Silêncio de aliados diante de investigações da PF expõe isolamento de Castro em desistência de candidatura

Silêncio de aliados diante de investigações da PF expõe isolamento de Castro em desistência de candidatura

 

Fonte: Bandeira



Alvo de duas operações recentes da Polícia Federal e isolado internamente no PL, o ex-governador Cláudio Castro oficializou ontem que desistiu de concorrer ao Senado pelo Rio. Segundo ele, a decisão tem como objetivo dedicar mais tempo à construção da defesa nos processos em que é investigado, sobretudo o caso Master e o que envolve a refinaria Refit, que renderam mandados de busca e apreensão este mês. As principais opções para substitui-lo na chapa são os deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy.

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Em vídeo nas redes sociais, Castro alegou que tem sido vítima de “narrativas” que estão criminalizando “atos que eram corretos”. Disse ainda que “não tem dúvida de que a verdade será esclarecida”.

— Então, eu resolvi retirar a minha candidatura ao Senado Federal para focar completamente na minha defesa — afirmou.

A operação de terça-feira, focada no Master, marcou um distanciamento definitivo do PL, que silenciou sobre mais um episódio a atingir o ex-governador. Apesar de filiado ao partido desde maio de 2021, Castro não recebeu palavras de apoio das principais figuras da sigla no estado, tampouco do diretório nacional.

Entre dirigentes do partido, a ordem é buscar evitar que os problemas dele contaminem outros quadros do PL, sobretudo o presidente da Assembleia Legislativa e pré-candidato ao governo, Douglas Ruas. Ruas, aliás, foi um dos que nada disseram depois da operação. Também silenciaram o presidente estadual do partido, Altineu Côrtes, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, o diretório nacional da legenda e o presidenciável Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio.

A ausência de solidariedade a Castro contrasta com outros episódios recentes, como a inelegibilidade imposta a ele pela Justiça Eleitoral no caso Ceperj. Naquele momento, embora correligionários já demonstrassem nos bastidores incômodo com o ex-governador, houve uma tentativa de fingir que estava tudo bem em público. Mesmo inelegível, seguiu como pré-candidato.

Fato é que o governador e dirigentes locais do PL sempre tiveram desavenças. Os nomes que Castro tentou viabilizar para sua sucessão no governo, por exemplo, eram sempre de outros partidos, como Rodrigo Bacellar (União) e Dr. Luizinho (PP).

A decisão também provocou um terremoto político nos bastidores da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), abrindo uma crise silenciosa entre antigos aliados. Em reservado, parlamentares avaliam que o ex-governador ainda pode ser alvo de novas frentes de investigação da Polícia Federal e o temor é que o avanço das apurações contamine candidaturas associadas ao antigo núcleo político do Guanabara.

O PL avalia que colar candidatos da sigla na imagem do ex-governador vai ser uma das estratégias do grupo político do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao Palácio Guanabara. É por isso que a ordem agora é tentar se afastar — se necessário, fazendo críticas ao correligionário.

Ao anunciar a saída do jogo, Castro também disse que, em momentos pré-eleição, “reputações são destruídas sem o menor pudor, simplesmente por uma busca incessante por poder”. Depois, em nota, argumentou ainda que “a decisão foi tomada após profunda reflexão pessoal e familiar, diante das últimas semanas marcadas por forte exposição pública, acusações, ataques e episódios que atingiram não apenas sua trajetória política, mas também sua família”.

Possíveis nomes

Com a saída do ex-governador, o PL pode enfim fazer em público o que já fazia nos bastidores: construir uma alternativa para a eleição. Na avaliação de parte da cúpula partidária, o nome que reúne mais apoio é o de Sóstenes Cavalcante.

Quem defende a escolha pelo parlamentar afirma que ele ganhou força nos últimos dias por combinar fatores considerados estratégicos para o bolsonarismo no Rio: forte inserção entre lideranças evangélicas, trânsito consolidado no interior do estado e perfil alinhado ao núcleo ideológico mais fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Nas três eleições com duas vagas para o Senado neste século, algum candidato ligado a igrejas foi eleito.

Procurado, o deputado afirmou que é “soldado” do partido. Integrantes da legenda ponderam que a definição ainda não está completamente fechada e que outras alternativas seguem sendo avaliadas.

Entre os nomes monitorados está o do deputado federal Carlos Jordy, que há meses se movimenta com o objetivo de disputar o Senado e voltou a ganhar espaço nas conversas após o enfraquecimento político de Castro. Jordy tem apoio de parte da ala mais ideológica do partido e mantém contato com setores importantes do bolsonarismo fluminense. Pesa contra o parlamentar, no entanto, a menor capilaridade com prefeitos.

Novo julgamento

Outro nome lembrado é o do senador Carlos Portinho. Apesar de aliados avaliarem que ele tem boa interlocução política e perfil técnico elogiado dentro da sigla, dirigentes ponderam que Portinho nunca disputou uma eleição majoritária própria no estado — ele assumiu o mandato após a morte do senador Arolde de Oliveira, em 2020.

Quem vê dificuldades na opção Portinho afirma ainda que o senador já vinha trabalhando por uma vaga na Câmara. Hoje, ele também atua na coordenação da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

Além do futuro político indefinido, Castro terá na próxima terça-feira, 2 de junho, um novo passo para definir sua situação jurídica. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) marcou o julgamento do recurso do ex-governador contra a condenação por abuso de poder político e econômico que o tornou inelegível até 2030. A principal discussão da Corte está ligada à possibilidade de cassação do diploma de Castro, com a consequente ordem para realização de eleições diretas para o Executivo fluminense.

O ex-chefe do Palácio Guanabara foi condenado pelo uso indevido da estrutura da Fundação Ceperj e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) para contratação de cabos eleitorais, com distribuição de cargos e recursos públicos a fim de ampliar apoio político durante o período eleitoral.

Em outra frente jurídica, o presidente da Alerj, Douglas Ruas, pediu ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux para assumir o governo do Rio sob o argumento de que entrou na linha sucessória do Executivo estadual ao ser eleito para o comando da Casa, em abril.

O governo do Rio é comandado atualmente pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto. No recurso, a Mesa Diretora da Alerj pede a “imediata investidura e efetivo exercício da função de Governador do Estado do Rio de Janeiro pelo legitimado Presidente de sua Assembleia Legislativa até o julgamento final por este E. Supremo Tribunal Federal”.

Opções consideradas para a chapa majoritária:

Carlos Jordy: O deputado já tinha manifestado interesse em disputar o Senado e volta ao radar do PL. Ele tem apoio da ala mais ideológica da sigla, mas enfrenta resistência por ter pouca capilaridade entre os prefeitos do Rio.

Sóstenes Cavalcante: O líder do PL na Câmara dos Deputados ganhou força no PL para disputar o Senado no lugar de Castro. Ele reúne apoio evangélico, tem trânsito no interior e é alinhado ao núcleo ideológico mais fiel a Jair Bolsonaro.

Rogéria Bolsonaro: A mãe de Flávio Bolsonaro passou a ser cogitada pela força do sobrenome, que anima aliados por causa do potencial de mobilização. O que pesa contra é a pouca experiência, que preocupa o filho presidenciável.

Carlos Portinho: Aliados destacam perfil técnico e articulação política de Portinho, mas pesa a falta de experiência em disputar eleição majoritária. Ele assumiu o mandato Senado após a morte do senador Arolde de Oliveira, em 2020.