Sírios acusam recrutadora russa de enganá-los e enviá-los à linha de frente da guerra na Ucrânia
Uma investigação da BBC Eye, núcleo investigativo do Serviço Mundial da BBC, revelou denúncias de fraude, coerção e abuso no recrutamento de estrangeiros para integrar as Forças Armadas da Rússia na guerra contra a Ucrânia. Segundo a apuração, jovens de países como Síria, Egito, Iêmen e nações africanas teriam sido atraídos por promessas de trabalho, altos salários e cidadania russa, mas acabaram enviados à linha de frente do conflito.
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Entre os relatos está o de Omar, operário sírio de 26 anos que falou sob pseudônimo por razões de segurança. Ele afirma ter sido recrutado por Polina Alexandrovna Azarnykh, cidadã russa que atua como intermediária informal no alistamento de estrangeiros. Segundo Omar, ela prometeu que ele exerceria uma função não combatente, desde que pagasse US$ 3 mil — valor que ele se recusou a desembolsar.
De acordo com o depoimento, Omar foi enviado para combate após apenas dez dias de treinamento militar. Ele afirma que teve o passaporte confiscado e que, ao tentar se recusar a cumprir missões, foi ameaçado por seus superiores com prisão ou morte.
Documentos, contratos e falta de informação
A investigação identificou cerca de 500 documentos de “convite” emitidos por Azarnykh, que permitem a entrada de estrangeiros na Rússia para fins de alistamento militar. Os contratos, segundo os relatos, eram redigidos exclusivamente em russo, idioma que a maioria dos recrutas não compreendia.
Recrutas e familiares afirmaram à BBC que não foram informados sobre a possibilidade de prorrogação automática dos contratos — prevista em decreto russo de 2022, que permite estender o vínculo militar até o fim da guerra. Na prática, isso impede a saída voluntária do serviço após o período inicial de um ano.
A BBC ouviu oito combatentes estrangeiros recrutados por Azarnykh, além de familiares de ao menos 12 homens que estão mortos ou desaparecidos. Em vários casos, as famílias afirmam que só foram informadas das mortes muitos meses depois, sem explicações formais das autoridades russas.
A análise da BBC Rússia, baseada em registros públicos e obituários, aponta aceleração nas perdas militares russas em 2025. Estimativas da OTAN indicam que mais de um milhão de soldados russos foram mortos ou feridos desde o início da invasão em larga escala, em 2022.
Embora seja difícil mensurar o número exato de estrangeiros no conflito, a BBC estima que ao menos 20 mil combatentes de outros países tenham se alistado nas forças russas.
Rede informal de recrutamento
Especialistas afirmam que casos como o de Azarnykh fazem parte de uma rede informal de recrutamento, intensificada desde 2024. Segundo Kateryna Stepanenko, pesquisadora do Instituto para o Estudo da Guerra, autoridades regionais russas têm oferecido incentivos financeiros a intermediários para atrair novos recrutas, diante da dificuldade em repor perdas no front.
A BBC identificou outros canais no Telegram, em árabe, com ofertas semelhantes, incluindo promessas de bônus elevados para ingressar em supostos “batalhões de elite”.
Procurada, Azarnykh negou irregularidades, classificou a investigação como “não profissional” e ameaçou processar a BBC por difamação. O Ministério da Defesa e o Ministério das Relações Exteriores da Rússia não responderam aos pedidos de comentário.
Em 2022, o presidente Vladimir Putin declarou apoio ao recrutamento de estrangeiros, afirmando que voluntários do Oriente Médio eram motivados por ideologia, e não por incentivos financeiros.
