Sete em cada dez pacientes que precisam de semaglutida estão sem o remédio

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Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

Basta abrir uma rede social para encontrar alguém exibindo a caneta. Ozempic, Wegovy e as diversas marcas que chegaram ao mercado viraram assunto de festa, de academia, de grupo de WhatsApp.

Poucas vezes um remédio saiu tão rápido do consultório para a cultura pop. O curioso é que, enquanto a semaglutida virou objeto de desejo de quem quer perder uns quilos para o verão, ela continua chegando pouco a um grupo que precisa dela muito mais: pessoas com diabetes tipo 2 e problemas no coração ou rins.

Antes da fama na balança, essa família de remédios, os agonistas de GLP-1, já tinha mostrado algo maior. No estudo SUSTAIN-6, com cerca de 3.

300 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, a semaglutida reduziu em 26% o conjunto de infarto, AVC e morte cardiovascular em dois anos. No estudo FLOW, em pessoas com diabetes e doença renal crônica, o risco de piora grave dos rins caiu 24% e a morte por causas cardiovasculares, 29%.

Mais tarde, o estudo SELECT mostrou proteção cardiovascular também em pessoas com obesidade e doença cardíaca, mesmo sem diabetes. É por isso que as diretrizes médicas, desde 2019, recomendam dar preferência a esses remédios para quem tem diabetes e doença cardiovascular ou renal.

Continua após a publicidade A receita não segue o risco

Um estudo publicado no fim de outubro no JAMA Network Open mostra que, na vida real, essa lógica funciona mal. Pesquisadores do Conselho Americano de Medicina Interna e da Universidade Harvard analisaram dados de cerca de 177 mil idosos com diabetes tipo 2, atendidos por mais de mil endocrinologistas nos Estados Unidos entre 2017 e 2022.

O número que mais chama atenção é este: 68,5% dos pacientes que deveriam estar usando semaglutida ou outro remédio da mesma família não usavam. São quase sete em cada dez pessoas com diabetes e doença cardiovascular ou renal, justamente as que mais se beneficiam.

Em 2018, antes da recomendação das diretrizes, o quadro era ainda pior: 82,8% estavam sem o tratamento. Houve avanço, mas lento.

E estamos falando de pacientes acompanhados por especialistas em diabetes. A comparação com os pacientes sem essas complicações torna o dado ainda mais incômodo.

Em 2022, 31,5% dos pacientes de alto risco retiraram o remédio na farmácia. Entre os de menor risco, a taxa era quase igual: 29,4%.

Ou seja, a prescrição praticamente não distinguia quem corria mais perigo. Continua após a publicidade

Os autores levantam uma hipótese: a fama do emagrecimento, a publicidade e as redes sociais passaram a puxar a demanda. A prescrição teria ficado mais guiada pelo pedido do paciente e pelo barulho da mídia do que pelo risco de cada um.

Para os remédios da classe das glifozinas (como dapagliflozina e empagliflozina), que não viraram febre, o efeito das diretrizes foi bem mais nítido. Vale lembrar que se trata de um estudo observacional, que aponta associações, não prova causa e efeito.

Do outro lado, quem não precisava Enquanto isso, a caneta foi parar em mãos que não tinham indicação tão explícita.

Um estudo publicado em setembro na revista Obesity, com prontuários de milhões de americanos, estimou que mais de 1 milhão de pessoas sem indicação aprovada, como diabetes ou obesidade, receberam remédios dessa família. Mais de um terço delas tinha peso considerado adequado.

Outro levantamento, do Instituto de Custos em Saúde dos Estados Unidos, mostrou que, em 2022, 15% de quem usava semaglutida não tinha diagnóstico de diabetes nem de excesso de peso. Continua após a publicidade

Aqui, o Brasil sentiu o mesmo fenômeno. Em 2025, diante do uso estético e de eventos adversos, a Anvisa passou a exigir a retenção da receita nas farmácias para essas canetas.

Com a queda da patente da semaglutida neste ano e a chegada de versões nacionais, o acesso tende a crescer, para o bem e para o mal. A pergunta certa na próxima consulta

Não se trata de demonizar a caneta nem quem a usa para tratar a obesidade, que é uma doença e merece tratamento. O problema é a inversão de prioridades.

Um remédio com benefício comprovado em infarto, AVC e rins deveria chegar primeiro a quem está em risco. Se você tem diabetes tipo 2 e já teve infarto ou AVC, ou convive com doença renal, a pergunta para a próxima consulta não é se a caneta emagrece.

É se ela pode proteger o seu coração e os seus rins. Nunca comece nem suspenda um tratamento por conta própria.

Mas essa conversa pode mudar o rumo da sua saúde. Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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