Sofre de 'boreout'? Conheça a síndrome que traz apatia e falta de propósito no trabalho para a geração Z
Pouco tempo após o nascimento do filho, a estilista Thaísa Goulart, de 33 anos, acreditou ter encontrado uma ótima oportunidade para dar uma guinada na carreira. Foi atraída para uma grande empresa têxtil, com salários e benefícios maiores do que na anterior. “No começo foi ótimo, entrei em projetos bacanas da área fitness, recebia feedbacks positivos. Mas, após um tempo, fui ficando para escanteio”, relembra. A empolgação com o novo desafio, em poucos meses, transformou-se em tédio e numa rotina sem motivação.
“Conversar com minhas gestoras se tornou algo impossível. Nunca estavam disponíveis, e eu passava o dia procurando o que fazer. Batia meu ponto, ligava o computador, tentava fazer pesquisas, mas me sentia inútil, sem direcionamento”, conta Thaísa. A situação se agravou e afetou até mesmo a relação com o filho, na época com 2 anos. “Antes de ir embora, eu sentava no carro e chorava muito. Chegava em casa estressada, triste, e gritava com ele”, relembra, emocionada. Quase um ano depois, pediu demissão. “Amo o que faço e não havia sentido em continuar ali. Sair daquela empresa foi uma das melhores sensações que tive. Atualmente, trabalho muito mais motivada”.
Ao contrário do burnout, em que há uma exaustão extrema e a sensação de esgotamento físico e mental pelo excesso de trabalho, o boreout é o fenômeno oposto: o trabalhador convive com a apatia, a falta de propósito em razão de tarefas repetitivas, a desmotivação e a dificuldade de se engajar. “É uma frustração silenciosa, uma insatisfação. A pessoa pensa: ‘Tenho capacidade, mas não estou sendo utilizado, ou não estou produzindo o suficiente’”, explica a psicóloga paulista Rejane Sbrissa. “Isso gera uma dissonância entre identidade e função, afetando o senso de valor pessoal. Em alguns casos, pode evoluir para quadros semelhantes a depressão ou ansiedade”.
Embora o termo tenha sido cunhado lá em 2007 pelos consultores suíços Philippe Rothlin e Peter Werder, no livro “Diagnose Boreout” (sem publicação no Brasil), a pauta ganhou força nos últimos tempos, explica Marina Roale, pesquisadora e sócia do Grupo Consumoteca, consultoria especializada na América Latina. “Isso surge após muito se falar sobre burnout, entendendo diagnósticos e trazendo regulações para o mercado de trabalho. O boreout está atrelado a uma falta de sentido ao que se faz no dia a dia”, pontua ela. Superestimuladas por telas na rotina e com o avanço feroz da tecnologia e ferramentas de inteligência artificial, muitas pessoas se sentem apenas um parafuso de uma engrenagem maior, continua Marina. “E há uma relação com a autoestima. Se seu trabalho não faz diferença no todo, você se sente apenas mais um”.
Há quatro anos trabalhando na área administrativa de uma grande empresa de alimentos e bebidas, Sílvia (nome fictício), de 29 anos, não vê perspectiva de crescimento. Embora se considere feliz em outras áreas da vida, empurra o trabalho “com a barriga” enquanto procura novas oportunidades. Por isso, leva o tema, semanalmente, para a terapia. “Tenho uma boa relação com o meu chefe, mas o plano de carreira me parece bastante engessado, sinto que não há espaço para me desenvolver como gostaria”, explica. “Tenho dois filhos pequenos e não posso abrir mão de trabalhar. É um dia a dia com um tédio constante, uma tristeza, como se algo estivesse errado comigo”, desabafa.
As experiências também podem ser diferentes de acordo com a geração. Segundo Marina Roale, o boreout é o espírito do tempo travestido de sintoma, e aparece no ponto exato em que duas gerações se desencontram: “Os millennials (nascidos entre 1980 e 1995), que apostaram todas as suas fichas no trabalho como fonte de identidade e adoeceram nessa promessa, e a Z (nascidos entre 1995 e 2010), que, no cenário de um mundo fragmentado e com gestores sobrecarregados, não consegue mais investir o entusiasmo que antes era quase compulsório na juventude”, analisa.
Ao buscar soluções para resolver o problema, é preciso tornar a questão visível para si e para o gestor: “Aposte no diálogo estratégico. Ao invés de reclamar, apresente soluções. Algo como: ‘Tenho capacidade para contribuir no projeto X. Como podemos viabilizar isso?’”, recomenda Mari Clei Araújo, mentora de carreira e liderança. Outra dica, diz a profissional, é não esperar que empresa reacenda o seu brilho. “Busque projetos paralelos, conecte-se com pessoas de outras áreas e, principalmente, valide suas competências fora do ambiente atual. Em muitos casos, o problema não é falta de talento, mas estar no lugar errado”, finaliza.
