Silêncio de Michelle sobre Flávio é interpretado como tentativa de se manter no páreo e irrita filhos de Bolsonaro
A reação de Michelle Bolsonaro à crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu um novo foco de tensão dentro da própria família Bolsonaro. Segundo relatos feitos ao GLOBO, Carlos e Eduardo Bolsonaro reclamaram a aliados da ausência de uma defesa pública mais enfática da ex-primeira-dama após ela evitar comentar o caso e afirmar, na noite de terça-feira, que perguntas sobre o tema deveriam ser feitas “ao próprio Flávio”.
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A fala provocou irritação imediata entre aliados mais próximos dos filhos do ex-presidente, que esperavam que Michelle aproveitasse a primeira abordagem pública sobre o tema para fazer algum gesto de solidariedade ao senador diante da crise aberta pelas mensagens, áudios e pela revelação de que Flávio procurou Vorcaro pessoalmente após a primeira prisão do banqueiro.
O desconforto aumentou ainda porque, no mesmo evento em Brasília, Michelle também se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como “irmão em Cristo”. Ao comentar a autorização dada pelo magistrado para que Jair Bolsonaro recebesse um cabeleireiro durante o período de prisão domiciliar, a ex-primeira-dama afirmou:
— Vou profetizar aqui, porque Deus transformou Saulo em Paulo. Nosso irmão em Cristo, Alexandre de Moraes, liberou o cabeleireiro.
A declaração foi interpretada por parte do entorno bolsonarista como um novo gesto de distensão em relação ao ministro, relator da execução penal de Bolsonaro no STF, e ampliou a irritação entre aliados mais ideológicos do ex-presidente.
Nos bastidores do bolsonarismo, a postura de Michelle passou a ser interpretada pelos filhos de Bolsonaro como um movimento para manter distância da crise enfrentada por Flávio e preservar o próprio espaço político diante das discussões cada vez mais frequentes dentro do PL sobre possíveis alternativas à candidatura presidencial do senador.
A avaliação entre integrantes do núcleo político ligado a Carlos e Eduardo é que o silêncio da ex-primeira-dama acabou reforçando dentro do partido a percepção de que Michelle prefere manter preservada a própria condição de eventual alternativa eleitoral caso a situação de Flávio continue se deteriorando nas próximas semanas.
Interlocutores próximos à ex-primeira-dama, porém, negam qualquer cálculo político por trás da postura dela e rejeitam a interpretação de que Michelle esteja tentando se preservar como alternativa eleitoral ao enteado. Segundo aliados, a prioridade dela hoje está voltada aos cuidados com Jair Bolsonaro, que segue em prisão domiciliar, e não à disputa interna por espaço político dentro do PL.
Esses interlocutores afirmam ainda que Michelle não pretende entrar diretamente na operação de contenção de danos da campanha de Flávio nem transformar a crise envolvendo Vorcaro numa disputa familiar pública.
Nos bastidores do PL, porém, a postura da ex-primeira-dama passou a ser interpretada como mais um sinal de que ela continua preservando a própria posição política caso Jair Bolsonaro decida discutir mudanças no cenário presidencial da direita.
Como mostrou o GLOBO, dirigentes do partido passaram a trabalhar com um prazo de cerca de 15 dias para medir os efeitos da crise envolvendo Vorcaro sobre a viabilidade da candidatura de Flávio. Nesse ambiente, o nome de Michelle voltou a circular com mais intensidade entre parlamentares, dirigentes partidários e lideranças evangélicas como alternativa capaz de herdar diretamente o capital político do ex-presidente.
A relação entre Michelle e os filhos de Bolsonaro já vinha atravessando momentos de desgaste nos últimos anos. Integrantes do entorno bolsonarista lembram, por exemplo, do mal-estar provocado após Flávio sinalizar apoio a uma aliança com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, movimento criticado publicamente pela ex-primeira-dama nas redes sociais.
