Sob intensos ataques, Irã anuncia que escolheu sucessor de Ali Khamenei pelo critério de que seja 'odiado pelo inimigo'
O Irã anunciou neste domingo que a Assembleia de Especialistas, responsável por definir quem será o novo líder supremo no lugar de Ali Khamenei, chegou a um consenso. Segundo autoridades iranianas, o órgão formado por 88 membros fez a escolha com base no conselho de Khamenei, morto em 28 de fevereiro após quase 40 anos no poder, de que seu substituto deveria “ser odiado pelo inimigo”. Independente do nome, que ainda não foi divulgado, Israel já anunciou que o novo líder será "um alvo".
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Na última semana, circularam vários nomes como possíveis candidatos ao cargo, reservado a um religioso, incluindo o do filho do falecido guia, Mojtaba Khamenei, considerado uma das personalidades mais influentes do país. Analistas também mencionaram o nome de Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini. Na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em uma entrevista à plataforma Axios que não aceitaria Mojtaba no cargo.
“Israel continuará perseguindo o sucessor e todos que tentarem nomeá-lo”, escreveu nas redes sociais o porta-voz militar israelense Avichay Adraee antes do anúncio de que um nome havia sido escolhido. “Alertamos todos que planejam participar da reunião para nomear um sucessor: não hesitaremos em atacá-los também.”
Na semana passada, as Forças Armadas israelenses bombardearam escritórios ligados à Assembleia de Especialistas, sem registro de vítimas.
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A escolha da maior autoridade política e religiosa do Irã, com a palavra final sobre todos os assuntos de Estado, ocorreu enquanto o país continua enfrentando intensos bombardeios na capital Teerã e outras cidades, como Isfahã e Yazd, no centro do país. O Exército israelense afirma que efetuou 3.400 ataques contra o Irã desde o início da guerra, enquanto os EUA informaram 3.000 operações.
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Uma espessa coluna de fumaça cobria Teerã neste domingo após Israel ter bombardeado quatro depósitos de petróleo e um centro logístico de produtos petrolíferos na região da capital iraniana, os primeiros ataques relatados contra instalações petrolíferas do país desde o início da guerra. As autoridades iranianas registraram quase 1.000 mortos desde o início da guerra, dos quais 30% seriam crianças. Não é possível verificar os números de forma independente.
Por sua vez, o regime iraniano mantém o lançamento de mísseis e drones contra Israel e os Estados do Golfo que abrigam interesses americanos, com Ali Mohammad Naini, porta-voz da Guarda Revolucionária, força de elite da República Islâmica, afirmando que as "Forças Armadas são capazes de prosseguir por pelo menos seis meses de guerra intensa no ritmo atual das operações".
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O conflito desestabiliza todo o Oriente Médio e outras regiões, em particular devido aos efeitos sobre a produção e a distribuição de hidrocarbonetos, que provocam a disparada dos preços. Neste domingo, os depósitos de combustível do aeroporto internacional do Kuwait foram atacados por drones. Uma usina de dessalinização no Bahrein também foi danificada em um ataque do tipo.
Na Arábia Saudita, segundo maior produtor mundial de petróleo, atrás apenas dos Estados Unidos, o bairro diplomático de Riad foi alvo de um ataque com drones, mas a tentativa foi frustrada, segundo o governo do reino.
Quem era Ali Khamenei?
O antigo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, morto em fevereiro
Distribuição via AFP: KHAMENEI.IR
Khamenei nasceu em um dos centros do islã do Irã, Mashad, em junho de 1939. Segundo filho de um teórico religioso, chamado pelo futuro líder supremo de “um pouco cético”, não teve uma infância de luxos, morando em uma casa pequena com seus pais e sete irmãos.
Na juventude, seguiu o caminho do pai nos estudos religiosos, e aos 19 anos foi para Qom, a “capital religiosa” do Irã, onde passou a ter contatos com intelectuais de diversas correntes políticas. Ali, teve aulas com o já influente Khomeini — na época, em meados dos anos 1960, começava a surgir um movimento organizado de oposição ao xá Reza Pahlevi, ao qual Khamenei se uniu em seus primeiros momentos.
