'Só descobrimos no lançamento': equipamento brasileiro vai à Lua com astronautas da Nasa na missão Artemis II
A retomada da exploração lunar pela Nasa contou com participação brasileira — e os próprios criadores da tecnologia só descobriram isso no momento do lançamento. Um actígrafo desenvolvido pela startup paulista Condor Instruments foi utilizado pelos astronautas da missão Artemis II para monitorar sono, atividade física e os efeitos da luz sobre o relógio biológico humano durante a viagem espacial.
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A surpresa veio quando os fundadores da empresa assistiam às imagens oficiais da missão.
— Só descobrimos que ele realmente estava sendo utilizado na missão no dia do lançamento, quando vimos o equipamento no pulso dos astronautas — contou Luis Filipe Rossi, CTO e cofundador da empresa, ao GLOBO.
O equipamento utilizado é o modelo ActLumus, um wearable semelhante a um relógio de pulso, mas desenvolvido para pesquisas científicas de alta precisão. O dispositivo coleta dados sobre padrões de sono, atividade corporal e exposição à luz ao longo do dia — um ponto considerado crítico em missões espaciais.
Segundo Rossi, a Nasa entrou em contato com a empresa brasileira ainda em 2023.
— A Nasa entrou em contato conosco para entender melhor o equipamento e suas capacidades. Depois disso, adquiriram unidades para testes e tivemos várias conversas técnicas com os engenheiros da missão — afirmou.
Embora a empresa saiba que concorrentes internacionais também foram avaliados, a confirmação definitiva da escolha nunca havia sido dada oficialmente. O diferencial do equipamento brasileiro está principalmente em seu sensor de luz. Segundo Rossi, a Condor se tornou referência mundial nessa área.
Relógio da Condor Instruments
Divulgação/CondorInstruments
— O equipamento consegue medir não apenas a intensidade da luz, mas também como diferentes receptores do olho humano estão sendo estimulados, incluindo os ligados ao ritmo circadiano e ao sono — explicou.
Na prática, o dispositivo acompanha continuamente como o organismo reage à ausência da alternância natural entre dia e noite — uma das principais dificuldades fisiológicas enfrentadas por astronautas. No espaço, o corpo humano perde a principal referência usada para sincronizar o relógio biológico: a luz solar.
— Quando isso se desorganiza, podem surgir problemas de sono, fadiga, queda de atenção, alterações hormonais e piora do desempenho cognitivo — disse Rossi.
Segundo ele, em uma missão espacial, a privação de sono não representa apenas desconforto, mas um risco operacional.
— A privação de sono pode afetar atenção, memória, tempo de reação e tomada de decisão. Em uma missão espacial, onde tudo exige alta precisão, manter a tripulação descansada é uma questão importante de desempenho e segurança.
Apesar do ambiente extremo do espaço, poucas adaptações precisaram ser feitas no equipamento.
— O dispositivo já era bastante robusto para uso científico. A principal mudança foi reduzir a potência do Bluetooth para atender requisitos específicos da missão espacial — explicou.
Artemis II
AFP
A trajetória da Condor começou dentro do ecossistema acadêmico paulista. A startup nasceu em 2013 após uma parceria com pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo e recebeu apoio inicial da Fapesp.
Com investimento inicial de R$ 40 mil dos próprios fundadores e um aporte posterior de R$ 195 mil da fundação, a empresa passou a desenvolver tecnologia voltada ao monitoramento científico do sono e do ritmo circadiano.
Hoje, quase 90% das vendas da Condor vão para o exterior. Entre os clientes estão instituições como Harvard University, Stanford University, o NIH e o NHS britânico, além de empresas como United Airlines, Air Canada e FedEx. Para Rossi, ver uma tecnologia criada em São Paulo participar de uma missão lunar tem significado simbólico para a ciência brasileira.
— Foi um momento de muito orgulho e emoção para toda a equipe. Ver uma tecnologia desenvolvida no Brasil sendo usada em uma das missões espaciais mais importantes da atualidade mostra que inovação de classe mundial também pode nascer aqui.
