Símbolos da desigualdade: Como vestido de líder da Venezuela expõe razões para maior crise migratória da América Latina
Desde criança, Adelaida sabia que um dia deixaria a Venezuela. A ideia de conhecer novos lugares sempre a atraiu. Mas foi só na vida adulta que a decisão ganhou outros contornos: o peso de ser mulher em um dos países mais desiguais do mundo; a inflação descontrolada e a baixa qualidade de vida foram cruciais para que ela decidisse, em novembro de 2024, partir rumo ao Brasil. Aos 27 anos, a jovem sintetizou: “No meu país, dizemos que pessoas da minha geração nasceram ‘na revolução’ — o início do governo de Hugo Chávez (1999-2013) — e só conhecem isso. Eu, porém, decidi sair do meu núcleo familiar e começar uma nova etapa.”
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Adelaida é uma entre os quase 8 milhões de venezuelanos que fugiram do colapso social, político e econômico do país desde 2014. A crise migratória tornou-se a maior da História da América Latina, com uma maré humana que rivaliza — e por alguns critérios supera — o auge do êxodo sírio, em 2017. Na época, a agência da ONU para os refugiados (Acnur) registrou cerca de 5,8 milhões de sírios nos principais países de acolhida (Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito), algo em torno de 25% dos habitantes pré-guerra. No caso venezuelano, os números de refugiados e migrantes no exterior somam cerca de 28% da população.
Pouco após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em uma operação militar relâmpago em Caracas nos primeiros dias de janeiro, a posse de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela trouxe à tona um símbolo que ajuda a explicar ao menos parte dos motivos da diáspora: mais do que o discurso de compromisso com a “paz” e o “bem-estar econômico e social” feito por ela, foi o contraste visual da cerimônia que reverberou. O vestido de luxo usado por Delcy, avaliado em cerca de US$ 742 (R$ 3.985) tornou-se uma representação explícita do abismo entre a elite governante e uma nação empobrecida.
Delcy Rodríguez toma posse como presidente da Venezuela em sessão da Assembleia Nacional, em Caracas, dois dias após a captura de Nicolás Maduro em operação militar dos EUA
Marcelo Garcia / Miraflores press office / AFP
Nas redes sociais, usuários calcularam que, com um salário mínimo equivalente a cerca de US$ 0,42 (R$ 2,26) por mês, um trabalhador venezuelano levaria aproximadamente 147 anos para economizar o valor necessário para comprar a peça usada na cerimônia. Mais do que a polêmica pontual, o episódio cristalizou uma percepção que acompanha a crise migratória desde seu início: a de um Estado que preserva padrões de consumo de luxo no topo enquanto empurra parcelas crescentes da população para fora de suas fronteiras.
Crise estrutural
A crise da última década deixou marcas profundas: salários foram dizimados, preços dispararam, a escassez de bens essenciais se generalizou e os serviços públicos entraram em colapso. O resultado foi o êxodo maciço, com milhões de venezuelanos deixando o país em busca de refúgio. Em 2015, o Banco Central da Venezuela, sob o controle de Maduro, deixou de divulgar dados econômicos mensais, enquanto a censura à imprensa se intensificava. A popularidade do chavismo, em queda desde 2014, jamais voltou a se recuperar. Em 2019 e 2020, a economia registrou indicadores típicos de países em guerra.
Hoje, a Venezuela enfrenta uma das piores crises econômicas da história recente do Hemisfério Ocidental. Cerca de 80% da população vive abaixo da linha da pobreza, e quase 53% em extrema pobreza, sem acesso adequado a bens e serviços essenciais, incluindo alimentos e remédios. Sob uma recuperação frágil e sustentada quase exclusivamente pela produção de petróleo, o país enfrenta vulnerabilidades estruturais profundas que ameaçam sua estabilidade no longo prazo. Para 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta inflação de 629% no país.
— A economia venezuelana sofreu talvez o maior colapso em tempos de paz de qualquer país na história moderna, encolhendo mais de três quartos do seu tamanho. Embora tenha havido algum crescimento nos últimos anos, isso é uma gota no oceano diante do que foi perdido. Mais uma vez, a Venezuela está à beira da recessão, mas agora nem mesmo a válvula de escape da emigração está disponível para a maior parte da população — disse ao GLOBO o analista Phil Gunson, do International Crisis Group (ICG).
