelectual ou físico.
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Para Guilherme Campbell, coordenador de projetos do Instituto Akorde, é necessário apostar em “honestidade intelectual” para discutir a questão do metano por meio de um debate qualificado no país.
— A gente tem que ter um compromisso ético e moral muito importante aqui de entender que o setor do agro pode ser, sim, solução, mas ele não deixa de ser problema — salientou. — É preciso uma honestidade intelectual, a gente se colocar em cada cadeira onde a gente pode, ao mesmo tempo, elogiar as práticas que são implementadas — e já existem diversas no Brasil —, mas também se colocar na posição de criticar.
