‘Slow travel’: Em alta, conceito valoriza tempo de qualidade, conexão local e turismo sustentável
Se é terça-feira, deve ser a Bélgica.
A tradução literal do nome em inglês do filme “Enquanto viverem as ilusões”, de 1969, ilustra a experiência exaustiva de personagens americanos que tentavam visitar nove países da Europa em 18 dias — e ironiza os pacotes turísticos que se popularizaram ainda mais fora da ficção nas décadas seguintes.
Na contramão de roteiros do tipo, o slow travel desponta como tendência no setor e atende à crescente demanda por viagens e passeios com ritmo mais tranquilo e conexão cultural.
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Mais que um produto, a proposta é de um novo modo de viajar.
Envolve a permanência por mais tempo em um ou poucos destinos, sem roteiro fixo ou lotado de afazeres, para permitir uma imersão na cultura, na gastronomia e na comunidade local.
A filosofia tem cativado viajantes que buscam “desacelerar” e priorizar experiências mais autênticas do que as do turismo de massa, lesivo ao meio ambiente e a populações nativas.
— Há perfis de viagens para diferentes públicos.
O slow travel amplia as possibilidades oferecidas pelo mercado, fortalece a economia local e promove um turismo mais sustentável — explica a presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), Ana Carolina Medeiros.
Trilha do Abreu.
“Slow travel” também incluiu preocupação com a natureza
Arquivo pessoal
Mergulho na realidade
A professora aposentada Miriam Chaves já adotava o modo slow antes de conhecê-lo como conceito.
Nas andanças pelo mundo, a moradora do Rio costuma escolher cidades menores, “perdidas no mapa”, onde só se desloca a pé ou de transporte público.
Datas e hospedagens são programadas, mas o resto é espontâneo.
— Slow, para mim, é misturar-me com a população.
Vou à feira, sento no mesmo bar duas ou três vezes.
Adoro mergulhar naquela realidade e não entender nada.
Na Patagônia, eu poderia fazer a Rota dos Sete Lagos, mas preferi conhecer apenas dois e dar a volta toda neles.
É ter tempo para sentir, saborear e até não fazer nada — conclui Miriam.
Em Ushuaia: volta em torno do lago
Arquivo pessoal
O slow travel integra um ideário maior, o slow living (viver devagar).
A tendência nasceu com a expressão slow food, cunhada em 1986 na Itália por Carlo Petrini como uma resposta ao avanço do fast food e os impactos do consumo rápido e acrítico.
Sócio da Adnet Slow Travel, Arnaldo Adnet lembra que a pandemia de Covid-19 afetou empresas e comunidades cujas receitas dependem do turismo.
Com o fim da crise, diz, o que se viu foi uma sede por viagens, num movimento que levou a cidades saturadas, gentrificação de centros e protestos antituristas.
— Mas surgiu também alguma consciência.
Um cliente me cobrou porque descobriu que o dono de um hotel no Chile sonegava impostos.
Clientes querem saber de quem estão consumindo, de onde vêm os produtos, se os nativos são empregados, se o dinheiro dele está sendo bem gasto para melhorar a vida daquela comunidade.
Os destinos slow travel atendem várias camadas sociais, diferentemente do que muita gente pode imaginar.
Há, sim, viajantes de carteirinha e mais abastados que passaram a buscar experiências incomuns para desviar do padrão — “tem gente pagando para ir ao espaço”, exemplifica Adnet —, mas a ousadia, comum no slow travel, não necessariamente tem a ver com isso ou ostentação.
Por se tratar de um “modo de viajar”, o slow travel independe de destino, preço ou duração.
Segundo a Abav, porém, o perfil desse tipo de viagem costuma casar com cenários como os da Chapada dos Veadeiros (GO), da Serra da Mantiqueira (SP/MG/RJ), de Alter do Chão (PA) e regiões voltadas ao enoturismo.