Políticas migratórias
Desde o início da diáspora, cerca de 6,5 milhões de venezuelanos se estabeleceram na América Latina e no Caribe. Mais da metade deles vive hoje na Colômbia (2,81 milhões) e no Peru (1,6 milhão) — um grupo de pessoas que supera a população do Panamá. O Brasil aparece logo na sequência como o terceiro país com mais venezuelanos na região (738 mil), embora desde 2018 mais de 1,3 milhão tenham passado pelo território, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Naquele ano, o governo federal lançou a Operação Acolhida, uma colaboração inédita com agências da ONU e organizações não-governamentais para responder à crise migratória.
— A migração na Venezuela ocorreu em ondas. Começou em um contexto de prolongado desgaste democrático e institucional e foi acentuado por uma grave crise política. Esses fatores estruturais foram intensificados por sucessivas ondas de repressão estatal e pela imposição de sanções excessivamente severas dos EUA sobre setores estratégicos da economia venezuelana — disse ao GLOBO Renata Segura, diretora do Programa para a América Latina e Caribe do ICG.
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Como consequência, acrescentou, a migração tem transformado profundamente o país, especialmente nas dinâmicas e vínculos familiares. A atualização mais recente da Encuesta Nacional de Condiciones de Vida (ENCOVI), publicada pela Universidade Católica Andrés Bello em 2024, mostra que os efeitos da migração são visíveis no envelhecimento da população, na redução do tamanho das famílias e no aumento da proporção de mulheres assumindo o papel de chefes de casa. Ao mesmo tempo, migrantes venezuelanos enfrentam violência, estigmatização, exploração e discriminação tanto ao longo das rotas migratórias quanto nos países de destino.
Mapa mostra áreas onde refugiados e migrantes estão concentrados
Editoria de Arte/O Globo
Restrições de mobilidade, além de políticas frágeis de regularização e episódios recorrentes de discriminação e xenofobia nos países vizinhos empurram muitos venezuelanos para rotas cada vez mais perigosas. A mais emblemática talvez seja a densa selva de Darién, na fronteira entre Colômbia e Panamá, onde migrantes são frequentemente expostos nas abusos e travessias clandestinas. Em 2023, pelo menos meio milhão de pessoas arriscaram a vida no trecho, mais da metade delas venezuelanos. O fluxo despencou após o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, em janeiro de 2025, e atingiu os níveis mais baixos desde a pandemia, mas não desapareceu.
O fim do Status de Proteção Temporária (TPS) para venezuelanos nos EUA, somado ao endurecimento mais amplo das políticas migratórias do governo Trump, aumentou a incerteza e o medo entre os migrantes. Ao mesmo tempo, para quem permanece na Venezuela, o temor também é predominante: embora Delcy tenha assumido a Presidência interina, não está claro como será feito o controle das Forças Armadas e os aparatos de segurança que sustentaram o chavismo por mais de duas décadas. A permanência no país de figuras como o ministro venezuelano Diosdado Cabello, considerado um dos principais nomes da ala dura do governo, alimenta temores de represálias, fechamento do espaço político e violência.
— Tentativas de desestabilizar o governo na Venezuela, porém, podem desencadear uma série de crises humanitárias, incluindo novas ondas de deslocamento e migração — disse Renata. — Um vácuo de governança poderia, por exemplo, aumentar os riscos apresentados por grupos armados e criminosos, agravando a insegurança para os civis. Choques econômicos associados a um confronto militar piorariam ainda mais uma situação que já é crítica para muitas famílias.
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Antes da queda de Maduro, um estudo do Niskanen Center que simulava fluxos de refugiados diante de diferentes cenários de ação militar americana estimou que eventuais ataques dos EUA poderiam forçar entre 1,7 milhão e 3 milhões de pessoas a deixar a Venezuela em poucos anos. Se o embate se prolongasse, o número de deslocados poderia ultrapassar 4 milhões, pressionando ainda mais países vizinhos. Ainda que o cenário tenha mudado desde que a pesquisa foi divulgada, em novembro, muitas dúvidas permanecem: os EUA, ao apresentarem seu plano de três etapas para o futuro do país sul-americano, alertaram que ainda podem exercer influência sobre o país “por anos”.
— É bem sabido o histórico que outros países têm após encontros desse tipo com os EUA. Não gostaria de ver meu país, que é muito novo na história mundial e onde há um nível considerável de ignorância, se entregar à ideia de que, na desesperança, alguém virá nos salvar e resolver todos os nossos problemas — disse Adelaida. — Mas sinto que isso é algo que, como venezuelana, não posso controlar.
