Sob pressão russa, candidato argentino ameniza críticas à ONU, cita Brics e afaga os EUA - QTU Questões do Universo

Sob pressão russa, candidato argentino ameniza críticas à ONU, cita Brics e afaga os EUA

Fonte: Bandeira da fonte

Criticado pela Rússia, o argentino Rafael Grossi, atual diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e candidato à vaga de secretário-geral da ONU, adotou tom mais ameno ao falar do órgão multilateral em Washington esta semana, mas afagou os Estados Unidos, em um novo aceno em busca do apoio de Donald Trump na disputa.

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Em encontro promovido ontem pelo Stimson Center e pelo Tony Blair Institute for Global Change em Washington, Grossi elogiou a atuação da ONU, seus funcionários e agências especializadas – a própria AIEA faz parte do sistema ONU –, mas disse também que não é possível, atualmente, encontrar a ONU onde ela deveria estar.

"Precisamos ter a coragem de encarar a situação", afirmou.
"Se analisamos o mapa dos conflitos mundiais, constatamos que, infelizmente, há um denominador comum: a ausência da ONU na resolução dos conflitos mais urgentes", disse, citando como exemplo a guerra entre Ucrânia e Rússia na Europa, os conflitos no Oriente Médio e a guerra civil no Sudão, na África.
"Não vemos a ONU lá", afirmou.

Isso não se deve, segundo ele, à falta de vontade do secretário-geral da ONU, mas a "uma série de fatores" que têm convergido para impedir que isso aconteça, disse.
“A realidade que temos é uma organização que está sendo questionada, desafiada", afirmou.

Como mostrou o Valor, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse que Moscou ficou surpresa ao ler as declarações feitas recentemente por Grossi dizendo que a ONU teria “perdido sua relevância” e estava em uma “morte lenta”.

A mensagem de Moscou, em um tom acima do comum para a diplomacia, pode dificultar a candidatura de Grossi porque os candidatos precisam ter nove votos favoráveis entre os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU e nenhum voto contrário dos cinco membros permanentes, grupo do qual a Rússia faz parte, junto com Estados Unidos, China, França e Reino Unido.

Apesar das críticas russas, Grossi conseguiu manter a terceira posição na segunda votação informal realizada pelo Conselho, na última sexta-feira (21).
Segundo o site PassBlue, especializado na cobertura de ONU, Grossi manteve os 7 apoios, como na rodada de seleção do fim de julho, mas as sinalizações de desencorajamento passaram de 2 para 6.
Dois membros não opinaram – em julho, eram seis.

Grossi tem o apoio de seu país de origem, a Argentina, e a simpatia dos Estados Unidos, o que também ajuda a alimentar as críticas de Moscou.

Sobre o momento delicado da ONU, ele sugeriu que não sejam "apontados dedos" para o governo dos EUA ou para "uma única pessoa" como responsáveis pelo fenômeno, disse, sem mencionar Trump, crítico feroz da organização.

"Há algum tempo existe a sensação de que a ONU não está à altura das expectativas ou da sua missão", afirmou.
"Não é uma questão recente a convicção de que a ONU está em todo lugar sem estar onde costumava estar."

Ao ser questionado se a ONU pode ser eficaz sem os EUA, Grossi afirmou que não.
"E, talvez, seja por isso que o governo decidiu reter ou atrasar os pagamentos", disse.

"Correndo o risco de ser provocativo, eu diria que não acho ilógico que os EUA estejam pagando 22%, 25% e não gostem da forma como a instituição está funcionando.
Eles podem questionar isso", afirmou.
"É claro que as contribuições obrigatórias devem ser cumpridas, não há dúvidas disso.
Mas este é o mundo real em que vivemos", acrescentou.

Para ele, é preciso "restaurar a confiança" não só entre os EUA, mas entre os dez principais colaboradores que, segundo Grossi, "concordam com muito do que os Estados Unidos dizem em privado".

"Eles não dizem isso publicamente.
Mas não vejo nenhum deles vindo a público dizer: 'Não se preocupem, ONU, nós pagaremos por eles'.
Então, acho que é por isso que precisamos reconhecer que o questionamento e as dúvidas sobre a instituição são mais profundos do que aparentam", afirmou.

Dos 193 Estados-membros da ONU, 72 não pagaram as contribuições obrigatórias este ano, contra 42 em 2025, o que reflete a profunda crise de legitimidade da organização e as crescentes dúvidas sobre a sua relação custo-benefício, diz Rebecca Snyder, pesquisadora associada do Programa de Governança Global, Justiça e Segurança do Stimson Center.

Fóruns concorrentes
Na avaliação de Grossi, a eleição atual para secretário-geral é uma das mais importantes da história do órgão, e o interesse do público aumentou refletindo essa crença das pessoas de que este é um momento crucial.
"Vamos fazer algo em relação à ONU? Ou simplesmente vamos desistir dela?", questionou.

Para alguns analistas, a crise na ONU reflete também novas configurações geopolíticas, como o Brics (grupo liderado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), G20, G7 ou a Organização para Cooperação de Xangai, conforme citou o próprio Grossi.
O problema dessa interpretação, segundo ele, é que "nada disso é verdadeiramente global" como a ONU.

"Todos esses agrupamentos representam, em certa medida, afinidades de pensamento.
E, hoje em dia, essas afinidades não são tão certas quanto deveriam ser, pelo menos em alguns grupos", afirmou.

Latino-americanos
Na consulta mais recente aos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU, Carolyn Rodrigues-Birkett, embaixadora da Guiana junto às Nações Unidas, saiu do segundo para o primeiro lugar, trocando com Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica.

Já a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que tem o apoio do Brasil e do México, não foi bem e caiu da quarta para a sétima posição, entre oito candidatos.
Apesar do desempenho, ao menos a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, reafirmou publicamente seu apoio à continuidade da candidatura de Bachelet.

Esses nomes são importantes porque, seguindo a tradição de rodízio regional, neste ciclo eleitoral seria a vez de alguém da América Latina ou do Caribe assumir a secretaria-geral, nota Snyder, do Stimson Center.

Na história da ONU, apenas um secretário-geral veio da América Latina: o peruano Javier Pérez de Cuéllar, de 1982 a 1991.
Agora, seis dos oito candidatos atuais são da região – além dos já mencionados, estão na disputa também as equatorianas María Fernanda Espinosa, ex-ministra das Relações Exteriores e da Defesa do país, e, mais recentemente, a diplomata Ivonne A-Baki.

O número relativamente pequeno de candidatos, em comparação aos 13 de 2016, reflete os desafios excepcionais de liderar a ONU neste momento, diz Snyder.

O jornal Washington Post observa ainda que essa pode ser a primeira vez que a ONU será chefiada por uma mulher.
Todas as cinco mulheres indicadas são latino-americanas.
Mas Brett Schaefer, pesquisador sênior do American Enterprise Institute (AEI), afirmou ao jornal ser provável que o próximo secretário-geral da ONU nem esteja ainda entre os candidatos atuais.

Segundo ele, é possível, por exemplo, que o Reino Unido não veja Grossi com bons olhos devido a ressentimentos com a Argentina por causa da Guerra das Malvinas de 1982, enquanto os EUA já indicaram incômodo com o que alegam ser uma proximidade de Bachelet com a China.

Rafael Grossi, atual diretor da AIEA, é um dos candidatos a ser secretário-geral da ONU
Lisa Leutner/AP