Kathleen Bonthron, hoje Kathleen Wilson, tinha 10 anos quando recebeu de sua líder no grupo de escoteiras (chamadas de Brownies) o endereço de uma menina dos Estados Unidos. Do outro lado do Atlântico estava Shirley Hedtke, hoje Shirley Yaeger, de 11 anos. Em 1956, as duas começaram a trocar cartas e deram início a uma amizade que atravessaria infância, adolescência, casamentos, filhos, aposentadoria e sete décadas de mudanças na forma de se comunicar. De alimentação a exercícios com instrutor brasileiro: Saiba como é a rotina de Antonela Roccuzzo, mulher de Lionel Messi O que é Metabolic Beauty? Entenda o conceito que vai além da aparência O que começou como uma correspondência entre duas crianças se transformou em uma relação que as próprias famílias passaram a tratar como um vínculo quase familiar. Há 55 anos, Kathleen decidiu inclusive dar à filha o nome da amiga. Dentro das duas famílias, elas passaram a ser conhecidas como “Shirley América” e “Shirley Escócia”. — Quando Shirley nasceu, como eu tinha uma amiga na América, pensei simplesmente: vamos chamá-la de Shirley — disse Kathleen: — E o pai dela ficou muito feliz com isso. A filha de Kathleen também recebeu da homônima americana uma lembrança da infância: — Shirley, na verdade, me presenteou com uma caneca da infância, com o nome dela. Shirley Yaeger contou ainda que seu próprio nome tinha origem em uma admiração familiar pela atriz Shirley Temple. — Minha mãe me deu o nome de Shirley Temple e fiquei muito honrada por Shirley ter recebido meu nome. Foi maravilhoso, especialmente depois que a conheci. Cartas sobre escola, família e namoros O primeiro contato aconteceu por iniciativa da líder das Brownies de Shirley. Ela levou às meninas uma caixa com nomes de possíveis correspondentes e perguntou se alguma queria trocar cartas com alguém da Escócia. Shirley escolheu um nome e encontrou Kathleen Bonthron. — Minha líder das Brownies entrou com uma caixa de charutos cheia de nomes e perguntou se alguém gostaria de ter uma correspondente da Escócia — disse Shirley. — Peguei um nome e era Kathleen Bonthron. Só se viram três vezes: conheça a história de amigas que começaram a trocar cartas em 1956 e mantêm amizade 70 anos depois (agora por WhatsApp) Reprodução A princípio, as cartas eram enviadas apenas algumas vezes por ano. Depois, a frequência aumentou e a troca de correspondência passou a fazer parte da rotina das duas. — No começo, escrevíamos algumas vezes por ano, mas depois começamos a escrever mais e acabou ficando divertido — conta As cartas serviram como uma espécie de janela para a vida uma da outra. Elas falavam sobre a família, a escola e as Brownies. Mais tarde, passaram a conversar também sobre namoro. — Eu pude aprender sobre a cultura dela e ela aprendeu sobre a nossa. E aprendi palavras novas. Gostava dela desde o minuto em que comecei a escrever para ela. Contávamos umas às outras sobre nossas famílias, as Brownies e a escola e, depois, é claro, começamos a falar sobre namoro, o que era emocionante — diz Shirley. Para Kathleen, que tinha apenas 10 anos quando começou a escrever para Shirley, a noção do que significava viver nos Estados Unidos ainda era vaga. — Você não sabia o que era a América naquela idade. Acho que costumávamos escrever apenas sobre a escola e sobre sair com nossas mães e nossos pais — explica. Ela resumiu a continuidade da amizade ao comparar as conversas de hoje com as da infância: — Era só conversa fiada, como é agora. Só que agora a conversa fiada é maior. Quando o mundo era outro As duas começaram a trocar cartas em 1956, em um período marcado por acontecimentos que hoje pertencem à história. Naquele ano, o Egito nacionalizou o Canal de Suez, desencadeando uma crise que levou Reino Unido, França e Israel a uma ação militar. Sob pressão financeira e diante da oposição dos Estados Unidos, os britânicos acabaram se retirando. Nos Estados Unidos, o rock and roll avançava. Elvis Presley lançou Heartbreak Hotel, enquanto Bill Haley and His Comets estavam associados ao sucesso de Rock Around the Clock. A Suprema Corte também decidiu contra leis do Alabama que determinavam segregação nos ônibus. No mesmo ano, Marilyn Monroe se casou com o dramaturgo Arthur Miller. No Reino Unido, a rainha Elizabeth II inaugurou a usina nuclear de Calder Hall, foi criado o Prêmio do Duque de Edimburgo e o cenário musical britânico começava a ganhar força