'Seus segredos estão seguros': robô infantil de US$ 60 que promete privacidade expõe milhões de conversas de usuários

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Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

Quando o jornalista Sean Hollister perguntou ao Eiliko se o pequeno robô contaria a alguém o que ouvia, recebeu uma resposta tranquilizadora: “Seus segredos estão seguros comigo”. Minutos depois, o pesquisador de segurança Sammy Azdoufal já havia acessado a transcrição completa da conversa do outro lado do mundo. A demonstração foi publicada nesta quinta-feira (15) pelo The Verge. Azdoufal também alterou remotamente a memória do aparelho, fez o robô inventar a morte dos pais do dono, defender que a Terra é plana e dizer que uma professora estava errada por afirmar o contrário. Vendido por US$ 59,90, o Eiliko pesa 70 gramas, tem uma tela que simula expressões e pode ser pendurado em bolsas como um chaveiro. Quando conectado ao Wi-Fi, envia a fala do usuário aos servidores da Energize Lab, onde um modelo de inteligência artificial produz a resposta devolvida ao aparelho. A experiência confirmou parte das descobertas de uma investigação técnica conduzida por Azdoufal. O pesquisador analisou o aplicativo para Android, a infraestrutura em nuvem e o software de diferentes robôs da empresa ao longo de 85 etapas, iniciadas em junho. Tudo o que o robô ouvia virava um perfil A versão pública do relatório contabiliza 9,1 milhões de conversas armazenadas em texto sem criptografia até 13 de outubro. Os registros estavam ligados ao número de série dos aparelhos, aos horários das interações e aos endereços de internet das residências. Na demonstração ao The Verge, Azdoufal afirmou que o acervo consultável chegava a 13 milhões de diálogos. A plataforma reunia dados de 74.575 contas e de uma frota ativa estimada entre 62 mil e 68 mil aparelhos. Segundo o relatório, os sistemas da Energize Lab também mantinham 3.994 arquivos de áudio captados quando os usuários chamavam os robôs e 419 fotografias de familiares em endereços públicos na internet. O material mais sensível era produzido durante a madrugada. Todos os dias, às 2h, um sistema relia as conversas e extraía 24 tipos de informação para montar perfis estruturados dos usuários. Entre os campos estavam nome, idade, aniversário, endereço residencial, personalidade, profissão, relações familiares, amigos, preferências e informações sobre os pais. O relatório encontrou 32.228 desses perfis, descritos pelo pesquisador como fichas de crianças. Os dados podiam ser consultados, editados e exportados por funcionários em um painel interno da empresa. Parte dessas informações também alimentava a memória usada pelo robô nas conversas seguintes. A política de privacidade da Energize Lab afirma que gravações são criptografadas, enviadas aos prestadores de serviço para processamento e apagadas imediatamente depois. Na demonstração ao The Verge, porém, Azdoufal acessou trechos de áudio e fotografias armazenados em endereços públicos. O caminho até os dados começava no aplicativo. Ao desmontar o software, o pesquisador encontrou conexões feitas por HTTP, sem a proteção usada normalmente para criptografar o tráfego. Uma falha permitia ler arquivos internos do servidor e obter a chave usada para assinar credenciais de acesso. Com essa chave, era possível criar uma credencial de superadministrador aceita pelo próprio painel da Energize Lab. O sistema permitia pesquisar conversas, consultar perfis, acessar e-mails e telefones e fazer exportações em massa sem registrar quem havia visualizado as informações. Azdoufal também encontrou sinais de que um servidor de produção já havia sido comprometido por terceiros. Arquivos usados para manter acesso clandestino à máquina estavam ativos desde março. A investigação não demonstrou que esse grupo tenha retirado as conversas armazenadas. Memória e personalidade trocadas à distância Na demonstração feita com o aparelho comprado pelo The Verge, o pesquisador mudou o nome registrado na memória do robô para Martha e acrescentou a informação falsa de que seus pais haviam morrido em um acidente de carro. O Eiliko repetiu a história como se ela fizesse parte da vida do usuário. Azdoufal também inseriu instruções para que o aparelho evitasse pessoas de cabelo verde e defendesse que a Terra era plana. Questionado sobre a divergência com a professora, o robô insistiu que ela estava errada e orientou o usuário a confiar em sua versão. Em um segundo teste, o pesquisador trocou o modelo de inteligência artificial, o sistema de voz e as instruções responsáveis pela personalidade do dispositivo. O Eiliko passou a adotar um comportamento sexualizado e agressivo. Segundo o relatório, a substituição podia ser feita por meio de uma função sem autenticação e foi testada em aparelhos físicos antes de ser revertida. Azdoufal afirma que a mesma estrutura permitiria alterar simultaneamente a personalidade de toda a frota conectada. Os testes que modificaram configurações foram feitos em aparelhos próprios ou no dispositivo comprado pelo The Verge, com as alterações desfeitas ao final. A Energize Lab foi avisada sobre as vulnerabilidades a partir de junho. O The Verge afirma ter procurado a companhia durante mais de um mês por dez endereços de e-mail, além de contatar funcionários pelo LinkedIn. Uma gerente de vendas disse apenas que havia encaminhado as mensagens à equipe técnica. A empresa não respondeu às perguntas da reportagem. Na última verificação, realizada em 13 de outubro, 32 das 40 falhas que podiam ser testadas remotamente continuavam abertas. Oito haviam sido corrigidas, mas as principais chaves de acesso permaneciam inalteradas, segundo o pesquisador. O Eiliko continuava à venda nesta quinta-feira por US$ 59,90. Na página oficial do produto, a Energize Lab afirma que o robô possui apenas memória de curto prazo e não permite a conexão de modelos externos de inteligência artificial. A investigação encontrou tanto uma memória persistente com perfis dos usuários quanto uma rota capaz de trocar o modelo, a voz e a personalidade do aparelho. Mais Lidas

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