Sob pressão por ligação de ex-aliado e Epstein, Starmer enfrenta pedidos de renúncia em meio a crise que afeta o governo e a monarquia

 

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O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, voltou a sinalizar nesta segunda-feira que não deixará o cargo em meio ao constrangimento causado pelas novas revelações envolvendo Peter Mandelson, ex-aliado indicado por ele ao cargo de embaixador britânico em Washington em 2024, e o criminoso sexual Jeffrey Epstein. A reafirmação acontece em um momento em que documentos revelados nos EUA afetam a credibilidade do governo e da monarquia britânica, com dois assessores de primeiro escalão de Starmer pedindo demissão em menos de 24 horas, e o sucessor do trono, príncipe William, demonstrando "preocupação" em meio a novas alegações contra seu tio, o ex-príncipe Andrew.

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— [O premier] está concentrado no trabalho em mãos [e não renunciará] — afirmou um porta-voz de Starmer nesta segunda-feira, em meio à crise no governo. — [Ele] está seguindo em frente com o trabalho de promover mudanças em todo o país.

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Eleito para o cargo há apenas 19 meses, Starmer se tornou alvo de pedidos de renúncia por parte de políticos conservadores e trabalhistas por ter nomeado Mandelson como embaixador nos EUA, apesar de conexões entre ele e Epstein já serem conhecidas. Em uma entrevista coletiva na semana passada, Starmer disse que acreditou em mentiras contadas pelo ex-aliado, que teria dito que mal conhecia o magnata americano — algo que foi desmentido pela nova leva de documentos revelada recentemente, que mostrou transferências bancárias de Epstein para Mandelson e seu marido, o brasileiro Reinaldo da Silva, além de um possível compartilhamento de informações sensíveis.

Entre a base do Partido Trabalhista, a avaliação é de que a situação está cada vez mais difícil diante da pressão sobre o premier em meio ao impacto político — em um ano que o país celebra eleições locais que a sigla já entra enfraquecida. Pedidos de reformulações no Gabinete surgiram a partir de aliados, e o líder do Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês), Anas Sarwar, pediu a renúncia do premier nesta segunda-feira.

— A distração precisa acabar e a liderança em Downing Street precisa mudar — disse Sarwar, com a ponderação de que considera o premier "uma pessoa decente", mas que o impacto político perto das eleições e a falta de mostras de competência por parte do governo precisam ser solucionadas.

Entre os trabalhistas ingleses, as reações são diversas. O ministro das Relações Exteriores David Lammy pediu, minutos antes do discurso do líder escocês, que os deputados do partido "apoiem o primeiro-ministro", lembrando que Starmer conquistou um mandato de cinco anos após uma votação expressiva, a menos de 20 meses.

"Não devemos deixar que nada nos distraia de nossa missão de mudar o Reino Unido, e apoiamos o primeiro-ministro nesse sentido", escreveu Lammy em um comunicado nas redes sociais.

Em uma declaração para a rede britânica BBC, o deputado trabalhista Graham Stringe mostrou que a unidade não é de todo certa. O parlamentar afirmou que não deseja a renúncia de Starmer, avaliou que está "cada vez mais difícil" para ele se manter no cargo.

— [É] claramente uma questão de quando, não de se — disse o deputado.

As primeiras vítimas da pressão externa e do "fogo-amigo" caíram nos últimos dias. O chefe de Gabinete de Starmer, Morgan McSweeney, entregou o cargo no domingo, citando o caso Mandelson como motivo para se afastar das atividades. Figura próxima ao ex-embaixador — que era até recentemente um representante trabalhista na Câmara dos Lordes —, o chefe de Gabinete admitiu ter aconselhado o premier a nomeá-lo ao cargo, e assumiu o ônus da culpa.

— Após uma reflexão madura, decidi renunciar ao governo. A nomeação de Peter Mandelson foi um erro — disse o chefe de Gabinete em sua despedida do cargo. — Aconselhei ao primeiro-ministro essa nomeação e assumo a responsabilidade.

Menos de 24 horas após a saída de McSweeney do cargo, um outro assessor de primeira ordem de Starmer, o diretor de comunicação, Tim Allan, afirmou que estava se afastando da função. Em um comunicado, o diretor afirmou ter decidido se retirar "para permitir a formação de uma nova equipe em Downing Street" — um indicativo de que uma reformulação pode estar na mesa do premier.

Abalo na Casa de Windsor

O mesmo lote de documentos que revelou que Mandelson trocou e-mails carinhosos e fotos privadas com Epstein, esteve envolvido em transações financeiras e as evidências de que o diplomata britânico compartilhou informações confidenciais com o financista, atingiu também a família real britânica, ao passo que o príncipe Andrew — que teve o título real retirado após o envolvimento comprovado com o criminoso americano — voltou a ser citado e envolvido no escândalo.

Além de fotos em que o ex-candidato à sucessão do trono britânico aparecem em cima de uma mulher deitada no chão — que depois se comprovou terem sido tiradas na casa de Epstein —, a polícia britânica informou que está "examinando suspeitas" de que Andrew possa ter transmitido informações potencialmente confidenciais a Epstein.

Em um e-mail de 30 de novembro de 2010, quando Andrew era representante especial do Reino Unido para o Comércio Internacional, o então duque de York enviou a Epstein relatórios sobre visitas a Vietnã, Hong Kong, China e Singapura.

Embora o filho de Elizabeth II já tenha deixado as dependências do Royal Lodge, em Windsor, as novas revelações geram constrangimento para a realeza. Diante da nova exposição, o príncipe William, filho do rei Charles III, pronunciou-se pela primeira vez desde que as fotos de Andrew foram publicadas.

Em um comunicado emitido por um porta-voz, William e sua esposa, a princesa Kate, se disseram "profundamente preocupados" com as revelações com as revelações contínuas". Os integrantes da realeza também disseram que "seus pensamentos permanecem focados nas vítimas.”

Segundo uma informação de bastidor citada pelo jornal britânico The Guardian, o posicionamento a respeito de Andrew foi revelado pelo Palácio de Kensington para que William pudesse se concentrar em uma viagem oficial à Arábia Saudita. (Com AFP)