Silvio Santos e Roberto Carlos são os artistas que mais dão orgulho aos brasileiros, diz pesquisa; veja lista
Há um novo contorno no mapa cultural do Brasil. A terra do samba, do banquinho e do violão está mais alinhada hoje ao sertanejo, à música gospel e ao piseiro. Cheio de pequenos detalhes, o retrato dos gostos e práticas de lazer dos brasileiros ganha nitidez por meio de uma nova pesquisa da TV Globo — realizada em parceria com a Quaest — que traça um painel inédito, e revelador, sobre a identidade nacional.
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Os dados, apresentados num summit durante o Rio2C (e disponíveis no site gente.globo.com), ajudam a direcionar a criação de conteúdos de entretenimento num país que tem como principal marca uma escancarada “pluralidade singular”, como afirma Felipe Nunes, CEO da Quaest e idealizador do estudo “A cultura no espelho” junto a Suzana Pamplona, diretora de pesquisa e conhecimento da Globo.
Carência de ídolos
Derivação do mapeamento “O Brasil no espelho”, recentemente publicado em livro, a nova análise aponta que determinados clichês seguem firmes como a fotografia ideal do país. Na prática, porém, a imagem é outra. Exemplos: samba e pagode, embora sejam as preferências musicais de apenas 9% dos cidadãos — contra o sertanejo, com predileção de 26% — aparecem como os ritmos mais representativos da nação para 23%.
— Essa realidade mostra que o consumo não está atrelado necessariamente à representatividade — diz Felipe Nunes.
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Apesar de gastronomia e música serem os temas que mais despertam identificação — 9% e 21% associam a cultura brasileira a tais tópicos, respectivamente —, isso não se traduz num forte sentimento de pertencimento. Atualmente, apenas 20% dos brasileiros afirmam se sentir “muito representados” pela cultura nacional, enquanto 48% se dizem “pouco representados” e 29%, “nada representados”.
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A pesquisa indica ainda que os ídolos que mais orgulham os brasileiros são, em sua maioria, figuras do passado — no esporte, Ayrton Senna e Pelé; na cultura, Silvio Santos e Roberto Carlos. Eis um dado aparentemente banal, mas que levanta uma questão crucial para criadores e produtores: o país está, talvez, carente de novas referências.
— Na era dos influencers, os profissionais da internet parecem dar muito pouco orgulho aos brasileiros, e este é um recado importante — ressalta Nunes. — Precisamos voltar a pensar estrategicamente em como usar a cultura para criar ídolos, ou seja, para projetar pessoas que serão vistas como um modelo para a sociedade.
O conceito difuso de cultura — 25% não sabem dizer o que o termo designa — revela barreiras de acesso e formação e expõe como o consumo de bens e atividades artísticas no Brasil é fragmentado. Mais do que isso, evidencia como a ideia de identidade coletiva se constrói no cotidiano de formas muito distintas.
Alguns resultados do estudo
O que é cultura brasileira?
Música: 21% | Comida: 9% | Festa: 7% | Esporte: 6% | Não sabe responder: 22%
Tipo de música preferido
Sertanejo: 26% | Religiosa/cristã/gospel: 16% | Forró/piseiro/arrocha: 10% | Samba/pagode: 9% | MPB: 8%
Música que representa o país
Sertanejo: 25% | Samba/pagode: 23% | MPB: 14% | Forró/piseiro/arrocha: 12% | Religiosa/cristã/gospel: 5%
Artista que dá mais orgulho
Outros: 23% | Não sabe responder: 18% | Nenhum: 12% | Silvio Santos: 7% | Roberto Carlos: 6% | Fernanda Montenegro: 3% | Tony Ramos: 2% | Antonio Fagundes: 2% | Tarcísio Meira: 2% | Marília Mendonça: 2% | Luiz Gonzaga: 2% | Alcione: 2% | Gilberto Gil: 1% | Tim Maia: 1% | Amado Batista: 1% | Lima Duarte: 1% | Caetano Veloso: 1% | Cazuza: 1% | Chico Buarque: 1% | Chico Anysio: 1% | Djavan: 1% | Renato Russo: 1% | Gusttavo Lima: 1% | Tom Jobim: 1% | Raul Seixas: 1% | Machado de Assis: 1% | Anitta: 1% | Lázaro Ramos: 1% | Zeca Pagodinho: 1% | Elis Regina: 1% | Milton Nascimento: 1%
Esportista ou atleta que dá mais orgulho
Ayrton Senna: 22% | Pelé: 21% | Não sabe responder: 15% | Nenhum: 10% | Neymar: 5% | Outros: 4% | Ronaldinho Gaúcho: 4% | Marta: 3% | Rebeca Andrade: 2% | Daiane dos Santos: 2% | Ronaldo Nazário (Fenômeno): 2% | Zico: 2% | Vinícius Júnior: 1% | Guga (Gustavo Kuerten): 1% | Raissa Leal: 1% | Romário: 1% | Garrincha: 1% | Gabriel Medina: 1% | Cafu: 1% | Anderson Silva: 1%
Veja o resultado completo da pesquisa na Plataforma Gente
Foco no ‘hiperlocal’
Não à toa, grandes conglomerados de mídia tentam descentralizar, cada vez mais, a própria produção. Hoje, entre os mais de 200 projetos em desenvolvimento pela TV Globo, praticamente a metade é realizada junto ao mercado independente. O advento de novos modelos de negócio — como licenciamentos e coproduções, formas cada vez mais exploradas pelo mercado — busca espelhar a diversidade que compõe um país de proporções continentais.
