Shakira: o bom momento da cantora (e do pop latino no mundo) devem ajudá-la no desafio de trazer milhões de pessoas às areias de Copacabana
Shakira pode não ser o ideal, segundo as regras da escassez que a produtora Bonus Track estabelece para as atrações que traz ao Todo Mundo no Rio (Madonna e Lady Gaga não vinham ao Brasil há pelo menos uma década quando se apresentaram na Praia de Copacabana, respectivamente em 2024 e 2025; a colombiana fez shows no Brasil no começo do ano passado).
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Mas sua confirmação como atração principal do show da praia no dia 2 de maio (antecipada esta quarta-feira em nota do colunista de O GLOBO Lauro Jardim) se beneficia de um timing perfeito: não só na carreira de Shakira, mas no timing do pop global, em que, sob a liderança do porto-riquenho Bad Bunny, os latino-americanos é que mandam.
Aos recém-completados 49 anos de idade, Shakira é a estrela que caminhou para que Bad Bunny, de 31, pudesse correr. Em 1998, época em que bandas, da Argentina ao México, tentavam emplacar nos Estados Unidos e na Europa o movimento do Rock en Español, foi a roqueira mal saída da adolescência quem fez os maiores avanços.
Produzido nos EUA pelo midas do pop latino Emilio Estefan, o álbum “Dónde están los ladrones?” abalroou a parada latina do país com “Ciega, sordomuda”, “Tú” e “Ojos así”, a canção em que ela explicitou suas raízes libanesas, inclusive com a incorporação de movimentos da dança do ventre.
Em 2005, bem estabelecida nos EUA, Shakira inovaria ao lançar dois álbuns: um em espanhol, para o mercado latino (“Fijación oral, Vol. 1”) e o seu segundo em inglês (“Oral fixation, Vol. 2”). O disco não ia lá muito bem de vendas em 2006 quando a gravadora teve a ideia de relançá-lo com uma faixa bônus, “Hips don’t lie”, com participação de Wyclef Jean, rapper dos Fugees.
A canção — que incorporava elementos do reggaeton, estilo de porto-rico que começava a despontar para o mundo com o “Gasolina” de Daddy Yankee (e, uma década depois, daria em Bad Bunny) — chegou ao topo das paradas nos EUA, na Austrália e em toda a Europa, virando não só um dos maiores sucessos do ano, como consolidando, enfim, a carreira internacional da colombiana.
Uma carreira que, por sinal, seguiu de maneira estável ao longo dos anos, mas que teve uma espetacular reviravolta (bem próxima de um renascimento), quando em 2022, após 12 anos de casamento com o jogador espanhol Gerard Piqué (com o qual teve dois filhos, Milan e Sasha) ela se descobriu traída e acabou com tudo.
Lançada em 2023, a música em que ela contou a sua versão do caso, “Shakira: Bzrp Music Sessions, Vol. 53”, com o DJ argentino Bizarrap, simplesmente dominou o streaming global e registrou o maior número de visualizações no YouTube na categoria de música latino-americana, com versos de puro veneno como “você trocou um Rolex por um Casio”.
Na sequência, em 2024, ela lançou o álbum “Las mujeres ya no lloran”, um documento de todo o processo de queda, dor e superação, buscando legitimidade na exposição brutal de sentimentos e esfumaçando as barreiras entre arte e vida, poesia e diário. Concorrendo, naquele ano, com álbuns de mulheres peso pesado do pop, como Taylor Swift, Beyoncé, Ariana Grande, Billie Eilish e Katy Perry, o disco de Shakira chegou ao 13º lugar na parada americana e ao primeiro das de pop latino.
Iniciada em 11 de fevereiro de 2025, no Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro, a turnê de “Las mujeres ya no lloran” (que ela, supostamente, trará de volta à cidade em maio) iria ainda melhor que o disco (por sinal, ganhador do Grammy de melhor álbum de pop latino) — e quebraria o recorde de turnê latina de maior bilheteria já feita por uma mulher. Os primeiros 64 shows (dos 82 agendados) renderam US$ 327,4 milhões de bilheteria, com 2,5 milhões de ingressos vendidos.
Com uma passada por sua história de sucessos (que começou, para além da Colômbia, em 1995, com o estouro da música “Estoy aqui”), o atual show de Shakira se espalha pelo rock, pelo dance e pelas latinidades dançantes — o reggaeton, por sinal, come solto em “Copa vacía”, “La bicicleta” e “TQG”, hit da nova estrela latina (e também colombiana) Karol G — com desvios para, por exemplo, a explosão de cores africanas do “Waka waka (this time for Africa)”, a música oficial que ela gravou para a Copa do Mundo de 2010.
E não faltam, é claro, os hits da vingança, caso de “Shakira: Bzrp Music Sessions, Vol. 53” e de “Soltera”, que diz tudo na letra: “Tenho o direito de me comportar mal para me divertir/ estou livre e posso fazer o que eu quiser agora/ é ótimo ser solteira”.
Na Praia de Copacabana, a cantora poderá também fazer suas surpresas especialmente preparadas para o público brasileiro, que ela conhece bem, desde os tempos em que frequentava o sofá da apresentadora Hebe Camargo (e não é de hoje que seu português é impecável).
Há que se lembrar que, no show do Engenhão, Shakira cantou o “Mama África” de Chico César — a música da mãe solteira que é empacotadora das Casas Bahia, e que os seus filhos adoram. Outros afagos aos brasileiros são esperados.
Comunicativa, cheia de vontade de contar histórias, quase sempre em português, a renascida Shakira consegue hoje em dia conjugar a adolescente e a mulher madura, num show com tudo que os shows das maiores estrelas do pop têm.
Canções também não faltam — e ela pode deitar e rolar, para um público majoritariamente mais velho, LGBTQIA+ (que veio em caravanas aos shows de Madonna e Gaga) e nem só do Brasil (“Vinimos desde Bolivia para estar a tus pies”, dizia um cartaz no show do Rio, no ano passado).
E, com certeza, nas areias de Copacabana a língua espanhola não será um problema.
