Sessão que afastou ministro do STJ teve leitura de relatos de vítimas: 'Clima de funeral e indignação'

 

Fonte:


A rápida sessão que marcou o afastamento do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Buzzi foi marcada por um "clima de funeral e indignação", segundo relatos feitos por ministros da Corte ao GLOBO. O tribunal se reuniu na manhã desta terça-feira para deliberar qual seria o procedimento adotado em relação ao colega após a revelação de mais uma denúncia de importunação sexual apresentada nesta segunda-feira ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) — formalizadas por duas mulheres diferentes. 

Segundo relatos feitos ao GLOBO, os ministros estavam em estado de "perplexidade total" e o resultado foi unânime. Trechos dos depoimentos das vítimas foram lidos pelo ministro Francisco Falcão, um dos integrantes da comissão de sindicância instalada na semana passada para apurar a primeira acusação contra Buzzi — apresentada por uma jovem de 18 anos, filha de amigos do magistrado que passavam as férias na casa de praia dele, no litoral de Santa Catarina. 

Segundo um magistrado, a reação ao caso foi de "certo asco".

Ainda de acordo com ministros que estavam presentes, todos os integrantes da sessão, da qual Buzzi não participou, ouviram as acusações em "absoluto silêncio". Não houve defesa do ministro por parte dos pares. 

Nesta terça-feira, a unanimidade do pleno do tribunal decidiu afastar Buzzi do cargo. Enquanto estiver afastado, Buzzi ficará impedido de utilizar seu local de trabalho, veículo oficial e demais prerrogativas inerentes ao exercício da função, segundo a decisão do STJ.

Autoridades da Corte ouvidas pelo GLOBO também relataram incômodo com abordagens feitas por Buzzi e afirmaram que o ministro e pessoas ligadas a ele entraram em contato com outros ministros por meio de aplicativo de mensagem após o registro da segunda denúncia contra ele, feito por uma ex-assessora. 

Um dos integrantes da Corte afirmou entender que o contato, inclusive com o envio de uma carta, é indevido. Os episódios teriam ocorrido na noite da última segunda-feira, no mesmo dia em que uma nova denúncia, de uma ex-assessora, foi feita contra o magistrado e formalizada. 

Em mensagem enviada aos colegas da Corte nesta segunda-feira, o ministro afirmou ser inocente e disse estar “muito impactado” com as notícias veiculadas. No texto, informou que se encontra internado em um hospital, sob acompanhamento cardíaco e emocional.

“De modo informal soube de fatos contra mim imputados, os quais igualmente repúdio. Tudo está causando mágoas às pessoas da minha família e convivência”, escreveu. O magistrado afirmou ainda que provará sua inocência, destacando sua trajetória pessoal e profissional e o apoio da família.

Na declaração, o ministro lamentou o desgaste causado ao STJ e afirmou estar submetido a “dor, angústia e exposição que ninguém desejaria vivenciar”.

A nova acusação foi registrada no CNJ após o depoimento de outra suposta vítima à Corregedoria Nacional de Justiça. Com base no relato, foi instaurada uma nova reclamação disciplinar para apurar os fatos.