Sobrecarregado e com necrotérios improvisados após enchentes, Nepal realiza enterros em massa em floresta - QTU Questões do Universo

Sobrecarregado e com necrotérios improvisados após enchentes, Nepal realiza enterros em massa em floresta

Fonte: Bandeira da fonte

Cinco dias após uma furiosa enxurrada atravessar as passagens montanhosas do Nepal, autoridades da cidade de Bharatpur, a mais de 160 quilômetros de onde as enchentes atingiram inicialmente, transportaram centenas de corpos para um enterro em massa em uma floresta local.
Sem capacidade para preservar os corpos que chegavam às suas margens, a decisão foi tomada apesar da indignação de familiares.

Contexto: Nepal começa enterros após tragédia que já deixa mais de 900 mortos e 4,7 mil desaparecidos
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Na região, parentes chegavam após longas viagens procurando qualquer coisa que pudesse identificar seus entes queridos entre as centenas de corpos mutilados.
Em um salão na cidade, homens e mulheres encaravam uma pequena televisão, assistindo em completo silêncio a uma apresentação de fotos dos restos mortais recuperados.
Ao lado, outro salão do governo, transformado em necrotério improvisado, abrigava restos mortais de 270 pessoas cujas fotos apareciam naquela tela.
Quase todas permaneciam sem identificação.

No local do enterro, forças de segurança usando equipamentos de proteção retiravam os corpos, um a um, e os colocavam em macas, enquanto câmeras registravam cada etapa.
Nas proximidades, fileiras de placas metálicas numeradas, fincadas em recipientes preenchidos com concreto — os marcadores de cada sepultura — aguardavam.
A questão é delicada no Nepal, uma nação predominantemente hindu onde os mortos são tradicionalmente cremados.
Placas de aço com números de identificação em local de enterro em massa na região florestal de Devghat, em Bharatpur, no Nepal, em 30 de agosto de 2026
Atul Loke/The New York Times
Ao mesmo tempo, apenas uma fração dos desaparecidos está sendo encontrada, o que evidencia uma realidade sombria: o número de mortos provavelmente continuará aumentando.
Segundo autoridades, pelo menos 919 pessoas morreram no Nepal e na China, e outras 4,7 mil estão desaparecidas, incluindo turistas, peregrinos e trabalhadores.
As esperanças de encontrá-los com vida são menores a cada dia, já que as primeiras 72 horas após um desastre são geralmente consideradas cruciais para uma operação de resgate.

Drones térmicos
A devastadora enchente atingiu o norte do Nepal e o Tibete na última quarta-feira, depois que parte de uma geleira se desprendeu de uma encosta montanhosa.
A queda provocou uma força sísmica tão grande que as autoridades inicialmente acreditaram se tratar de um terremoto.
A enorme parede de água e lama que se formou arrastou milhares de pessoas e destruiu cidades inteiras.
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A maior parte dos esforços de resgate em andamento está concentrada nos túneis de vários grandes projetos de usinas hidrelétricas em Rasuwa, uma das áreas do Nepal que sofreu alguns dos danos mais precoces e intensos, e em Nuwakot, logo abaixo do curso do rio.
Até a tarde de domingo, com o apoio de equipes indianas, o Exército conseguiu encontrar uma abertura para um dos túneis soterrados, disse o general Raja Ram Basnet, porta-voz das Forças Armadas.
Um segundo túnel se mostrou mais difícil de localizar uma abertura, afirmou.
— O Exército nepalês está usando drones térmicos para procurar sinais de vida.
Mas, até agora, não houve nenhuma indicação — disse.

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A força da enxurrada foi tamanha que quase uma dúzia de corpos foi arrastada por centenas de quilômetros e foi encontrada na Índia.

Necrotérios improvisados
Quando os restos mortais começaram a chegar às margens de Chitwan, dezenas de quilômetros rio abaixo de onde as enchentes começaram, as autoridades ficaram imediatamente sobrecarregadas.
O Nepal é um país profundamente pobre, com infraestrutura limitada.
Os necrotérios de Chitwan têm capacidade para armazenar pouco mais de 30 corpos, disse o chefe de polícia Rameshwor Poudel.

Sem boas alternativas, as autoridades distritais recorreram ao salão do governo em Bharatpur.
Como o local tinha apenas um aparelho de ar-condicionado, elas tentaram obter gelo seco.
Montaram um balcão de atendimento e um salão para visitantes.
E fotografaram os restos mortais para que os familiares pudessem identificar seus desaparecidos.

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Mas os corpos haviam permanecido na água por muito tempo, e o calor das monções não ajudou.
Os congeladores que o ministro das Relações Exteriores havia solicitado a seus homólogos não chegaram rapidamente.
Apenas cerca de uma dúzia corpos foi identificada e entregue às famílias para o enterro, enquanto mais restos mortais chegavam.

— Continuamos encontrando de 15 a 20 novos corpos todos os dias — disse Anil Thapa, policial que ajudava no necrotério improvisado.
— Isso vai continuar por meses.

Amostras de DNA
No sábado, as autoridades distritais anunciaram que começariam a enterrar os restos mortais após um processo completo de documentação, que inclui tirar fotografias, registrar marcas distintivas ou peças de roupa encontradas nos corpos e coletar amostras de DNA.
Em uma clareira de uma floresta exuberante, a cerca de 10 minutos de carro dali, eles enterraram 93 corpos no fim de sábado e outros 100 no dia seguinte.

Equipes de emergência transportam corpos de vítimas de enchentes repentinas para um local de enterro em massa em Bharatpur, no Nepal, em 30 de agosto de 2026
Atul Loke/The New York Times
Durante as horas finais do enterro em massa, na noite de domingo, Biresh Kumar Sah, de 17 anos, chegou ao necrotério improvisado da cidade depois de uma viagem de ônibus de oito horas.
Ele estudava na capital nepalesa quando soube pela primeira vez que a enchente havia atingido sua cidade natal, Siraha.
Seu pai, professor de matemática, e seu irmão mais novo, que estudava na mesma escola, estavam desaparecidos.

— No primeiro dia, tentei ignorar.
Escondi a informação de todo mundo.
Eu ainda queria ter esperança — disse, acrescentando que publicou que seu pai estava desaparecido um dia depois.
— Um colega dele entrou em contato e me disse que tinha visto meu pai e meu irmão sendo arrastados pela enchente.
Eu sei que eles se foram.
Mas tenho esperança.