‘Sinto minha mãe presente como sempre senti. Estou fazendo o que ela me ensinou’, diz Emicida sobre luto

 

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“É Hitchcock!”, compara Emicida ao contar como dedica-se à modular a emoção de seus ouvintes, do suspense à ansiedade, como fazia o mestre do cinema. É nessa dimensão que o rapper, autor e apresentador estruturou seu novo álbum “Emicida Racional VL 2 - Mesmas Cores & Mesmos Valores”, que terá o show da turnê levado ao Rio neste sábado, com a produtora 30e, no Vivo Rio.

— A música sempre acontece em dois campos distintos. Existe a dimensão instrumental, capaz de levar você para um determinado estado de espírito. Pode deixar você mais feliz, agora uma outra sequência de notas deixa você mais para baixo — inicia. — Às vezes a gente nem percebe como esses recursos são usados dentro da composição musical, saca? Existe a segunda dimensão, onde essa comunicação acontece com o seu racional, o que está sendo dito, o que você entende da letra. O raciocínio passa pelos dois campos.

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O trabalho — sonoro e racional — era fruto de um desejo de reverenciar justamente os Racionais MC’s, que revolucionaram o rap e a música no Brasil desde sua formação no fim dos anos 1980. “Cores & Valores” (citado no título do novo álbum de Emicida), inclusive, é o nome do álbum de estúdio lançado por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay há 12 anos. Antes de chegar ao público, o novo projeto foi apresentado por Emicida aos quatro.

Até a hora decisiva em que os encontrou no estúdio, o compositor não tinha dimensionado que se o “Emicida Racional” não agradasse, poderia ressoar muito além do novo álbum em si — mas impactar camadas mais profundas de sua identidade. Os homenageados, felizmente, gostaram.

Mano Brown, ao ouvir, disse que o trabalho era “original”. E seguiu: “mesmo sendo uma homenagem aos Racionais, ou alguma coisa nesse sentido. Dá para ver que é o Emicida”.

— O não (gostei) nesse lugar não desestrutura a carreira, desestrutura o ser humano. Curiosamente, eu não pensei nisso até o dia que eu fui mostrar — conta Emicida. — Não é só uma homenagem, uma releitura. A paixão, em primeiro lugar, é pela linha de raciocínio, por como aquele pensamento é frutífero. E parece ter sido compreendido de maneira muito superficial. Porque a maior parte da audiência está muito obcecada com o estereótipo que se tem a respeito dos Racionais. Apenas uma dimensão menor da audiência consegue realmente se aprofundar na dimensão intelectual daquela estrutura semântica.

O ano parece estar especialmente movimentado para Emicida, que já tem datas da turnê marcadas para acontecer em Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte, entre outras participações em festivais. Antes disso, Emicida vai aparecer nas prateleiras das livrarias com dois trabalhos. Trata-se de “A Volta Por Cima” e “Conta Comigo” (Companhia das Letrinhas), duas produções infantis escritas pela economista francesa, ganhadora do Prêmio Nobel, Ester Duflo, comentadas por Emicida. Os livros falam sobre empreendedorismo, da importância do microcrédito e de trabalhar em rede.

Emicida sobre luto: ' a relação acontece num outro campo'

Maria Isabel Oliveira/O Globo

Ao ser perguntado se falar e ganhar dinheiro no rap ainda é tabu, ele vê uma perspectiva maior no cenário.

— Enquanto sociedade a gente tem um tabu de falar sobre dinheiro. E isso está ligado à forma como as relações são estruturadas. Como são assimetrias muito severas, sempre existe um campo constrangido de dizer que gostaria de ser melhor valorizado. A gente sequer consegue assentar a conversa no objetivo final dela. Que é tipo: não estou só falando sobre trabalho e remuneração. A conversa ela sempre descamba para uma questão existencial que coloca cada um em um espectro — afirma. — E isso está ligado diretamente ao tempo que esse país ficou sob as regras da escravidão. A coluna cervical da economia brasileira durante a maior parte do tempo foi a relação escravos e senhores. Se a gente disser que essa relação não influencia e atrasa muito o potencial econômico do país até hoje, a gente vai estar mentindo.

Ele diz ver que o trabalho com a professora Esther Duflo aparece para “ampliar a discussão” em soluções socioeconômicas em regiões que enfrentam desigualdades. Defende que as ideias “circulem” entre a América Latina, partes da Ásia e da África, por exemplo.

— Agora eu vou divagar no nível estratosférico: a gente precisa de um banco de soluções. Sacou? Um banco de soluções sociais. Sei lá, uma brisa dessa — pensa.

Recentemente, Emicida também recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Antes disso, ele já tinha ministrado aulas em universidades da Europa e EUA.

— Para mim isso é uma consequência óbvia do tipo de condução como a que eu faço, a que o Racionais faz, a que a (filósofa e autora) Sueli Carneiro faz — afirma. — Estamos entrando numa fase onde as universidades vão ser medidas pela quantidade de soluções positivas com as quais elas estão relacionadas no planeta. É transcender o muro e alcançar o pleno potencial das ideias — defende.

Entre novos trabalhos, títulos acadêmicos e os livros infantis, Emicida também precisou lidar com a ruptura com o irmão Fióti, com quem criou a empresa Laboratório Fantasma, em 2009. Diferenças em relação à administração da sociedade e divisão dos lucros levou a dissolução da sociedade à Justiça, onde tramita uma ação sobre o caso. Emicida prefere não falar muito sobre o tema.

— Não posso falar muito por conta do processo judicial. Está tudo no mesmo pé. Torcemos aqui, para que a coisa encontre o melhor dos caminhos —diz.

Houve, ainda, na vida do artista uma grande dor de ordem pessoal. A morte de dona Jacira, sua mãe, aos 60 anos, em julho do ano passado. É a voz dela, inclusive, que se ouve em primeiro lugar no novo álbum. Ela diz, logo no início, “Oi, bom dia, amore! Como que está aí campeão, quando você volta?” na primeira faixa, que ganha o nome de “Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior)”.

— O fato da presença física de alguém que você ama não ser mais parte dessa dimensão da realidade não significa que você precise exterminar a relação, ela acontece num outro campo — pensa. — A morte é parte da vida, não preciso me desviar desse episódio para continuar amando a presença da minha mãe. Muito pelo contrário, ela só foi para um outro plano existencial. Sinto minha mãe presente como sempre senti. Parar na passagem dela seria trair tudo que ela fomentou a vida inteira. No final, só estou fazendo o que ela me ensinou, que é ficar forte pelas meninas (as filhas Estela , de 16 anos, e Teresa de 8).

E, emociona-se:

— Viu? Às vezes eu dou uma choradinha — diz, sem conseguir conter as lágrimas.