Às margens do mar Adriático, em Bari, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, celebrou nesta sexta-feira o recorde de permanência no cargo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em um comício marcado por aplausos de apoiadores e protestos nas ruas da cidade. A premier completa 1.413 dias à frente do mesmo governo, superando a segunda gestão de Silvio Berlusconi (2001-2005), e definiu a "estabilidade" como "a nossa primeira grande reforma", afirmando que a Itália "deixou de ser o caso quente da Europa". Contexto: Giorgia Meloni supera Berlusconi e lidera governo mais longevo da Itália no pós-guerra Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no Whatsapp — O governo mais estável não é necessariamente o mais capaz. É simplesmente aquele que teve mais tempo do que os outros para ser avaliado, e esse julgamento vem de vocês juntamente com os milhões de italianos que ainda estão ao nosso lado — disse Meloni aos milhares de apoiadores no evento. — Devemos nos orgulhar não apenas de termos governado por 1.413 dias, mas de ainda desfrutarmos de um consenso maior do que tínhamos no primeiro dia. Apoiadores do partido Irmãos da Itália comemoram a longevidade recorde do governo de Giorgia Meloni em Bari ALBERTO PIZZOLI / AFP A primeira-ministra fez da estabilidade o eixo central de seu discurso, contrapondo à instabilidade crônica que marcou a Itália do pós-guerra, quando o país teve 68 governos em 80 anos. Em média, houve mudança de governo a cada seis meses.
— Éramos nós que vivíamos trocando de governo, e em conferências internacionais, os interlocutores perguntavam: "Até quando isso vai durar?" Quem é tratado assim não consegue negociar, não consegue defender seus próprios interesses — disse ela, acrescentando que, "com estabilidade, você pode ditar as decisões em vez de se submeter a elas; você pode definir o rumo". Campanha informal para 2027 O evento em Bari funcionou como uma espécie de largada informal da campanha, em uma noite de autocelebração para a coalizão. No palco, Meloni buscou diferenciar sua coalizão da oposição e defendeu a reforma eleitoral. — Não estamos juntos para derrotar o adversário, como aqueles que não sabem o que fazer após uma possível vitória. Estamos juntos para construir ideias. Aqueles que unem forças para construir ideias, após 1.413 dias, ainda têm uma lista de tarefas a cumprir — disse. — Propomos que, nas próximas eleições e nas seguintes, os cidadãos possam escolher uma coligação, um programa e um candidato a primeiro-ministro para apresentar ao chefe de Estado, e quem vencer terá os votos necessários para governar durante cinco anos.
Primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, sobe ao palco para discursar em comemoração à longevidade recorde de seu governo ALBERTO PIZZOLI / AFP A reforma, aprovada pela Câmara dos Deputados por 217 votos a 152, e agora em tramitação no Senado, elimina o componente majoritário do atual sistema eleitoral italiano — hoje dividido entre 37% das cadeiras por distritos e 63% por proporcional — e institui um modelo 100% proporcional. Na prática, a mudança cria um "prêmio de governabilidade": a coligação que atingir 42% dos votos passa a ter direito, automaticamente, a 70 cadeiras extras na Câmara e 35 no Senado.
Tensão com Trump: governo italiano sai em defesa de Meloni antes da cúpula da Otan A oposição classifica o projeto como uma manobra para blindar a atual maioria de centro-direita contra a fragmentação dos partidos rivais. A líder do Partido Democrático (PD), Elly Schlein, acusou o governo de mudar as regras "porque têm medo de perder", enquanto o presidente do Movimento 5 Estrelas (M5S), Giuseppe Conte, chamou a proposta de "uma lei eleitoral vergonhosa, com um prêmio de maioria inconstitucional". 'Estabilidade é instrumento, não objetivo' Alguns especialistas, porém, criticam a valorização da estabilidade como uma conquista em si. A maioria dos analistas concorda que o principal ponto forte de Meloni tem sido manter as contas em ordem e tranquilizar os mercados, mas seu impacto na sociedade tem sido mínimo. O próprio governo projeta crescimento de apenas 0,6% neste ano. — A estabilidade é um instrumento, não um objetivo. O objetivo é o crescimento, e isso nós não vimos — declarou Veronica De Santis, professora de Economia da Universidade Luiss, em Roma, que criticou a ausência de uma estratégia econômica de longo prazo. Guga Chacra: Direita de Meloni vs direita de Trump Segundo um levantamento da agência AGI, a maioria ultraconservadora formada pelo Irmãos da Itália, pela Liga anti-imigração de Matteo Salvini e pelo Força Itália aprovou cerca de 300 leis e decretos-leis. Grande parte dessas medidas está relacionada à segurança em sentido amplo e tem como alvo a imigração, os traficantes de pessoas, pequenos criminosos, participantes de festas "rave" e até manifestantes que bloqueiam estradas para protestar contra demissões. São temas que mobilizam a base eleitoral da coalizão governista. A festa e o protesto A festa, organizada pelo partido Irmãos da Itália (FdI) no porto de Bari, reuniu milhares de apoiadores vindos principalmente da região da Apúlia, além de grupos organizados da Basilicata e da Calábria e mais de 30 ônibus partidos da Campânia.
Mas nem todos em Bari foram para comemorar. Uma marcha contrária ao governo Meloni reuniu centenas de pessoas na Piazza del Ferrarese, sob forte esquema policial montado para impedir que os manifestantes chegassem ao porto. Segundo os organizadores do ato, mais de 500 pessoas participaram da caminhada, e ao menos oito manifestantes foram detidos pela polícia. Para marcar a data, o Irmãos da Itália preparou um livreto de 30 páginas com as conquistas do governo. Segundo o partido, o desemprego caiu para 5,8% em julho, o menor nível já registrado; houve corte de 21 bilhões de euros (cerca de R$ 124 bilhões) em impostos para pessoas físicas; e a chegada de migrantes irregulares recuou 80%.
Os principais jornais italianos também fizeram seus próprios balanços do período. O La Repubblica, de centro-esquerda, destacou que o governo estabilizou as contas públicas e reduziu o custo do endividamento nos mercados. Já La Stampa e Corriere della Sera ressaltaram o apoio constante de Meloni à Ucrânia, apesar da resistência de seu vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini, contrário ao envio de ajuda militar a Kiev. Para a colunista do La Stampa Flavia Perina, porém, Meloni ainda "terá que explicar como pretende aproveitar estes últimos meses antes das eleições", que podem ocorrer já em abril de 2027. Com AFP
O Globo