com nomes como Tommy Steele. Na Escócia, os sistemas de bonde de Dundee e Edimburgo fizeram seus últimos serviços, enquanto a Biblioteca Nacional da Escócia inaugurou sua primeira sede construída especificamente para a instituição. Enquanto o mundo mudava, Kathleen e Shirley mantinham a mesma rotina básica: escrever uma para a outra. A correspondência continuou durante a adolescência e depois atravessou a fase em que as duas começaram a namorar, se casaram, tiveram filhos e formaram suas próprias famílias. Sete décadas e apenas três encontros Apesar de toda a duração da amizade, Kathleen e Shirley se encontraram pessoalmente apenas três vezes. Os dois primeiros encontros aconteceram na Escócia, em 2007 e 2019. O terceiro ocorreu nos Estados Unidos, algumas semanas antes da publicação da reportagem, quando Kathleen passou uma semana na casa de Shirley, em Wisconsin. — A primeira vez que nos encontramos, Shirley era exatamente como ela é — disse Kathleen. — Ela é tão simpática quanto eu e consegue conversar. Nós duas conseguimos conversar. Só se viram três vezes: conheça a história de amigas que começaram a trocar cartas em 1956 e mantêm amizade 70 anos depois (agora por WhatsApp) Reprodução Para ela, a proximidade surgiu de forma imediata: — Foi natural. Nós simplesmente nos encaixamos. A visita mais recente, segundo Kathleen, mudou ainda mais a percepção que tinha da amiga. — Agora estou muito feliz por tê-la visto em sua casa. Sinto-me um pouco mais próxima dela, ela é mais como família agora. Mesmo depois de sete décadas, a conversa continua: — Mas não paramos de conversar. Nós não paramos de conversar. Nunca chegamos ao fim das histórias porque falamos demais. Nunca deixaremos de manter contato. De correspondentes a quase irmãs Kathleen trabalhou como operadora de cartões perfurados na IBM e, depois, como recepcionista de um médico. Hoje, aposentada, mantém o contato com Shirley principalmente por WhatsApp, depois de décadas em que as duas dependeram das cartas e, mais tarde, dos e-mails. — Ela agora é uma boa amiga, mais como família. Quer dizer, são 70 anos. Falamos ao telefone de vez em quando, mas principalmente trocamos mensagens pelo WhatsApp. Shirley, que trabalhou como enfermeira, também considera que a amizade ultrapassou a relação entre simples correspondentes. Os primeiros encontros na Escócia foram curtos, mas a visita de Kathleen aos Estados Unidos permitiu que as duas passassem mais tempo juntas. — Quando estávamos na Escócia, só conseguimos ver Kathleen por algumas horas porque tínhamos uma programação, mas quando eles foram aos Estados Unidos, moramos juntas e realmente conseguimos nos conhecer. Foi maravilhoso. Ela é como uma irmã para mim. Conversamos sobre tudo, nossas gravidezes, nossos filhos quando eram pequenos. Ela sempre esteve presente para mim. Famílias também criaram laços A amizade das duas acabou se espalhando para as famílias. Kathleen e Shirley têm, cada uma, um filho e uma filha. Kathleen teve Shirley e Andrew com o falecido marido, Eric, e tem dois netos. Shirley é casada com Daniel há 61 anos e tem dois filhos, Christine e Jon. Os filhos das duas também prometeram manter contato. A intenção agora é levar a tradição para a próxima geração. Shirley, filha de Kathleen, e Christine, filha de Shirley Yaeger, querem continuar a relação iniciada pelas mães. — O plano é que Christine e eu, filha de Shirley, mantenhamos contato — disse Shirley, da Escócia. — Assim poderemos ser as próximas correspondentes por carta. A Shirley americana contou que sua filha cresceu ouvindo histórias sobre a família da correspondente de Kathleen. — Estou muito feliz. Minha filha ouviu falar da família de Kathleen a vida inteira e, quando se conheceram, se deram bem imediatamente. Uma amizade que sobreviveu a sete décadas Para Shirley Yaeger, o mais incomum na relação é justamente o fato de ela ter sobrevivido enquanto outras amizades por correspondência ficaram pelo caminho. — Kathleen é sempre uma pessoa muito alegre. Foi uma ótima correspondente para mim. Ela acrescentou: — Nenhuma das minhas amigas manteve contato com suas correspondentes por carta. Nós fomos as únicas.
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Só se viram três vezes: conheça a história de amigas que começaram a trocar cartas em 1956 e mantêm amizade 70 anos depois (agora por WhatsApp)
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