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Como escreveu o jornalista e dissidente Akbar Ganji em um longo perfil sobre as bases intelectuais de Khamenei para a revista Foreign Affairs, talvez nenhum líder religioso do Irã tenha sido tão cosmopolita como ele, um ávido consumidor de obras de autores clássicos iranianos, russos e franceses: em 2001, em uma entrevista na TV, disse que “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, era o melhor romance da História.
Ao mesmo tempo, seus anos acadêmicos moldaram posições de sua trajetória política, a começar pela ideia de que o Ocidente e os valores das democracias liberais estavam diante de um declínio inevitável, e que expressavam uma visão de mundo abertamente islamofóbica. Também era um admirador das ideias do poeta egípcio Sayyid al-Qutb, principal teórico da Irmandade Muçulmana e que propagava a ideia de um Estado islâmico: para Khamenei, “o Islã sem um governo e uma nação muçulmana sem o Islã são algo sem sentido”.
A morte de Khamenei: mísseis espaciais e 20 anos de preparo
Mísseis Sparrow, usados por Israel
Reprodução: rafael.co.il
Israel utilizou um míssil balístico pouco conhecido, capaz de sair da atmosfera terrestre antes de atingir o alvo, para matar Khamenei, em um ataque surpresa contra Teerã. O armamento, chamado Blue Sparrow, tem alcance aproximado de 2 mil quilômetros e foi projetado para atingir alvos altamente protegidos.
Cilindros metálicos longos, considerados destroços do míssil, foram encontrados no oeste do Iraque, ao longo do que seria sua rota de voo até o território iraniano. O Blue Sparrow integra uma série de mísseis lançados do ar — que inclui também os modelos Black Sparrow e Silver Sparrow — originalmente desenvolvidos para simular os mísseis Scud utilizados pelo Iraque contra Israel durante a Guerra do Golfo de 1991.
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Com cerca de 6,5 metros de comprimento e peso aproximado de 1,9 tonelada, o Blue Sparrow foi criado inicialmente como míssil-alvo para testes de sistemas de defesa aérea. Posteriormente, foi adaptado para uso ofensivo como munição ar-superfície, graças à sua alta velocidade e trajetória quase balística.
A capacidade de sair e reentrar na atmosfera terrestre dificulta sua interceptação e reduz o tempo de reação do alvo, tornando-o adequado para atingir objetivos estratégicos e sensíveis em ambientes altamente protegidos, sem expor aeronaves tripuladas.
Autoridades americanas também confirmaram o uso de novos sistemas de armas durante a operação. O Pentágono divulgou imagens da primeira utilização em combate do Precision Strike Missile, um míssil de alcance ampliado de cerca de 500 quilômetros.
Segundo uma fonte, o ataque contra o Irã vinha sendo planejado havia meses. O cronograma foi alterado quando os serviços de inteligência descobriram que Khamenei participaria pessoalmente de uma reunião na manhã de sábado.
Durante mais de duas décadas, a unidade de inteligência cibernética israelense Unit 8200 monitorou os guarda-costas do líder iraniano e invadiu câmeras de trânsito ao redor de seu complexo em Teerã.
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Nos últimos meses, Khamenei vinha passando grande parte das noites em um bunker subterrâneo — tão profundo que, segundo relatos, levava cerca de cinco minutos para chegar até ele. O regime iraniano acreditava que Israel atacaria à noite.
O cálculo se mostrou errado.
Caças israelenses F-15 e outras aeronaves decolaram por volta das 7h30 (horário local do Irã) e chegaram à posição de ataque menos de duas horas depois. Às 9h40 começaram os bombardeios, incluindo o lançamento de mísseis Blue Sparrow. Pelo menos 30 ataques de precisão foram direcionados diretamente ao complexo do líder supremo.
Simultaneamente, Israel interrompeu o serviço telefônico na área do complexo, impedindo que assessores pedissem ajuda. Ainda assim, rapidamente surgiram relatos de ataques aéreos na capital iraniana.
Vídeos publicados nas redes sociais mostraram colunas de fumaça se elevando de vários pontos de Teerã, incluindo a área do complexo do líder supremo. Até as 18h, já era evidente que os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel haviam causado danos significativos, com ao menos seis edifícios atingidos.
Na manhã seguinte, às 5h no horário local, a mídia estatal iraniana confirmou a morte de Khamenei.
(Com AFP e New York Times)
