Parabéns, presidente. Às vésperas de completar 81 anos, o senhor conquistou o quarto mandato, numa virada sobre um adversário que saiu na frente no primeiro turno.
Do pau de arara ao Planalto, pelo chão da fábrica, pelas derrotas e pela prisão, sua trajetória é de quem caiu e se levantou muitas vezes. Não é biografia, é resistência.
A urna que deu a vitória deu recados. O primeiro é que o país saiu dela dividido ao meio, e uma parte da favela que sempre esteve com o senhor pensou duas vezes.
A nova classe C, que foi incluída pelas políticas públicas dos governos progressistas, não quer só ser atendida, quer ser dona. É o motoboy, a dona do salão, o menino que faz beat no quarto, a mãe que abriu uma MEI de marmita.
O favelado quer sonhar, e o Estado precisa ser ferramenta desse sonho, com crédito, internet e oportunidade de negócio, e não só cadastro. Quem empreende na favela não pede esmola, pede ferramenta.
O segundo recado vem da segurança. A favela vive entre o crime que cobra taxa e a polícia que entra atirando, e nenhum dos dois lados da polarização deu conta disso.
Está na hora de um grande plano nacional de segurança pública construído com estados e municípios, tirando o tema da gritaria e colocando na mesa governadores, prefeitos, polícias e quem mora onde a bala perdida tem CEP. Segurança não pode mais ser assunto que um lado empurra para o outro enquanto a favela enterra seus filhos.
O terceiro é que está na hora de renovar o jeito de governar. Esta eleição comprovou a capacidade de mobilização de um campo comprometido com a democracia.
Diante de um Congresso polarizado e com forte presença da extrema direita, essa força precisa virar participação permanente, e não só voto de quatro em quatro anos. Isso pede renovação política, com novas inteligências, novas colaborações e quadros que venham de todas as regiões, não só do Sudeste, gente capaz de atualizar o repertório de políticas públicas para o Brasil de hoje.
Pede, sobretudo, inovar a participação popular. A juventude, os novos movimentos e as lideranças que fazem política no celular e na quebrada precisam encontrar canais reais de diálogo com o governo, inclusive no meio digital, onde hoje se forma a opinião do país.
Quem garantiu este quarto mandato foi a sociedade organizada, para além dos simpatizantes de sempre. E ela não deu só a chance de governar.
Quer participar, decidir, elaborar e colaborar com as políticas, e não ser chamada apenas nas emergências eleitorais. A favela não quer ser chamada só para ser ouvida, nem só na eleição.
A favela faz política todo dia. E o senhor, que veio de baixo, sabe bem que nós queremos autonomia, liberdade e prosperidade, com o Estado como parceiro.
As pessoas têm suas próprias agendas, e o Estado precisa participar delas e ouvi-las de verdade. Só assim a gente constrói consenso e pacifica o país.
O senhor fez História, presidente, de fato. Agora tem quatro anos para decidir como ela termina.
O Globo