Shakespeare teria rejeitado o streaming, diz a equipe de 'Hamnet'
Se William Shakespeare estivesse trabalhando com cinema hoje em dia, gostaria que seus filmes fossem exibidos nas salas de cinema em vez de irem direto para o streaming. Ou pelo menos é isso que pensam os produtores de “Hamnet”.
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Com o modelo tradicional de negócios de Hollywood abalado pelo crescimento explosivo de empresas como a Netflix, cineastas vêm reagindo com mais força, pedindo aos estúdios que preservem a experiência de ir ao cinema.
E “Hamnet”, a história do luto de Agnes e William Shakespeare pela morte do filho na Inglaterra do século XVI devastada pela peste, é um desses filmes que exigem ser vistos como uma experiência comunitária, disseram seus produtores.
“Mostra como contar histórias é uma arte universal (...) e como as pessoas têm tanta vontade de participar de experiências compartilhadas que realmente lhes permitam se sentir parte de uma história”, disse Nic Gonda, um dos produtores, à AFP.
“O que tem sido muito emocionante no último mês é ver como o que começou como uma exibição nos Estados Unidos agora se expandiu pelo mundo”, acrescentou.
Ao seu lado, a também produtora Pippa Harris, uma das cinco indicadas ao Oscar de melhor filme pela história de amor e luto dirigida por Chloe Zhao, lamentou a transformação dos hábitos de consumo do público.
“Se você diz às pessoas que há um filme no cinema esta semana que elas podem ver em casa na semana seguinte, então elas nem se dão ao trabalho”, disse Harris à AFP.
“Elas pensam: ‘bom, espero chegar ao streaming e vejo em casa’.”
A diretora Chloe Zhao entre a atriz Jessie Buckley e o ator Paul Mescal, de 'Hamnet', no Palm Springs International Film Festival Awards
Lisa O'CONNOR / AFP
A também produtora Liza Marshall afirmou que a ideia de que o streaming é bom o suficiente vai contra o que o dramaturgo defendia.
“É totalmente diferente ver algo na tela grande com um grupo de desconhecidos. Isso é realmente uma experiência incrível”, disse Marshall à AFP.
“É mais urgente do que nunca, à medida que nos isolamos olhando para nossas telas individuais, que nos unamos em uma experiência social. Foi para isso que Shakespeare escreveu suas peças: para que as pessoas estivessem em um mesmo espaço e as apreciassem.”
Luto
“Hamnet”, adaptação do romance de Maggie O’Farrell, concentra-se em Agnes (Jessie Buckley), que precisa cuidar dos filhos do casal enquanto William (Paul Mescal) lida com questões teatrais em Londres.
O filme mistura drama de época, forte simbolismo e um realismo poderoso sob a direção da indicada ao Oscar Chloe Zhao, conseguindo extrair de Buckley uma atuação dilacerante, que a coloca como favorita ao prêmio de melhor atriz.
“Hamnet”, cujos produtores também incluem Steven Spielberg e Sam Mendes, já recuperou três vezes seu orçamento de 30 milhões de dólares — um número que parece continuar crescendo.
Harris reconhece, claro, que chega um momento em que os filmes deixam as salas e passam para as plataformas de streaming.
Mas insiste que preservar uma janela de exibição nos cinemas razoável, entre 45 e 90 dias, é uma maneira muito melhor de gerar valor.
“Acho que a maneira de criar entusiasmo pelas plataformas de streaming é primeiro criar entusiasmo nos cinemas”, disse Harris.
“E então as pessoas querem ver o filme depois na plataforma. Se você o lança diretamente na televisão, não há expectativa. Não se cria nenhum tipo de momento cultural em torno do filme.”
“Hamnet” concorre ao Oscar de melhor filme na cerimônia de 15 de março, em Hollywood, contra “Bugonia”, “F1”, “Frankenstein”, “Marty Supremo”, “Uma batalha após a outra”, “O agente secreto”, “Valor sentimental”, “Pecadores” e “Sonhos de trens”.