O diretor Gabriel Martins no set do filme "Vicentina pede desculpas"
Divulgação / Netflix
Um dos projetos recém-renovados pela emissora já colocou no ar 13 telefilmes produzidos com afiliadas — todos foram exibidos em rede nacional, na faixa “Tela Quente”, nas noites de segunda-feira. A proposta visa justamente fortalecer indústrias regionais e estabelecer um olhar mais abrangente sobre o país ao pôr a lupa em aspectos locais.
— O Brasil possui uma infinidade de possibilidades narrativas. O que a gente observa, agora, é que a audiência quer ver essa textura cultural. Faz parte de uma visão estratégica buscar histórias hiperlocais — indica Gabriel Jacome, diretor de conteúdo da TV Globo, que participou de uma mesa sobre o assunto no Rio2C.
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Multinacional do streaming, a Netflix segue um caminho parecido. Para ampliar a diversidade no catálogo — tanto com novidades quanto com produções clássicas —, a empresa tem experimentado diferentes formas e acordos de trabalho. Produções com selo próprio, como “Cabras da peste” (2021), “Inexplicável” (2024) e o inédito “Vicentina pede desculpas”, ilustram esse esforço de ampliar a pluralidade de vozes, cenários e sotaques. O tópico foi detalhado em outra mesa do Rio2C.
— Nosso objetivo é ter sempre os filmes, as séries, as novelas e os documentários que o público quer ver... E nosso público é diverso. Então, precisamos de uma gama ampla de conteúdos — afirma Barbara Adams, head de licenciamento da Netflix Brasil.
Religiosidade em alta
Outro achado relevante da pesquisa “Cultura no espelho” ajuda a compreender o espaço crescente ocupado por narrativas de fé na indústria cultural. Entre todas as dimensões analisadas, a chamada “cultura religiosa” aparece como a mais vivenciada pelos brasileiros, superando inclusive a “cultura de mídia”, que envolve televisão, internet, redes sociais, rádio e cinema.
Cena de "Nosso lar 2: Os mensageiros"
Divulgação
Os dados encontram eco no setor audiovisual. Em outra mesa do Rio2C, realizadores destacaram a expansão dos conteúdos de espiritualidade no mercado nacional, algo impulsionado por tramas capazes de dialogar com públicos que vão além dos praticantes de uma religião específica.
Um marco temporal nesse segmento foi o filme “Nosso lar”(2010), baseado no livro homônimo de Chico Xavier. Somando a continuação da obra lançada em 2024, foram mais de cinco milhões de espectadores nos cinemas. Segundo o diretor do filme, Wagner de Assis, a audiência chegou a 40 milhões, contando todos os formatos, entre televisão e streaming.
— Semanalmente, recebo mensagem de algum lugar do mundo sobre o filme — celebra o realizador.
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Para Ygor Siqueira, CEO da Heaven Content & 360 WayUp, produtora dedicada a filmes do gênero, os números reforçam a consolidação desse mercado. Não há mais ponto de retorno, é um filão que veio para ficar, como sublinha.
— Há 15 anos, a gente chegava para o exibidor, mas ninguém acreditava no projeto. Ao longo dos últimos dez anos, porém, o mercado do cinema cristão se consolidou — analisa. — Hoje os exibidores já estão falando: “Me tragam projetos, por favor”.