No exterior, a associação cita experiências em áreas da Toscana e da Umbria, na Itália; do Alentejo, em Portugal; e em regiões rurais do Japão.
A Abav ressalta que a busca por esses destinos tem motivado também jovens, famílias, casais e nômades digitais.
Ou seja, não apenas aposentados, idosos e pessoas de alto poder aquisitivo, como sugere o estereótipo.
Também não necessariamente é uma viagem mais cara que uma convencional.
Embora a curadoria de roteiros, os grupos menores e as atividades exclusivas possam encarecer o tour, é possível ajustar custos, fugir dos “preços para turistas” e obter descontos em estadias mais longas.
Essência
Para Antonio Jiménez, fundador da Slowtraveleres, falar em “destinos em alta” contradiz a essência do conceito slow.
Ele conta que boa parte da clientela chega atraída por um destino ou proposta concreta, como Noruega e aurora boreal:
— Quando a pessoa vive a experiência bem cuidada, em grupo pequeno, com ritmo mais humano, boa logística e uma curadoria mais próxima, passa a entender as vantagens na prática e fica difícil voltar com entusiasmo para uma excursão impessoal e guiada apenas pelo checklist.
Na Noruega, não se trata apenas de “ver a aurora boreal”.
É viver o inverno ártico com calma, o silêncio, a neve, ser recebido por uma anfitriã Sami (povo que vive no extremo norte da Europa).
Esse tipo de encontro não é um show turístico.
Um de seus roteiros “desenhados à mão” inclui passar um dia no campo com uma família de criadores da Andaluzia que normalmente não recebe turistas.
Uma experiência de tipo cada vez mais raro, frisa Jiménez.
— É escolher melhor e aceitar perder algumas “atrações obrigatórias” para ganhar uma experiência mais verdadeira.
A palavra entrou na moda, mas tem um risco: boa parte do que hoje se vende como slow é turismo convencional com uma etiqueta mais bonita.
Cultura sustentável
A opção por destinos remotos ou ligados à natureza não é regra.
É possível aproveitar uma metrópole com calma, garante Lia Barros, fundadora da Slow and Steady, assim como quem medita consegue fazê-lo na praia, na praça ou no quarto.
Ela descobriu o conceito para o turismo quando precisava, ela mesma, desacelerar na vida.
Criou o que é hoje um conjunto de agências que difunde a prática do ecoturismo regenerativo premium.
Se há 15 anos precisava explicar o sentido da sustentabilidade, hoje vê “cultura nítida” de cuidado com a saúde e o ambiente.
— Não é fazer tudo lento, sem graça.
Não é só ficar contemplando.
É ver a Torre Eiffel sem a única preocupação de fazer a selfie.
Percebi com os anos que quem viaja no estilo massivo volta mais cansado.
Não à toa falam em “tirar férias das férias”.
Quem faz viagem slow, volta desestressado, renovado, aproveita sem se cobrar: se quer ficar no quarto, fica.
O luxo é aproveitar o tempo.
Já Bárbara Polezer foi para Fernando de Noronha (PE) passar um semestre sabático, e há nove anos não volta para São Paulo; pelo menos, não para morar.
Na Slow Travel Noronha, ela prepara roteiros imersivos e oferece experiências que vão do nascer do sol na canoa havaiana à observação de constelações e contatos na cozinha simples do pescador.
Para além das belezas naturais, valoriza as histórias e os saberes nativos.
Ela ressalta que as pessoas têm questionado mais se indicações de influenciadores digitais, por exemplo, “fazem sentido” para si.
Mas pondera que ainda é difícil fazer os turistas se desconectarem num dos lugares mais “instagramáveis” do mundo.
Remada em Noronha para contemplação
Arquivo pessoal
— É a grande crise do momento.
Já foi pior.
As pessoas olhavam apenas pela tela mesmo diante de uma paisagem que é o sonho de muita gente.
A gente tem tentado mudar esse fluxo.
Ainda estamos engatinhando — conta Bárbara.
