Setor de petróleo avalia alternativas diante de cenário internacional e passa a ter Ásia como foco

Setor de petróleo avalia alternativas diante de cenário internacional e passa a ter Ásia como foco

 

Fonte: Bandeira



Maior produtor de petróleo do mundo — com um recorde de 13,6 milhões de barris por dia em 2025, 3% acima do ano anterior —, os Estados Unidos têm peso relevante nas exportações brasileiras da commodity e derivados, respondendo por cerca de 11%. Em 2025, essas vendas, lideradas pela Petrobras, renderam US$ 6,3 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

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No entanto, o tarifaço — que acabou isentando o petróleo, mas criou incertezas comerciais — e a guerra do Irã, reconfiguraram os fluxos comerciais brasileiros, que passaram a ter a Ásia como foco, especialmente a China.

Já no primeiro trimestre de 2026, as exportações de petróleo brasileiro para os Estados Unidos foram de US$ 632,3 milhões, cerca de 40% a menos do que o US$ 1,065 bilhão do mesmo período do ano passado, com ausência da Petrobras e o espaço ocupado por petroleiras independentes.

Especialistas acreditam que o crescimento das vendas de petróleo e derivados aos EUA depende de oportunidades, uma vez que o mercado americano é visto como secundário. Isso porque, além dos recordes da produção americana, há o apetite asiático crescente, especialmente da China, pelo petróleo brasileiro.

Por outro lado, o mercado dos EUA é o maior consumidor mundial do energético e o Brasil conta com a vantagem da proximidade logística. De forma que manter a perspectiva de mais vendas para lá, dizem os especialistas, serve para diversificar destinos, reduzindo a dependência da Ásia.

A Petrobras, principal exportadora de petróleo e derivados brasileiros, vendeu aos Estados Unidos em 2025, um total de 21,5 milhões de barris de petróleo cru, óleo combustível e gasolina. O produto de maior destaque foi óleo cru, com 13,1 milhões de barris, seguido por óleo combustível (4,7 milhões de barris) e gasolina (3,7 milhões de barris).

Em 2024, a venda total chegou a 32,5 milhões de barris. Foram 15,7 milhões de barris de petróleo, 8,8 milhões de barris de gasolina e 8 milhões de barris de óleo combustível. Nos primeiros três meses de 2026, houve queda na venda de gasolina: 800 mil barris contra 900 mil no mesmo período do ano anterior. E as exportações de óleos combustíveis subiram de 2 milhões de barris para 2,1 milhões de barris.

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Novas fronteiras

Não houve exportação de óleo bruto no primeiro trimestre de 2026 , mas no mesmo período do ano passado, 1,9 milhões de barris brasileiros aportaram nos EUA. A estatal considera os EUA um mercado “de grande relevância, favorecido pela proximidade geográfica com o Brasil, o que assegura custos de frete competitivos”.

Pedro Souza, líder de óleo e gás da consultoria BIP, avalia que os EUA, embora relevantes, são também um mercado altamente competitivo, com fornecedores consolidados. Ele salienta que “o Brasil vende para os EUA quando o preço, o frete, a qualidade do óleo e a demanda das refinarias fazem sentido”.

O óleo exportado para os Estados Unidos é do tipo pesado (“heavy oil”), lembra Manuel Fernandes, sócio-líder de energia e recursos naturais da KPMG. É, acrescenta ele, um tipo de menor demanda na Ásia — onde a preferência é pelo óleo de baixo enxofre. Por isso, as vendas para os americanos têm uma importância crítica.

— O Brasil não tem capacidade interna para processar todo o óleo pesado que produz. Além disso, precisar diversificar, reduzindo a forte concentração na Ásia — diz.

A insegurança em rotas marítimas — especialmente a provocada pelo conflito no Oriente Médio — favorece fornecedores mais próximos geograficamente dos EUA. Isso porque reduz o custo com frete marítimo e oferece maior estabilidade de suprimento. Esse é um aspecto, observa João Victor Marques Cardoso, pesquisador da FGV Energia, que poderia alavancar a inserção do petróleo brasileiro nos EUA.

Os Estados Unidos, aponta ele, embora respondam por 11%, em média, das exportações nacionais de petróleo, têm uma dependência menor do Brasil. Apenas 3,2% do total importado pelos americanos é brasileiro.

— Outros players possuem maior penetração no mercado americano. O Canadá representa 63%, países do Golfo Pérsico, 8%; o México, 6% e Guiana, 3,4%” — diz Cardoso.

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Em outra frente, grandes petroleiras americanas demonstram interesse em atuar em novas fronteiras exploratórias no Brasil. A ExxonMobil e a Chevron, por exemplo, adquiriram, em 2025, ativos na bacia da foz do Amazonas, na Margem Equatorial.

A primeira ficou com dez blocos, em parceria com a Petrobras, e a segunda arrematou nove, em consórcio com a chinesa CNPC. A atuação dessas empresas na exploração e produção no Brasil não necessariamente representa mais vendas ao seu país de origem. De modo geral, elas atuam pela lógica global de trading e otimização de portfólio.

— Olhando para a Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] e a situação geopolítica, além da geoeconomia atual, é bem provável que os Estados Unidos vejam o petróleo brasileiro como forma de diversificação — afirma o professor Roberto Dumas, do Insper.

O Brasil, diz o professor, sendo um território sem guerras, pode fazer com que as petroleiras americanas se sintam propensas a investir aqui.

— Mas ainda é cedo para dizer que há uma revoada desses investimentos.